quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

QUE BELO TEXTO SOBRE CLOVIS SENA

Morre Clóvis Sena, escritor e jornalista

Mariana Moreira

Carlos Tavares

Publicação do CORREIO BRAZILIENSE: 17/02/2011 08:15 Atualização:

Só os poetas têm a percepção mais nítida e completa do céu, qualquer céu. Imagine o céu de Brasília! Ainda virgem de corrupção e de violência, naquele ensolarado 21 de abril de 1960. O repórter baixinho, jovem, de ar enérgico, que viera do Rio para cobrir a inauguração da nova capital, movia-se eufórico por entre as autoridades e os colegas, impressionado com as perspectivas de mudanças que se abriam no Planalto Central; entusiasmado com a ousadia de JK e fascinado com o azul de Brasília, o sol do cerrado.

A luz absoluta daquele sol pousada sobre a Esplanada esbanjava brilho e não permitia a mínima sombra de pessimismo. Foi nesse clima revestido do novo e da confiança no futuro, que o jornalista maranhense, nascido em Carutapera, em março de 1930, Clóvis Sena, pegou o telefone e convidou Gladys, a eterna namorada, para viver com ele em Brasília, por um prazo mínimo de 50 anos, encerrado na última terça-feira, em um leito de hospital da cidade.

Durante o velório e o enterro, ontem de manhã, no Campo da Esperança, a imagem do céu de Clóvis voltou a brilhar entre a mulher, os filhos, netos, amigos. Sena  morreu aos 80 anos em decorrência de um câncer no abdomen. O jornalista Paulo José Cunha repassou na memória a cena do céu de Brasília. "Ele veio à cidade para cobrir a inauguração. Quando chegou, olhou para o céu e ficou admirado. Ligou para Gladys, que ainda era sua noiva e morava no Maranhão, e disse: Gladys, o céu aqui é baixo. Vamos morar aqui para ficar mais perto do céu. Eles se casaram e mudaram imediatamente, e ele nunca mais deixou a cidade", conta. Cunha também credita a Sena a inclusão do Centro-Oeste no mapa do país, com o lançamento do livro Fronteira Centro-Oeste. "Ele fez uma pesquisa in loco, viajando pela região, para mostrar que o polo de desenvolvimento que Juscelino Kubitschek tinha proposto já estava consolidado", relata.

Segundo o cineasta Vladimir Carvalho, as marcas registradas do jornalista, escritor , poeta e crítico de cinema eram a afetividade e a memória prodigiosa. "Quando nos conhecemos ele ainda era cinéfilo como eu. Reproduzia fatos, gestos, figuras. Era um Google ambulante", relembrou. Carvalho assinou o projeto gráfico do romance Flauta Rústica. "A cidade está diminuída com o desaparecimento dele, um cidadão participativo, crítico das ações de governo, um defensor do Teatro Nacional Claudio Santoro e da Orquestra Sinfônica de Brasília."

Para o fotógrafo Luis Humberto, "Clovis era uma pessoa ativa e serena, disposta a abraçar grandes questões e primava pela integridade". Como jornalista, Sena fez a cobertura da Constituinte de 1946, dirigiu a União Nacional dos Estudantes (UNE), no fim da década de 1950 e trabalhou no Correio Braziliense e em outros jornais da capital.

 O poeta Luis Turiba fez questão de lembrar o humor de Clóvis. "Ele tinha uma risada magnífica." A militância e o engajamento do jornalista e escritor — vencedor do Prêmio Nestlé de Literatura com o romance A flauta rústica — são fonte de gratidão para Gisele Santoro. "Gente com a capacidade intelectual de Clóvis até existe, mas são poucos", enaltece. Sena era vice-presidente da Fundação Claudio Santoro.

O poeta Anderson Braga Horta destacou sua profunda devoção à música, especialmente a admiração pelo compositor alemão Johannes Brahms. "Ele deixou nosso convívio, mas por outro lado, deixou sua obra jornalística, cultural, literária. O essencial ele deixou para nós", comenta. Clóvis Sena tinha seis filhos, 12 netos e dois bisnetos. Deixou também a viúva, Gladys, companheira de 50 anos.