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terça-feira, 25 de maio de 2010

UMA OBRA-PRIMA DE NOEL ROSA

CONVERSA DE BOTEQUIM
 
 
 
Seu garçom faça o favor
De me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um gardanapo
E um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita
Com muito cuidado
Que eu não estou disposto
A ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol
E se você ficar limpando a mesa
Não me levanto e nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro
Um envelope e um cartão
Seu garçon faça o favor
De me trazer depressa (...)
 
Não se esqueça de me dar palito
E um cigarro pra espantar mosquito
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste uma revista
Um cinzeiro e um isqueiro
Seu garçom faça o favor
De me trazer depressa (...)
Telefone ao menos uma vez
Para três quatro quatro três três três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda chuva
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom faça o favor
De me trazer depressa (...)
Seu garçom me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali
em frente
Seu garçom faça o favor
De me trazer depressa (...)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

UMA DAS PRIMEIRAS COMPOSIÇÕES DE NÖEL ROSA

Aos 19 anos, Nöel Rosa tocava muito bem violão e já compunha músicas e toadas. Conheçam essa letra de uma de suas toadas iniciais e vejam como o enredo é totalmente gaiato e quase infantil. No entanto, genial pois já trazia a marca de Nöel Rosa
 
FESTA NO CÉU

 

De Nöel Rosa

 

O leão ia casá

Com sua noiva leoa

E São Pedro pra agradá

Preparou uma festa boa

Mandou logo um telegrama

Convidando os bichos macho

Que levasse todas dama

Que existisse cá por baixo

Pois tinha uma bela mesa

E um piano no salão

Findo o baile, por supresa

No banquete do leão

Os bichos todo avisados

Tavam esperando o dia

Tudo tava preparado

Para entrá firme na orgia

E no tar dia marcado

Os bichos tomaram banho

Foram pro céu alinhoa

Tudo em ordem por tamanho

O mosquito entrou na sala

Com um charuto na boca

Percevejo de bengala

E a barata entrou de toca

Zunindo qual uma seta

Veio o pingüim do pólo

E o peixe de bicicleta

Com o tamanduá no colo

O siri chegou atrasado

No bico do passarinho

Pois muito tinha custado

Pra botá seu colarinho

E o gato foi de luva

Para assistir o casório

Jacaré de guarda-chuva

E a cobra de suspensório

O porco de terno branco

Com o sapato sem sola

E o tigre de tamanco

De casaca e decartola

De lacinho a borboleta

Veio o veado galheiro

E o burro de luneta

Montado num carroceiro

O macaco com a macaca

Com o rouge pelo focinho

Estava engraçada a vaca

De porta-seio e corpinho

Vou breviá o discurso

Pra não dizê tantos nome

Lá foi a muié do urso

Da cebeleira à La homme

Quando o leão foi entrado

São Pedro muito se riu

E pros bicho foi gritando

"Caiu, primeiro de abril."

quarta-feira, 12 de maio de 2010

TARZAN, O FILHO DO ALFAIATE

Samba-choro de 1936, homenagem ao centenário de nascimento do poeta Nöel Rosa, a ser comemorado em dezembro deste ano

 

Noel Rosa e Vadico

 

 

Quem foi que disse que eu era forte?

Nunca pratiquei esporte

Nem conheço futebol

O meu parceiro sempre foi o travesseiro

E eu passo um ano inteiro

Sem ver um raio de sol

 

A minha força bruta reside

Em um clássico cabide

Já cansado de sofrer

Minha armadura é de casimira dura

Que me dá musculatura

Mas que pesa e faz doer

 

Eu poso pros fotógrafos

E distribuo autógrafos

A todas as pequenas lá da praia de manhã

Um argentino me disse

Me vendo em Copacabana:

"No hay fuerza sobre-humana

Que detenga este Tarzan"

 

De lutas não entendo abacate

Pois o meu grande alfaiate

Não faz roupa pra brigar

Sou incapaz de machucar uma formiga

Não há homem que consiga

Nos meus músculos pegar

 

Cheguei até a ser contratado

Pra subir em um tablado

Pra vencer o campeão

Mas a empresa pra evitar assassinato

Rasgou logo o meu contrato

Quando me viu sem roupão