terça-feira, 14 de abril de 2009
LULA QUER JUCA RELAXADO
Outro dia escrevi aqui no blog que o ministro da Cultura, Juca Ferreira, estava precisando, com urgência, se sacudir num show de Gilberto Gil para relaxar e enfrentar com maestria o processo de mudança na Lei Rouanet. Ontem saiu a seguinte notinha na Mônica Bergamo, no Ilustrada da Folha. Leiam:
"CALDOFerreira diz também que recebeu sinal verde de Lula para prosseguir na discussão sobre mudanças na Lei Rouanet. “Ele sabia que haveria resistência às mudanças. Me pediu para ter muita paciência e muito diálogo”, diz o ministro.
Mônica Bergamo - Folha de SP
sábado, 11 de abril de 2009
Feliz Páscoa a Todos!!
Visitem o blog da amneres no seguinte endereço: www.poesiaemtemporeal.com
abraços & beijos
Luis Turiba
Jardim do Éden
Paro tudo,
qualquer movimento,
e o que resta é o som,
a imensidade do som
do silêncio
no meio do mato,
nos pios dos pássaros,
zum zum dos insetos,
farfalho de verdes capins,
a alma em silêncio
contempla esse mundo
tão simples,
tão manso,
tão plácido,
e a gente se espanta
com tanto sossego,
com a luz que emana do alto,
e então tem certeza:
é obra divina,
é Deus cultivando o jardim.
Amneres (08/04/2009)
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Marc Chagal e sua declaração de amor
Bombou galera!
A exposição “Virada Russa: a Vanguarda na coleção do Museu Estatal de São Peterburgo”, em cartaz no CCBB de Brasília (depois vai pro Rio e pra SP) é realmente emocionante e transcendental. Veio para fazer história no universo das artes visuais.
São quadros, cartazes, instalações de vanguarda do período pré e pós Revolução Bolchevique (1917) que muito ajudaram a Lênin e seus camaradas na derrubada revolucionária do regime Czarista. Juntos, revolucionários marxistas e artistas alucinadamente livres e ousados, entre os quais o poeta Maiakowiski, sonharam e instalaram a primeira república socialista do mundo. Esteticamente, abriram caminho para Picasso, Miro e muitos outros.
Mais entre tantas coisas importantes e maravilhosas, um quadro de Marc Chagall – Passeio, de 1917 – roubou a cena. Sozinho, vale por toda exposição.
Um poema, um mino, um verdadeiro passeio do amor entre um homem e uma mulher a obra de Chagall. Um cavaleiro sobrancelhudo com um sorriso pra lá de maroto nos lábios, segura a mão de uma dama enamorada e a faz voar, como uma pipa de vestido lilás, sobre sua aldeia em clima de pic-nic apaixonado.
Chagall foi um homem feliz. Viveu e morreu feliz, fazendo seus personagens alçarem vôos rumo ao sonho e ao amor. Quando a barra pesou, sabiamente pulou fora. Viajou, foi conhecer as vanguardas européias, morou em Paris.
Chega! Quem mora em Brasília, não pode perder essa exposição que merece mais de uma visita. Cariocas e paulistas, please, aguardem ansiosamente que desta vez Brasília saiu na frente.
Brasília, Brasis
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento
No Planalto Central do País”
Caetano Veloso
No princípio era o barro, o cerrado, a esperança. Até que o velho Fenemê cheirando a graxa com sua pintura cor de terra, estacionou ao deus-dará do Planalto Central e ali descarregou a primeira legião de trabalhadores anônimos. Sim, era o homem. “Vinham de longe através de muitas solidões”, escreveu Vinicius de Moraes. As forças vivas da Nação foram convocadas a erguer “num tempo, o novo tempo”. Estava dada a largada para uma das mais espetaculares epopéias de um povo no século XX. Uma verdadeira maratona da civilização moderna. Tanto que quase meio século depois eles continuam chegando à cidade moderna. “Será que é imaginação? Será que vamos conseguir vencer?” Os versos de Renato Russo refletem a perplexidade da chegada. Josés, Raimundos, Severinos e Franciscos perdiam a identidade. Coletivamente, eram candangos – palavra originária do quimbundo-angolano kandungu, pessoa ruim, vilão. Nos canteiros de obras passavam a ser chamados de Bahia, Piauí, Mineiro, Pará, Gaúcho ou Goiano. Toda conquista envolve riscos. Quantos ficaram pelos caminhos, perderam-se pela poeira das construções? A notoriedade cosmopolita de Brasília na Idade Mídia da Razão foi construída por hordas de brasis. O vidro fume dos prédios inteligentes, o transitar veloz dos Mitsubishis, o telefone celular e o lep-top que pluga o político e o executivo com qualquer praça do planeta. Nada disso existiria sem os milhões de brasis. Brasília tem hoje o sotaque dos brasis, o jeito dos brasis, a cara dos brasis. Brasília, a melhor e a mais viva síntese de um povo. Brasília, capital Brasis.
Publicado no livro Bala, em 2005
terça-feira, 7 de abril de 2009
Jorge Feitiço faz festa de arromba, Lula não foi por causa do dilúvio
Ele é somente um ano mais velho que Brasília. O comerciante Jorge Ferreira, proprietário de uma rede de restaurantes de Brasília, entre os quais o histórico Feitiço Mineiro, palco de homéricos espetáculos de sambas e outros ritmos, festejou seu cinqüentenário no início deste abril com uma festa de arromba para quase mil pessoas. O churrasco foi na Casa do Candango, em frente à Câmara Legislativa.Jorge é um ser cultural por natureza. Ou como escreveu o jornalista Carlos Henrique: “Jorge é da roça e do elevador, como no verso de Drummond.”
O certo, é que ele aproveitou a ocasião para lançar seu primeiro livro “Fazimento”, com crônicas, causos e poemas mineiramente editados. A cada um dos convidados, Jorge presenteou com um exemplar, cuja apresentação e a programação gráfica é de Ziraldo.
“Ser humano, conforme se sabe, é que nem cachorro: tem raça. A raça em questão é a de gente que não sai do sonho, que parece não ter os pés no chão e que, na vida, conjuga o verbo outrar que o Drummond inventou. A marca principal da raça do Jorge é a generosidade”, escreveu Ziraldo.

Jorge é amigo de muita gente. Entre tantos, destaque para o presidente Lula, com quem fazia pescarias nos tempos em que “o cara” era somente um constante candidato à Presidência da República. No dia da festa, Lula havia chegado de Londres e avisou que ia sim, não poderia faltar ao amigo. Mas não foi por dois motivos. Primeiro, porque caiu um tremendo dilúvio naquela tarde em Brasília. Depois, porque na mesa que estava sentado os ex-ministros José Dirceu e Agnelo Queirós; os deputados Geraldo Magela e Rodrigo Rollemberg, além da socialite Moema Leão e do compositor Fernando Brant, havia um convidado muito incomodo para o presidente: o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, aquele que ganhou uma Land Rover de presente. Trocadilhos à parte, Lula aproveitou o dilúvio para se livrar do Delúbio.
domingo, 5 de abril de 2009
O cara, o pop-star hip-hop
Ainda bem que Lula não tem os dez dedos. Já pensaram: se com nove está barbarizando, fazendo cestas e mais cestas de três pontos, tirando coelho da cartola dos outros e ainda por cima quase senta no colo da rainha branca de olhos azuis para sair bem na foto. Com os dez então, nossa! O cara ficaria muito metido, impossível de aturar, chique nas últimas.
Ao escrever isso, não quero sacanear ninguém. Ao contrário: estou é louvando o nosso presidente, massageando seu ego, pois seu comportamento nesses palcos internacionais ultrapassou a fronteira do político e caiu no campo pop. Um fenômeno da pororoca eletrônica dos tempos midiáticos, no dizer do filósofo Jorge Mauter.
São atitudes, falas e trejeitos brasileiramente culturais, de uma poética hip-hop transcendental que só o jeito dos trópicos permite ser. Somente um líder brasileiro, operário e nordestino, poderia ser o que Lula é para os demais dirigentes do planeta: o cara.
E o que significa ser “o cara” do planeta Terra a esta altura do campeonato? Bem, primeiro dá gosto vê-lo surfando na crista da onda. Afinal, Lula enxerga a “responsa” que o Brasil tem na construção de uma nova ordem mundial para o planeta, uma relação mais humana, mais natural, mais mestiça. Lula, assim como o Brasil, é uma espécie de zebra desta confraria. Mas é essa zebra que banca os treze pontos do bolão do sistema financeiro internacional. Se não, como ele costuma dizer: o mundo “sifu”, meu.
Quando afirma que Obama se parece com um neguinho “bahiano”, Lula nos remete a personagens de Jorge Amado, a uma canção praieira de Caymmi ou a um quadro de Carybé. Obama capoeirista, sambista, mulato de Copacabana. Nada mais mestiço, nada mais brasileiramente mundano do que um Obama baiano. Ou seja: Lula trouxe “o mais poderoso” para o Brasil. Jogada de mestre: somente um pop star de barba branca e semblante de estadista é capaz de criar uma imagem como esta.
Por isso, Lula é “o cara” do planeta. Por que se fez por si próprio espelho do povo brasileiro. Ele não é uma invenção cerebral de Zé Dirceu, nem do marketing de Duda Mendonça ou João Santana. Para se sentar ao lado da Rainha (de olhos azuis) Elizabeth, ele deixou a vida lhe levar bem aos moldes de Zeca Pagodinho e Ronaldo Fenômeno. E os ventos sopraram a seu favor, a ponto de transformá-lo num “oreia” de Nicolas Sarkozy.
Assim como Kid Morengueira foi o nosso Rei do Gatilho, Lula é o rei das metáforas. Ele quebra o discurso diplomático com tiradas e breques que já entraram para a história. Tudo coisa da própria cabeça. Não há no Palácio do Planalto um assessor para gracinhas.
Há muito que precisávamos de um presidente assim. JK, em meados do século passado, foi chamado de “Presidente Bossa Nova”. Foi o sujeito que empurrou o Brasil pra frente, quebrou paradigmas humanos e nos livrou do complexo de vira-lata. Além do cara, foi “a cara” do Brasil pré-moderno da construção de Brasília. E lá se vão 50 meio século de história.
Agora que os novos tempos começaram (será?), Lula assume o pós-tudo e é apontado para a história (e não para a eleição de Dilma) como “ó do borogodó”, o top de linha, o cara que dá a benção a Bono Vox e mexe com o tango feminino de Cristina Kirchner. O cara sabe das coisas. Sabe até cantar Cazuza olhando da janela do seu palácio para o gabinete de Sarney no Senado: “A sua piscina está cheia de ratos, suas idéias não correspondem aos fatos, o tempo não pára, eu sou o cara.”
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Ah, como era gostoso o meu miojo
Luis Turiba
Tudo começou num “inhoque da fortuna” certo dia 29, depois da novela.
Descasadas e cansadas do fardo da solidão, três amigas, mulheres maduras e financeiramente estáveis, resolveram dar a volta por cima daquele marasmo existencial. Maria Aparecida, Maria do Carmo, Maria da Glória. A vida, minhas três Marias, foi feita para ser revividas, portanto....
O jantar com notas de dólar debaixo dos pratos foi o ponto de partida. Regado a vinho chileno e pitadas de lembranças do passado de anteontem, onde eram elas objetos de cortejos, lampejos e desejos.
Na flor da idade uma delas, se não me engano Maria da Glória, imagine, chegou a se comparada certa feita a uma montanha russa em erupção, devido aos seus acentuados sobes-e-desces curvilíneos. Hoje, simples morrotes no caminho. Mesmo assim, repletos de desvios, descaminhos em desalinhos, algo como a face oculta da lua.
Mas gente, cá pra nós, isso também tem seu jeito. O negócio agora é conserta malhando. Aulas de strep-teases? Lingeries frutíferos, exercícios de yoga sex ou pampoarismo? Ah, quem sabe depois. Agora, o negócio agora é entrar na hidroginástica básica. Sim, esse conceito surgiu depois do segundo prato de inhoque.
Vamos lá, meninas, hidroginástica é a malhação ideal, passaporte de saúde para a terceira idade. É atividade lúdica, divertida, expõe o corpo a contrastes leves, revitaliza as curvas da estrada de Santos. Enfim, é o bicho no sentido menos sinistro do ser artístico.
E assim, no dia seguinte, chegaram as três Marias na academia. Maria do Carmo, de tão excitada com a idéia de voltar a ativa, nem dormiu direito. Maiô novo, toquinha lilás, tudo demais. O tchan começou no estacionamento. Já saltaram do carro saltitando, sacudindo o esqueleto recheado. E lá vão elas, reavivar o corpo, as artérias, suas vidas, suas mentes, suas lembranças em forma de sonhos.
Malha daqui, puxa dali, bota peso, tira bota, chegou a hora do exercício que as crianças mais adoram numa piscina: montar no macarrão de isopor arqueado e pedalar, enquanto as mãos fazem a puxada.
O que ninguém contava era com a sensibilidade aguçada e o descontrole quase histérico de Maria da Glória.
O simples roçar do isopor redondo e curvo no ventre, promoveu-lhe antigas sensações conhecidas mas já há algum tempo adormecidas.
Mas qual o quê: não é que o antigo vulcão despertou. Sem mais nem menos, da Glória sentiu calafrios calientes que lhe subiam num circuito energético de altísssima velocidade pela avenida central da espinha rumo ao celebro apoteótico.
Tinha a sensação de que ia voar. As coxas, os músculos do ventre, os braços, tudo, enfim, em fração de segundos e sem opinião da razão, começou a bater asas. Arre, Babá, baixou a barata voa!
Maria da Glória sentiu-se poderosa, tomada por calores e fumaças interiores. Mais do que isso: fez jus ao próprio nome: Maria Gloriosa, a loba da piscina da hidroginástica.
Alisava o macarrão com mãos de fada e unhas de bruxa. Uma indiscreta colega de malhação jura que ouviu dela um baixinho balbuciar com aquele nhenhennhém mal intencionado: “vem cá meu fetucchine!!!”
Sereia da piscina montada no macarrão de isopor, com um cavalgar ritmado, da Glória imaginava suculentos pratos de massa que compuseram a sua infância de tradição napolitana. Molhos brancos, vermelhos, verdes, rose, multicores. Lambuzava os beiços e soltava gritinhos de “uis” e “ais”.
Que delícia esse “Tagliatelli ao Ragu de Pato”. Ai meu “Parafuso à cremosa”! Meu “Penne com Lagosta e Trutas Brancas”!
A malha(ação) daquela Maria tomou atalhos e temperos nunca dantes navegáveis. A molhadinha na hidroginástica, ela fervia soltando a franga no ravióli.
“Ah, meu spaguetti com salsa de funghi à funghetto”, fungava al dente la buona cuccina, como uma velha mamma dando toda a magia culinária a um simples miojo.
Lá ia e lá vinha a gloriosa da Glória cheia de glosas, agarrando-se ao macarrão flutuante com frenesi e estilo. Os gritos e os sinais da boa boca da donna eram audíveis. Uma fantasia veneziana, um sentimento arqueológico romano. Santa ceia, chamem o Papa. Mãos firmes na macarronada, lá ia Glória, a poderosa, sacudindo-se n´água como talharim em fervura. Berrava e até uivava implorando mais spaguetti allá checca.
Assustada, a professora implorava clemência, mas a essa altura a massa da Glória à bolonhesa com sugo de quatro queijos a nada mais atendia.
Duas alunas que nada entendem de massa na fervura, desligaram-lhe o forno puxando-a para fora do isopor, interrompendo o que poderia ter sido o mais cinematográfico orgasmo macarrônico digno de Rita Pavone.
A amiga Maria Aparecida riu de fazer xixi na piscina. Já Maria do Carmo, que bem conhecia o fogo brando de Maria da Glória, comentou saudosa:
- Que sensibilidade... que apetite....mama mia....