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sexta-feira, 30 de março de 2012

FERREIRA GULLAR RECEBE O PRÊMIO MOACYR SCLIAR

OFF PRICE

Ferreira Gullar

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora do esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado
Esse poema do livro "Em alguma parte alguma", de Ferreira Gullar, foi
lembrado ontem à noite (29) na cerimônia de entrega do Prêmio Moacyr
Scliar ao poeta maranhense pela viúva do escritor gaúcho, Judith
Scliar. A cerimônia foi realizada na Biblioteca Nacional, na
Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, com a presença do governador
Tarso Genro, que também recitou um verso de Gullar antes de lhe
entregar o troféu: "introduza na poesia a palavra diarréia."
--
Ou a gente se Raoni
Ou a gente se Sting
Luis Turiba

quinta-feira, 8 de março de 2012

ÀS MULHERES...BIFES À CAÇAROLA

(Receita pra boi dormir)

Luis Turiba

De ceroula e avental, fui pra boca do fogão
Minha porção cozinheira se ascendeu toda em sal
O fogo brando, a carne é fresca & a lua cheira.
Abri um vinho, liguei pra ela: qual é a receita?
Cortei cebola, piquei tomate & pimentão.
Lhe dediquei à lua o alho e as piruetas.
Temperei bifes, os refoguei e nada mal.
Agora à mesa: quão gostosura.
O bife duro então esnoba todo senhora
Carne à calcinha ou à caçarola?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

QUEM SALVA SALVADOR? SERÁ QUE SE SALVARÁ? SARAVÁ!!!

Luis Turiba

Quem salva a Bahia?
Quem salva Salvador?
A PM revolta insana?
Jacques governador?
Caetano Veloso?
... Ivete Sangalô?
Mâe Stella ou Vovô?
Quem salva a Bahia?
Quem salva Salvador?
O exército brasileiro?
ACM ressuscitado?
Um livro de Jorge Amado?
Um ano sem carnaval?
Ou os tambores da paz?
Por Meninha do Ganthois
Pelas meninas de Oxum
Por Oxalá e Ogun
Por nosso Senhor do Bonfim
Quando a guerra terá fim?
Quem salva Salvador?
Será que se salvará?
Saravá!

--
Ou a gente se Raoni
Ou a gente se Sting

Luis Turiba

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

POESIA NO CEP 20 000. É AMANHÃ QUE DRUMMOND FICARÁ NU




lucinha

SURGE UM NOVO POETA. VIVA A POESIA DE FABRÍZIO MORELO

Fabrízio Morelo: estréia será na Bienal do T-Bone

"tediário"

. A palavra não está nos dicionários oficiais, mas no vernáculo próprio dos poetas, que têm licença para grafar de maneira própria sentimentos. No caso em questão o poeta é Fabrízio Morelo e tediário o título com que ele oferece ao mercado editorial de Brasília junto com a chuva generosa deste 2011.

Advogado por profissão e poeta por compulsão de sobrevivência, Fabrízio lança seu primeiro livro no próximo dia 28 de outubro na Bienal do B, no Açougue Cultural T-Bone. Fará, na ocasião, um pequeno recital, onde dirá a que veio: declamará alguns poemas e apresentará um pouco do seu trabalho de letrista e compositor em parcerias com Sérgio Duboc e Vicente Sá.

Quem estiver lá, verá: estreante na palavra impressa, Fabrízio não é um poeta desconhecido, como destaca Vicente Sá no prefácio de tediário:

"Seus poemas e algumas letras de música já circulam na internet e rodas de samba de Brasília e de Minas Gerais." Outro parceiro, o músico Hamilton Holanda, apresenta o poeta com o conhecimento e o afeto declarados por frutos de uma amizade de 20 anos:

"Fabrizio mistura toda a sua experiência de leitor voraz e estudioso da palavra com sua paixão pela cultura popular, em especial pelo samba. Sua poesia tem ritmo, tem o balanço sincopado e bem cadenciado. Há o sofrimento, a resignação e o humos. Por vezes parece que escreve mais pelo som das palavras do que pelo signo, e isso é muito bom."

E Vicente Sá, no prefácio, completa: "O ritmo é pulsante e a palavra fui fácil, leve, como a pegada simples de um urso na floresta nativa, ou o nado de um peixe em seu riozinho esquecido lá por Minas Gerais."

Porque é em Minas que Fabrízio tem suas raízes escancaradamente expostas em vários dos poemas de tediário. Como expostas estão a paixão imedida pela filha Alice e as grandes verdades de um poeta que, como já disse Maiakoviski, é "todo coração".

Com vinte poemas organizados em quatro "capítulos" – poemas de traço, poema de assalto, poemas de amor e poemas de ocasião – tediário tem 60 páginas preciosamente embaladas em projeto gráfico e capa de Ribamar Fonseca e uma única ilustração de Gustavo H. Menezes. Sérgio Amaral fotografou o poeta.

Como disse Hamilton Holanda: "Para o leitor é um presente viajar por essa fantasia real."

Serviço:

tediário, de Fabrízio Morelo

60 páginas, edição do autor, Preço – R$ 25,00

Lançamento, dia 28 de outubro, 19h30min, na Bienal do B, a Poesia na Rua

Açougue Cultural T-Bone, comercial da 312 Norte, Brasília

fabriziomorelo@gmail.com

segunda-feira, 3 de maio de 2010

FERNANDO PESSOA: "MINHA PÁTRIA É A LÍNGUA PORTUGUESA"

 Sequestrado de SIBILA, site de poesia e textos inteligentes

Minha pátria é a língua portuguesa


Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. "Fabricou Salomão um palácio..." E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.



"Livro do Desassossego", por Bernardo Soares. Vol. I, Fernando Pessoa


terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O POETA DE OLHO MÁGICO

Por Luis Turiba

Roubaram do poeta os óculos
Tirando-lhe o visual d`estátua
Há neste furto certo imbróglio
Um quê místico um ar de máfia

De um olhar férreo de minério
O poeta mantém-se etéreo
Nem o fogo solda cáustica
Tira dele o "zero-a-zero"

Com ou sem seus óculos
O poeta não mexe músculo
Nem a passagem do monótono
Mas frenético Monobloco

De costas pro mar impávido
Carlos Drummond é o espírito
Do poeta que sem óculos
Tem visão de olho mágico

Carlos Drummond é o máximo
Que não cega nossos mínimos
De bronze é sua poética
Vê um tanto além do hospício

Fotos de Vânia Pinheiro

sábado, 23 de maio de 2009

CASA NO CAMPO

Composição: Zé Rodrix / Tavito


Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar do tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras pastando
Solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas

Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão,
A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau a pique e sapê
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais