| "Ao chegar a São Paulo para o primeiro encontro que resultaria em uma entrevista rolava na minha cabeça um certo receio, afinal Mindlin era um dos donos da Metal Leve, um grande PIB e eu apenas um Bric. Ao chegar à casa nada de ostentação, uma tremenda hospitalidade, um papo regado a whisky e uma figura extremamente gentil, inteligente, contadora de causos, cativante. Ao chegar ao pavilhão um desbunde de livros organizados, bem cuidados, em um ambiente próprio para que se sentissem bem e um senhor discorrendo sobre eles com muita intimidade, com muito amor durante horas. Ao sair, a certeza de que tinha conhecido um homem muito especial." | ||
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terça-feira, 2 de março de 2010
MINDLIN FOI UM HOMEM MUITO ESPECIAL
segunda-feira, 1 de março de 2010
QUE TIPO DE LEITOR FOI JOSÉ MINDLIN?
A pergunta mistura uma série de coisas – o tipo de leitor, a atração do livro como conteúdo ou como objeto, a posse do livro, a coleção, e, finalmente, o que deveria vir em primeiro lugar, a leitura. Essas coisas só vão juntas por acaso, ao menos em conjunto, e há uma série de combinações possíveis com os elementos que a compõem. Eu me considero um leitor incansável e indisciplinado. Leio muito desde a infância, livros sobre os mais variados assuntos, desde que atraiam o meu interesse. Não gosto de ler por obrigação, o que, aliás, só raramente acontece. Desconfio dos livros de sucesso, e desses, em geral, só vou ler os que tiveram um tempo de decantação. Se os próprios escritores, aliás, especialmente os principiantes, fizessem isso – pôr o livro na gaveta, depois de escrito, por um ou dois anos, e ver depois disso se o texto resistiu a uma releitura -, é provável que a massa imensa de livros que se publicam no mundo se reduzisse substancialmente. Reconheço, é claro, que isso é meio utópico, e compreendo perfeitamente a impaciência do outro jovem de se ver publicado. A paciência é que não seria natural. Procuro neste assunto ter em mente a frase de Thomas Mann, que a leitura dos bons livros devia ser proibida, porque existem os ótimos, mas não sou tão radical. Há muito livro apenas bom que merece ser lido, e nem sempre o bom e o ótimo são classificados uniformemente por leitores diferentes. Não gosto de livro difícil, a não ser excepcionalmente, e só com boas razões, como Proust, Joyce, e Guimarães Rosa, por exemplo. Essa é, creio eu, uma das minhas grandes afinidades com Montaigne, que li desde a mocidade, especialmente durante as aulas da Faculdade de Direito. E enquanto os professores liam durante 50 minutos suas preleções, que depois eu lia em casa em 15, eu ficava lendo os "Ensaios" e muita coisa mais. Pois Montaigne diz que quando encontra dificuldades na leitura, não se preocupa demais. Abandona-a depois de uma ou duas tentativas, pois se insistisse perder-se-ia e o seu tempo; seu espírito é de compreensão imediata. O que não entende desde logo, entende menos se obstinando. Não faz nada sem alegria. Posso dizer também que é o meu caso. Daí eu me considerar indisciplinado, e a biblioteca, por tabela, também ser. Às vezes o esforço é necessário, e eu me submeto, mas isso geralmente só faço quando tenho boa informação, ou alguém cujo critério respeito recomenda o livro. De pegar espontaneamente e ler uma obra que depois das primeiras 20 ou 30 páginas excede à minha compreensão, por um estilo rebarbativo ou pedante, não tenho lembrança. Dos que mencionei como difíceis, Proust e Guimarães Rosa passaram a ser leituras e releituras constantes. Joyce, menos, mas aí certamente por falha minha – li primeiro a tradução francesa de Ulysses, que é muito boa e tem a vantagem de decodificar muito mistério; depois o original, e ainda a do Antonio Houaiss, que é um trabalho incrível. Nesta, muitas passagens, mas não houve empatia, e não acredito que vá relê-la. Pelo menos me esforcei. Gosto muito de ficção, de biografia, de ensaios, de história e viagens (especialmente Brasil), crítica literária, e, naturalmente, poesia. Teatro, desde o grego, passando por Shakespeare, Molière, chegando aos nossos dias; roteiros de cinema, e, ocasionalmente, um bom livro policial ou erótico também fazem parte da pauta das leituras, que, como vocês vêem, não é pequena. Mas devo dizer que leio meio desordenadamente, passando de um assunto a outro muito diverso, ou mesmo lendo dois ou três livros ao mesmo tempo, sem me preocupar se isso se deve ou não se deve fazer. Não tenho preconceitos sobre isso – aliás, evito o preconceito em geral. Faltou falar nos livros de arte, mas aí confesso que olho muito do que leio. Se alguém se escandalizar lendo isso, paciência – é a pura verdade.
Mas vamos ver se consigo responder à pergunta toda. De fato, além do conteúdo, o livro, conforme a edição, a encadernação, a diagramação, a ilustração, ou o papel, tem para mim uma atração física. Ver um livro numa vitrine, sem poder pegá-lo, positivamente não me satisfaz. Minha tese é que a gente deve poder tocar naquilo que gosta, sentir o objeto (ou, se for o caso, a pessoa...). Gosto de gráfica, embora meu conhecimento seja empírico – mas naturalmente, convivendo com o livro a vida inteira, lendo coisas sobre tipografia, diagramação, ilustração, visitando bibliotecas, estudando catálogos e bibliografias, conversando com amigos que sofrem do mesmo mal, a gente acaba aprendendo, e até chega a desenvolver um sentido crítico instintivo – o sexto sentido que advém da experiência. Um bom exemplo foi uma coisa que me aconteceu na Inglaterra, quando perguntei a um livreiro antiquário se tinha uma edição de Rabelais do século XVI. Orgulhosamente, o livreiro tirou da estante um exemplar datado de 1558. Peguei, folheei, e, com certa cerimônia, disse que o livro me parecia ser do século XVII, e provavelmente antedatado. Por que o senhor diz isso? perguntou-me o livreiro, meio espantado. Eu tive que responder que não sabia bem a razão, pois era apenas uma impressão, resultado do toque, da composição, do tipo, sei lá. Fomos consultar uma bibliografia, a lá estava a confirmação de minha dúvida – a edição era de 1630, antedatada, e reconhecível por algumas particularidades da página de rosto, que constavam do exemplar que eu tinha em mãos. Não consegui convencer o livreiro que eu não era um especialista em Rabelais, mas o fato é que não era e não sou, e desconhecia completamente a existência dessa edição. Agora, o que eu responderia a um cidadão anônimo, numa esquina qualquer, que me fizesse a pergunta que vocês imaginaram, dependeria muito da cara do sujeito e da minha avaliação da sua capacidade de compreender os mais variados motivos que levam uma pessoa à aparente maluquice inusitada na pergunta. No meu caso, a Camoneana começou pequena, e foi crescendo no tempo, com edições críticas e comentários que são indispensáveis à boa leitura de Os Lusíadas e até mesmo de outras obras de Camões. Na medida em que começou a surgir um conjunto significativo, foi inevitável a vontade de ir conseguindo as principais edições, seja pelo texto, pois há variantes, seja pelos comentários, pela ilustração, pela apresentação gráfica, e, por que não confessar?, pela raridade, que é um componente importante do prazer. Além disso, há as traduções, e aí, além das legíveis para mim, surge a curiosidade, por exemplo, de uma tradução japonesa. E assim vão crescendo os exemplares. Naturalmente, a motivação básica, no meu caso, foi gostar de Camões, de quem, por felicidade, só li na escola pequenos trechos. Não fui obrigado a fazer a análise lógica que afastou de Camões tanta gente que não sabe o que perde não o lendo. O mesmo se aplica a outros temas, em que o interesse inicial da leitura vai se transformando, no tempo, em coleção. Camões é apenas um exemplo. Uma última coisa deve ser dita, apesar de parecer absurdo a muita gente: em geral, mesmo tendo edições preciosas de muitos autores, especialmente do século XVI ao XIX, até mesmo algumas contemporâneas, é freqüente que eu leia a obra numa edição comum, numa brochura que eu possa carregar comigo sem me preocupar com a conservação. E a edição rara eu abro só de vez em quando, aí também com o prazer físico, curtindo umas páginas como se curtem outros prazeres – por exemplo, um vinho velho, para ser discreto... Mas tanto isso é prazer, que cheguei a ouvir de uma grande amiga – uma coisa engraçada, aliás, de que minha família caçoa muito, é que tenho mais amigas do que amigos... – que minha forma de pegar um livro provocava ciúme! Eu disse que essa era a ultima parte da resposta, mas, para dar idéia do tipo de leitor que sou, há outro detalhe: gosto de arriscar a leitura de autores inteiramente desconhecidos para mim, mas que por motivos às vezes difíceis de definir ou explicar, me atraíram. E tive casos de descobertas que me deram um prazer muito grande. É outro tipo de garimpagem, além da garimpagem do livro raro, que a gente procura porque conhece. Como exemplo dessas descobertas mencionaria três livros que me traíram sem eu saber bem por que, mas cuja leitura recomendo enfaticamente. Um deles é O Evangelho da Incerteza, de Vanda Fabian, escritora mineira editada pela Nova Fronteira, de que eu nunca tinha ouvido falar. Mas que me entusiasmou já há bem uns 20 anos, e que reli no ano passado com o mesmo prazer. Outro foi o diário de uma moça da corte japonesa do século X – Sei Shonagon, onde se vê que as emoções, as intrigas e os interesses humanos fundamentais são muito parecidos através do tempo e do espaço. E outro ainda foi a correspondência de uma moça holandesa do século XVIII – Belle de Zuylen, que depois ficou conhecida como Mme. Charrière – vocês vêem que estudei o assunto -, uma personalidade fascinante por sua inteligência, seu estilo, vivacidade, desinibição, humor e beleza - acho que basta como fatores de sedução, não é mesmo? Era uma moça que nos nossos dias poderia ser considerada bem fora de série. Imaginem então o que deve ter sido no contexto em que ela viveu.
O ELEGANTE CORTE DO SAMBA DE WALTER ALFAIATE
JOSÉ MINDLIN - HOJE SENTI SAUDADES
"Quando o Turiba me pediu um pequeno depoimento sobre a entrevista que fizemos com o Mindlin para a Bric a Brac foram me voltando à memória uma e outra cenas daquela manhã de sábado, acho que São Paulo tinha um clima ameno, em que chegamos meio tateando, sem saber o que encontrar, no endereço do Brooklin. E me lembrei da excitação daquele velho empresário que abriu pessoalmente a porta. Parecia até maior do que a nosso. Do nosso encantamente e do seu orgulho na apresentação da biblioteca, de cada peça mostrada como um menino mostra seus mais valiosos brinquedos ou como uma mãe exibe o recém nascido. Nós lambíamos com os olhos, quase não ousávamos tocar, e o que deveria ser uma entrevista virou uma conversa sem organização e sem método, com histórias borbulhando soltas, saltando épocas, autores, territórios... Comemos bolo de rolo finamente fatiado e biju quentinho, iguarias recém chegadas de Pernambuco. No final Mindlin e dona Guita riam de orelha a orelha, nós não tínhamos entrevista porque o gravador não gravou – ela viria num segundo encontro – mas tínhamos uma bela amizade.
Hoje senti saudades."
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CONVIVER COM JOSÉ MINDLIN, UMA DÁDIVA INESQUECÍVEL
Luis Turiba
A poesia, com seus caprichos de louca dama, assim como a literatura, muito me deram nessa vida. A essas duas amantes muito tenho a agradecer. Mas entre tantas estrelas acessas nesta jornada com as letras e as palavras, uma está entre aquelas de maior e intenso brilho: a convivência com José Mindlin, o amante dos livros e do saber.
Foi uma convivência rápida, de alguns anos, porém de uma intensa marcante, como tudo aquilo que Mindlin fez em sua vida de maestria.
Eu era, na metade dos anos 80, pouco mais de 30 anos, um dos editores da revista experimental de poesia Bric-a-Brac junto com meus companheiros João Borge, Lúcia Leão e Luis Eduardo Resenda, o Resa. Cá entre nós, éramos um quarteto da pesada e fuçávamos excelentes entrevistas por este Brasilsão de cultura, saber e arte.
Depois de longas conversas com Augusto de Campos, Erthos Albino de Souza e Manoel de Barros – entrevistas históricas até hoje - partimos para a caça de uma "avis rara": o bibliófilo José Mindlin.
A partir deste investida, Mindlin praticamente passou a fazer parte do informal Conselho Editorial Bric-a-Brac, junto com Antônio Risério, Arnaldo Antunes e Augusto de Campos. Nada fazíamos sem que eles fossem também consultados.
Assim, chegamos a Dra. Nice da Silveira e de seus pacientes genais do hospital de Engenho de Dentro. Visitamos o erotismo de Carlos Drummond de Andrade antes dele se tornar público. Tudo isso, muito, graças ao Mindlin.
Visitamos pelo menos umas três ou quatro vezes seu paraíso de livros raros no bairro de Santo Amaro. Anos mais tarde, já trabalhando com Gilberto Gil no Ministério da Cultura, pude acompanhar a negociação para que a sua "Brasiliana" repousasse no campus na Universidade de São Paulo (USP) para a segurança da eternidade.
Conversar com Mindlin era uma delícia. Tanto é que a primeira vez que fomos entrevistá-lo, não ligamos o gravador e tivemos de refazer a visita duas vezes. Foi João Borges que no final das visitas editou a entrevista e construiu o belíssimo e comovente texto de abertura que hora republicamos aqui. Até hoje não sei se houve falha técnica ou malandragem no não funcionamento do gravador. O certo, porém, é que as repetições das visitas tornaram a entrevista tão esclarecedora, que Mindlin não teve outra saída: escreveu em cima das suas próprias respostas o livro "Uma vida entre livros", que o levou à Academia Brasileira de Letras.
É mole ou quer mais?! Com vocês, um pouco deste brasileiro exemplar que foi e é José Mindlin.
A LOUCURA MANDA DE UM PROCURADOR DE RUÍNAS
Um papo com JOSÉ MINDLIN
(abertura da histórica entrevista de Mindlin à revista Bric-a-Brac)
Por João Borges
"Aqui começa o livro, em que você tem Deus ordenando aos anjos a criação do mundo; aqui você tem o Nada; aqui você tem as estrelas,
depois os pássaros, as árvores, o mar, os peixes; e Adão, a Terra, a Água, o Ar, o Fogo, os planetas, o vento; Eva saindo da costela, a tentação."
Essa é apenas uma das portas de acesso à biblioteca do José Mindlin.
No caso, o procurador de ruínas, como definiram Guilherme Cesar e Francisco Inácio Peixoto, fala enquanto folheia a Crônica de Nuremberg, um dos mais importantes livros raros do mundo.
A Crônica de Nuremberg narra a criação do Universo, mistura historio sagrada e profana, e o trecho acima dá apenas uma idéia longínqua de como o livro é ilustrado de fora rica, variada e criativa. de uma página para outra é possível ler o livro sem conhecer uma palavra de latim. Mas essa é apenas uma das infinitas portas de acesso ao estonteante universo de cerca de 20n mil livros de Mindlin – que se diz depositário e não proprietário de tudo isso -, dos quais dez mil podem ser catalogados como raros.
Os editores de Bric-a-Brac – João Borge, Lúcia Leão, Resa e Luis Turiba - estiveram por três vezes nesse santuário bibliográfico. Depois de horas e horas de conversa, manuseios e comentários sobre detalhes incríveis de tantas raridades, é inevitável rever o auto-conceito de depositário.
É muito mais do que isso. Mindlin anula a temporalidade e consegue com naturalidade dar vida e voz a livros, dedicatórias, documentos, diários e tudo que vai saltando de intermináveis estantes que circundam a sua sala de visitas e dois pavilhões contíguos.
Ouve-se intenso e variado rumor ao percorrer séculos de páginas impressas. A entrevista em que publicamos foi feita por escrito, numa troca de correspondência entre janeiro e junho.
Certa vez, João Cabral de Mello Neto, hóspede de Mindlin, ficou intrigado ao verificar que existiam três livros idênticos das poesias completas de Machado de Asssis.
Não, não são idênticos. Um erro de revisão, no texto de apresentação, deu origem a três livros diferentes. No primeiro livro, na troca do e pela a lemos a palavra cagara no lugar de cegara. No segundo, de próprio punho, Machado de Assis faz a correção. No terceiro, a impressão definitiva.
Não sei como o Machado não teve um ataque de apoplexia, comenta Mindlin. Enfim, um pequeno detalhe que confere ao livro o status de raro. Mas o que dizer da primeira edição ilustrada de Petrarca, de 1488, da qual se conhecem menos de 100 exemplares em todo o mundo? Numa outra, de 1533, um soneto de Petrarca contra o papado foi censurado depois de impresso. Os versos malditos foram cobertos a nanquim. Com o tempo, o nanquim esmaeceu e sob ele reapareceram os versos censurados. O tempo foi mais forte que a censura.
José Mindlin sabe misturar episódios de sua vida pessoal, conversas com escritores amigos a peculiaridades de uma dedicatória, de uma anotação perdida. Num encontro com Guimarães Rosa na Europa, o autor de Grande Sertão: Veredas confessou que precisava se de desfazer de uma coleção e livros eróticos. Estava de volta o Brasil e não podia levar os livros para casa por causa das duas filhas adolescentes. Quis convencer Mindlin a ficar com os livros. Isso foi na década de 40. Hoje Mindlin se arrepende, mas na época recusou a coleção com o mesmo argumento que Rosa utilizou para ofertar-lhe: E as minhas filhas? Para os padrões da época poderia ser um escândalo. Mas hoje...
A paixão pelos livros aproximou Mindlin de inúmeros escritores. Especialmente de Carlos Drummond de Andrade, de quem guarda com orgulho o único exemplar de O Amor Natural, o livro erótico que deverá agora sair em edição regular pela Alumbramento. Na véspera de morte de Drummond, Mindlin esteve em seu apartamento, no Rio. Foi talvez a última visita que o poeta recebeu. Falamos sem parar durante três horas e ele contou, como nunca, detalhes de sua vida íntima, recorda Mindlin.
De Petrarca, Montaigne, à Revista Verde, de Cataguases e curiosos registros de Oswald de Andrade é possível passar para as coisas mais mundanas. Como por exemplo, o diário da Condessa do Barral.
Preceptora dos filhos de Dom Pedro II e aparentemente sua amante, a Condessa redigiu um diário, montado em delicados cadernos que eram aos poucos entregues a ele. Mindlin possuiu 29 desses caderninhos. Numa das passagens, ela descreve um local em que ambos estiveram e indaga: Será que vocês se lembra? Dom Pedro faz ma anotação a lápis: Oh, se me lembro. E como! Pela voz de Mindlin é possível resgatar dos séculos o suspiro do imperador.
Ele é um leitor insaciável. Indisciplinado confesso. O apetite pela leitura e um assumido prazer por raridades guiaram o rumo da biblioteca. Lê mais de um livro ao mesmo tempo, aproveitando ao máximo os pequenos intervalos. Como tem motorista, não se aborrece com engavetamentos de trânsito em São Paulo: são algumas páginas a mais que lê. Quando sai do carro leva consigo os livros. \ASe roubarem o carro não interrompo a leitura, diz.
Na sala de visitas de sua casa estão os dois mil primeiros livros da biblioteca. Ele dispôs as poltronas de forma que o visitante fique sempre entre o anfitrião e as estantes. Se, ao fim de uma hora, o interlocutor não manifestar interesses pelos livros, não der pelo menos uma olhada curiosa, verá Mindlin bater com as duas mãos sobre os joelhos e, numa frase seca e conclusiva, dizer: Bom acho que já chegamos a um acordo, não é mesmo?
Para qualquer assunto que não sejam livros uma hora é tempo demais. Para os livros não há limites. E, ao fim de horas de conversa, Mindlin conclui:
Aqui vocês tiveram a noção de uma loucura mansa. Julio Cortazar foi outro visitante do procurador de ruínas. Um dia quis saber o nome de uma flor que crescera ali no pequeno jardim que separa os três módulos da biblioteca. Não se perturbou com o não sei de Guita, esposa de Mindlin.
No importa, la flor tampoco lo sabe. A flor, vigorosa loucura, naquele dia e lugar.
BRASIL SE DESPEDE DE JOSÉ MINDLIN, UMA VIDA DEDICADA AOS LIVROS
Advogado, empresário, homem público e guardião dos livros.
"Ele lutou durante 15 anos para que a universidade de São Paulo recebesse esses livros. Ele foi o pioneiro nisso, o grande amante de livros no Brasil", apontou o reitor da USP João Grandino Rosas.
"Era uma figura tão iluminada, tão cheia de dimensões da vida dele, as coisas que ele fez, os exemplos que deixou. Sempre tirei proveito dessa personalidade e fiquei muito feliz de ser próximo de uma figura exemplar para a vida brasileira como um todo", comentou o maestro Júlio Medaglia.
Foi assim durante todo o velório. Cada pessoa que chegava, trazia uma lembrança diferente de uma vida cheia de destaques. Um elogio era comum a todos.
"Um homem íntegro, um homem que enxergava a ética, a ética na política, a ética na cultura. Ele era um homem impecável", destacou o rabino Henry Sobel.
"Um homem exemplar. Um empresário líder, um bibliógrafo líder, foi um homem da cultura líder. Tudo o que ele fez, fez bem feito. Para coroar tudo, sempre foi uma pessoa de uma conduta ética exemplar. O Brasil perde um grande brasileiro", lamentou o sociólogo José Pastore.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lembrou que Mindlin atuou em vários campos.
"Mindlin era muito mais que um bibliófilo. Era uma pessoa preocupada com o país, uma pessoa que tinha fortes sentimentos democráticos, além de um ser humano extraordinário - promoveu a música na cultura artística em toda parte e deixa amigos sinceros, alguns dos quais puderam vir prestar homenagem, mas centenas senão milhares de outros que não puderam. Enfim, uma grande perda", disse o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso.
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Em um cortejo silencioso, o corpo foi levado para o Cemitério Israelita, na zona sul de São Paulo. Tantas qualidades levaram José Mindlin a conquistar amigos e admiradores em diversas áreas: cultura, política, economia. Muitas dessas pessoas vieram prestar homenagens ao empresário.
O governo de São Paulo decretou luto oficial de três dias em homenagem a ele e sua memória.
Na nota, o governo destaca a contribuição de Mindlin ao progresso cultural e material de São Paulo.
"É um homem que sempre foi um democrata, é um homem muito amigo de todos nós, uma grande figura de São Paulo", afirmou o governador de São Paulo José Serra.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também divulgou nota em que afirma ter recebido com tristeza a notícia da morte de José Mindlin. Para Lula, Mindlin foi um grande brasileiro que prestou serviços extraordinários ao país. O presidente diz que, apesar da idade, José Mindlin ainda tinha força para contribuir com o progresso nacional.
Depois de uma cerimônia religiosa, o corpo de Mindlin foi enterrado no fim da tarde. Coube a um dos filhos dele a última despedida: "Descanse em paz, papai".


