quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MANOEL DE BARROS SE ETERNIZOU: AGORA É MUSGO

O POETA QUE VIROU MUSGO

Luis Turiba

 

Manoel de Barros agora é musgo. Ele sempre teve parentesco com garça. Como ele gostava de dizer: "palavras têm sedimentos, cópia de lodo, usos do povo, cheiros de infância, permanências por antros, ancestralidades, bostas de morcegos. Não vou encostar as palavras lesma, sapo, águas. Pois elas são meus espelhos."

Manoel pegou o trem do Pantanal rumo a eternidade. Águas agora são fêmeas de chão.

A entrevista que fizemos com ele para a Bric-a-Brac foi, talvez, meu mais importante trabalho jornalístico. Ele era um poema-silêncio. Quase um ano de convencimento. Depois, seis meses de troca de cartas. Visitamos o Poeta por três ou quatro vezes em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Ele nos apresentou – Resa, João Borges e eu – o famoso Caldo de Piranha com muito uísque dos bons. Muita conversa e Manoel adorava mentir. Contava que esteve, na sua juventude, com Noel Rosa na Lapa. Parecia coisa de filme de Wood Allen. Farrista, risonho, adorava uma piada.

Mas em público, virava lesma, caramujo, parede. A última vez que nos vimos foi no final do século passado, numa tarde em sua casa, onde levei o então ministro Gilberto Gil para conhece-lo. Dona Stela fez uns petiscos e conversaram muito. Documentei isso em vídeo:

"Oi Gil… quanto prazer tê-lo em casa. Mas estou recebendo aqui o poeta e não o ministro."

Esperto, foi Manoel de Barros quem tratou logo de quebrar o protocolo. Trouxe o ministro-cantor para o mundo das palavras. Gil, barroco-baiano, aceitou e tocou em frente.

"O prazer é todo meu, Manoel. Fazia tempo que buscava este encontro. Sua prosa poética me encanta, está na mesma margem da de Guimarães Rosa."

Manoel de Barros se orgulhou. Aos 88 anos, cabeleira branquinha como as garças do Pantanal, jeito de passarinho tímido, foi receber o ministro Gilberto Gil no portão de entrada da sua casa na pacata Rua Piratininga, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Estava acompanhado de Dona Stella, sua mulher, da filha e de amigos.

O ministro-poeta também esperava por este encontro há algum tempo. Tinha vontade de conhecer e papear com seu colega das águas pantaneiras. As duas tentativas anteriores haviam fracassado. Manoel não pode comparecer à Brasília para receber a Medalha da Ordem do Mérito Cultural de 2004, outorgada pelo presidente Lula e pelo ministro da Cultura. Nem tampouco a uma estada do ministro Gil à cidade de Corumbá. Andava dodói, mas já voltou à ativa.
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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O ELEITOR DESCONSTRUÍDO

Luis Turiba*

 

Desconstrução. Ninguém escapou dela. Nós, eleitores, também fomos totalmente desconstruídos pelo virulento tsunami eleitoral que o Brasil acaba de viver.

Mesmo reservando-se, todos fomos atingidos pelos seus ecos e efeitos dessa onda como pedestres distraídos em meio a um tiroteio de balas de prata perdidas . Não há ciência que explica tal dinâmica. A história ainda se redesenha aos nossos pés. As fendas são profundas, os abismos perigosos, os atalhos tenebrosos. Os brasileiros saíram quase nocauteados desse ringue.

Estamos aos cacos e tentamos agora juntá-los. Vitoriosos e derrotados, pois são cacos de certezas e incertezas; de sonhos e pesadelos; de confianças, promessas, medos, mágoas e ilusões. Cacos políticos e ideológicos; de marketing e malandragens; de dívidas e compromissos. E nem toda cola-tudo, cola tudo.

Sim, o PT venceu. Dilma foi reeleita, é a nossa legítima presidenta por mais quatro anos. E daí? Isso é o lado óbvio ululante da história. Aos vencedores, as batatas. Aos derrotados, o choro livre. A democracia escolheu o seu projeto para o país. Mas a ficha ainda caiu verdadeiramente.

São muitas as contas a fazer de todos os lados, há muitos feridos a recolher nos diversos campos de batalha. Afinal, participamos de  uma espécie de MMA eleitoral, onde bater do joelho pra cima, com rabo de arraia e dedo no olho, se tornou algo tão corriqueiro como não se beber um copo de água em São Paulo. Sem inocentes nem delicadezas, reinventamos a lei nazista na comunicação tropicalista: mentira + meia mentira + mentira em dobro = quase verdade falsa.

Foi uma eleição clip-pesada. Nem bem a corrida começou, caiu avião. Dentro dele um candidato da esperança nordestina. E até agora, ninguém explicou direito essa tragédia – mesmo sabendo que tragédias não se explicam. Das cinzas, surge uma candidatura santificada por novas ideias e cabeças. Havia algo de novo no ar, além do clássico FlaxFlu político que se repete há 20 anos. Marina se pintou, se enfeitou mas não colou. Foi desconstruída em pleno vôo com requintes de cinismo e sordidez.

Dizem que em política não há traição: há rearranjos. Desarranja daqui, rearranja dali, de novo na pauta do país o antigo e conhecido clássico Tucanos versus Petistas, os vermelhos contra os azuis. Palavras ganharam novos significados, espaços e múltiplos usos: aparelhamentos, pobres, ricos, social, corrupção, mudança, inflação, educação.

E todos nós caímos dentro do ringue cibernético da web. Afora os políticos, famílias se dividiram, casais se separaram, primos contra primos; tios versus cunhados; amizades se desfizeram. Até a nossa maior empresa, orgulho nacional, a Petrobras, passa por acusações gravíssimas. Nesse processo sedento de poder, todos nós xingamos e dançamos como cegos de ilusão no baile autofágico da desconstrução.

Somos 141 milhões de eleitores batendo títulos e miolos. Sete milhões não votaram, 30 milhões anularam o voto. Quem analisa isso? Ou 37 milhões não têm nenhuma importância? O país ficou geograficamente cortado. No Norte/Nordeste, os vermelhos. Do sudeste para baixo, os azuis. Como reconstruir nossa geografia tropical? Como remisturar as cores vivas?

Sábia e tranquila, a líder maior da Dilma estendeu a bandeira branca de Oxalá no meio do terreiro e pediu diálogo. Aécio Neves, com sua capa de 50 milhões de votos, também falou em recosturar a unidade nacional. Presidente eleita e líder da oposição, desanuviam os ânimos. Um nova e histórica peleja se descortina no horizonte. Reforma política e mudanças generalizadas. Amigo meu, Nico do Cavaco, fez um samba há anos atrás, para o Suvaco do Cristo, onde antevia: "Oh venham ver/ Oh venham ver Vera Cruz/ A luta dos peles vermelhas/ Contra os casacos azuis."

Agora é o momento de acender uma vela de sete dias ao eleitor desconstruído. O poeta Torquato Neto escreveu e Gilberto Gil cantou no tropicalismo, quando a ditadura prendia e torturava brasileiros, entre os quais a presidente Dilma Rousseff: "Eu brasileiro confesso/ minha culpa meu pecado/ meu sonho desesperado/ meu bem guardado segredo/ minha aflição." Ao contrário da canção, aqui não é o fim do mundo, mas estivemos bem próximo. Respirar fundo e se reconstruir - eis a missão.

 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O PULSAR DO PSIU POÉTICO

 Luis Turiba

 

Uma história que lembra um longo poema com seus variados sotaques. Um jogo desafiador de linguagens. Um caso a se estudar, se fazer contas e se contar contos, tantos foram os encontros concretos. Agora é o momento de se quebrar o silêncio e anunciar-se ao mundo das letras. Afinal, quantos "is" e quantos "us" cabem num Psiiiuuu que sibila poeticamente há quase 30 anos?

Exatamente em 1979, na cidade de Montes Claros, terra natal de Darcy Ribeiro e Cyro dos Anjos, localizada no norte de Minas, fronteira do cerrado com o sertão, a 455 quilômetros de Belo Horizonte; três jovens poetas - Aroldo Pereira, Mirna Mendes e Renilson Durães – criam o grupo cultural Transa Poética. Anos depois, inventaram um espaço para reunir Poetas Vivos.

"Psiu, a Poesia Chama". Foi o título que Aroldo Pereira criou enquanto participava de uma oficina coordenada por Ernesto Cardenal & Thiago de Mello, na UnB, em 1987, dentro FLAAC-Festival Latino Americano de Arte & Cultura. Nesse mesmo festival criei o verso "Ou a gente se Raoni/ Ou a gente se Sting".


De lá para cá, centenas de recitais e conferências; noites de autógrafos e espetáculos performáticos; músicas de todas os matizes.

O Psiu Poético acaba de viver a sua vigésima oitava edição. Daqui a dois anos, em 2016, o furdúncio de rimas, metáforas e estranhamentos completa 30 anos de pulsações. Um balzaquiano.

Apesar de local, é também nacional e transcendental. Não foram poucos os poetas aclamados que desfilaram em sua passarela. Mineiros como Adélia Prado e Adão Ventura; baianos como Waly Salomão e o tropicalista José Carlos Capinam. Veteranos como Thiago de Melo e Jorge Mautner; além Alice Ruiz, Nicolas Behr, Arnaldo Antunes.

O Psiu tem ritual. Ano pós ano, ocupa por 10 dias o centro cultural da cidade e lota todas as noites o auditório de 200 lugares com convidados, poetas, estudantes e professores da cidade. Já faz parte da tradição cultural mineira com patrocínio da Petrobras.

O evento transborda pela cidade. Ocupa praças, a rodoviária, escolas secundárias. Têm convênios com a Unimontes, que leva 200 alunos para seminários e trabalhos acadêmicos; Prefeitura Municipal, Secretaria Municipal de Esportes, Juventude, Lazer & Cultura.  A produção executiva é da Fulô. Um pulsante recital acontece no Mercado Municipal, onde poetas compartilham o espaço com aromas irresistíveis dos temperos mineiros.

Chega agora a adultez. Quer piscar seus faróis e anunciar-se nacionalmente como umas das grandes festas de poesia brasileira. Daí o TRIPSIU, a festa do trigésimo aniversário. Para tanto, firmar novos convênios e parcerias com outras faculdades e institutos de letras. Jogar o Psiu na rede via site multimídia. Transformar as acanhadas antologias em uma hiper-caixa Psiu. É o caso de se pensar em grande show com um artista nacional. Em rodas de conversas após as apresentações do Psiu deste 2014, essa pauta veio à tona. Poetas como Anand Rao, Jairo Fará, de São João del Rey; Ele Semog, do Rio; Walter Merije, além de mim, nós comprometeram a participar da empreitada. Mãos à obra! O Psiu de Montes Claros é um exemplo do bom momento da poesia brasileira que pulsa com integração e troca de experiências de linguagens. Salve o trintão!

 

 * Luis Turiba é poeta, autor de QTAIS, editora 7 Letras

 


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

TRÊS OU QUATRO HISTÓRIAS DE CHICO BUARQUE

 

Luis Turiba

"Ouça um bom conselho/ que lhe dou de graça/ inútil dormir/ que dor não passa"

 

Venho aqui como poeta falar de um outro poeta: somos todos Chico Buarque.

Consciente de que este é um conceito genérico, quase uma palavra de ordem, quem sabe título de poema, espero que algumas histórias que vou contar aqui possam iluminar ainda mais o artista Chico Buarque, na sua poética e musicalidade do dia a dia. Ele é um pouco de todos nós também.

Luz! Queremos luz. Nada mais justo. Tanto para o artista, que na essência de sua obra sempre optou pelo olhar e sentimento do outro e para o outro; como para nós, que nos orgulhamos de tê-lo como um atento e detalhista fotógrafo musical, e mais recentemente literário, de nós mesmo, que na barriga da miséria nascemos brasileiros.

E como é bom saber que todos somos um pouco Chico Buarque de Hollanda.

Digo isso salivando poesia pelos cantos da boca, agradecendo ao Instituto de Letras da Universidade de Brasília pela realização deste simpósio acadêmico sobre um compositor popular que transcendeu a todas as academias – musicais, literárias, políticas, futebolísticas. Em suma: 70 anos é pouco para uma obra tão transbordante.

Na roda viva que vivemos, todos aqui presentes e os que estão circundando e circulando por este campus universitário, território vivo e livre de Darcy Ribeiro, certamente já viveram, vivenciaram, presenciaram circunstâncias e episódios das personas e dos personagens de uma de suas 600 e tantas canções. Por isso, reafirmo: as histórias de Chico são nossas histórias.

Isso não é novo. Pego emprestado esse conceito de Tárik de Souza, um dos mais refinados críticos da MPB que a minha geração conheceu. Tárik usa um termo de Ezra Pound – "antena da raça" – para definir essa encarnação do coletivo na obra desse compositor popular. Abre aspas:

"Ninguém como ele na MPB contemporânea interpretou com tal sabedoria a fantasia "dos infelizes", "dos desvalidos", e cantou o que "anda nas cabeças, anda nas bocas".

A citação de Tárik está no artigo "O que não tem censura nem nunca terá" publicado originalmente no livro "O som nosso de cada dia" e depois republicado em um outro livro "Chico Buarque do Brasil", da Editora Garamond em parceria com a Biblioteca Nacional, organizado por Rinaldo de Fernandes para os festejos dos 60 anos do compositor. Um livro escrito há 10 anos que mantém sua atualidade. Nessa edição, inclusive, há um artigo do querido José Castello – O carrossel iluminado.

Por cantar o coletivo da nossa gente, Chico não é um compositor de certezas, embora tenha sido considerado uma unanimidade nacional no início da carreira, na primeira metade dos anos 60. Transformou-se alguns anos depois, com o avançar da sua obra rumo aos problemas sociais do país, no artista-inimigo número um da ditadura militar. Foi de todos, o mais censurado.

Nessa época, todos vimos a Banda passar pela Roda-Viva dos Desalentos. Fomos operários da construção dessa nação e quantos de nós morreram na contramão atrapalhando o tráfego: guris e pivetes, malandros e damas, rainhas e cafetões, traídos e traidores de amores e de todas as dores do mundo.

Correndo da cana-dura e das encruzilhadas da vida, seguimos na travessia do tempo, com ele sempre nos cantando e encantando. No masculino e no feminino. Quantos descuidos dessas moças para com esse anjo safado em tempos de delicadezas e barras pesadas. E elas não são poucas: Carolinas, Madalenas, Teresas, Ritas, Januárias, Cristinas, Bárbaras, Joanas, Anas, Luisas, Helenas, Lígias, Beatrizes. Iracemas, e até Silvias. Quem aqui nunca jogou bosta na Geni que atire o primeiro coquetel molotov feito por Nina numa noite de Moscou?

Sofremos na pele e na alma a censura e os horrores de uma ditadura que durou duas décadas e tivemos um retrato em branco e preto de um amor que volta sempre a enfeitiçar na desbotada parede de um lar de gente humilde no subúrbio da periferia.

Quanta sorte em tê-lo como fundo musical da nossa travessia. Chico contou nossas histórias como um bloco de vai passar num tempo-página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações. Com ele, o samba, nossa maior manifestação de identidade cultural, ganhou novos contornos. Foi um bloco de rua, ou de sujos como preferirem, tipo o Pacotão dos bons tempos, que revelou que "nossa pátria mãe tão distraída dormia sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações."

Enfim, Chico é um contador de histórias, não um historiador. Fazemos parte do seu mosaico de personas. Histórias onde o final não é feliz nem infeliz. Todas com suas insignificâncias, acontecências e incertezas. Histórias que rolam pelas tabelas e pelas cabeças. Mas Chico também tem as suas histórias.A primeira que quero contar aqui para vocês me foi segredada por seu parceiro e companheiro de geração Gilberto Gil, com quem tive a honra de trabalhar e conviver no Ministério da Cultura do primeiro governo Lula. O ex-ministro, por sinal, considera que Chico tem um papel "constituinte" da sua geração.

Gil e Chico se conheceram na época dos primeiros festivais da TV Record, nos idos de 65/66, num bar chamado Redondo, na Avenida Consolação, no centro de São Paulo, onde se encontravam artistas e intelectuais da época para criar e conspirar. Chico era estudante de Arquitetura da USP e Gil trainee da Gessy Lever na área de administração. Numa roda de violões, músicas e chopps, um mostrou ao outro canções inéditas que depois viriam a ser apresentadas nos festivais. Gil ficou impressionado com os sambas diferenciados daquele estudante e guardou boas impressões do moço de olhos cor de ardósia.

O tempo passou, Gil voltou para a Bahia para as festas de fim de ano com a família. Andando rumo ao elevador Lacerda, na cidade alta de Salvador, ele dá de cara de repente com um jovem cego, chapéu e óculos escuros, junto com duas outras moças, tocando violão e pedindo uma ajudinha. Aquele som e aquele jeito lhe soaram familiares e Gil parou para observar melhor a cena. Cismado, resolveu tirar a limpo a situação e chegou bem perto até conseguir identificar os olhos ardósia do cego de sotaque paulista. "Você aqui rapaz, dando uma de cego". Aí Chico gargalhou e respondeu: "Tô me virando pra conseguir algum para minhas férias."

Chico gosta de se misturar no povo. Embora tímido, adora andar pelas ruas das cidades. Quando está no Rio anda diariamente no Leblon, sempre com passadas largas, cabeça baixa, os pés "dez pras duas", sacudindo os braços.

A próxima história quem me contou foi a jornalista Regina Zappa que já escreveu pelo menos três livros sobre o nosso personagem. Essa história também está no livro já citado "Chico Buarque do Brasil", num artigo que Regina titulou como  "Vertigem".

"Já aconteceu de ele, divertidamente, encarnar suas próprias invenções, como no dia em que me deparei com um desleixado entregador de flores, diante da porta do prédio de uns amigos, onde eu ia para um almoço de aniversário. O motoqueiro de tênis, calça preta de moleton, camiseta escura e um capacete preto com um visor que escondia o rosto, esperava pacientemente que alguém abrisse a porta para entregar as flores. Perguntei se ele tinha tocado a campainha do terceiro andar e se já vinham abrir a porta. Fez que sim com a cabeça. Enquanto esperava, olhei a moto estacionada na calçada perto do portão, uma scooter de azul reluzente. Achei que aquilo não combinava muito com motoqueiro entregador de flores. Aí me deu um estalo. Era o Chico. Sabia que ele andava naquela época passeando incógnito pelas ruas do Rio, pilotando uma scooter azul e que ele tinha sido convidado para o almoço. Então aquele ali na minha frente com um vazo de orquídeas nas mãos, se passando por entregador de flores do aniversário, ao qual ele não compareceria, só podia ser o Chico.

"Chico é você?" A porta se abriu, ele entregou a flor, recebeu a gorjeta e saiu em direção a sua moto curvando-se de rir, deu um adeusinho e zarpou pela cidade, montado no anonimato, divertindo-se com a própria travessura".

Agora, a última história, que me é muito cara e me traz muitas saudades boas, pois envolve Dona Lourdes, uma mulher que não está mais entre nós, mas que viveu à frente de seu tempo. Dona Lourdes foi minha mãe e desde cedo me ensinou a amar a música, os Beatles e os Rolling Stones. Ela, alagoana, também transformou-se em personagem das histórias desse moço Chico.

Lourdes e Alderico Toribio, que fez parte da equipe do dicionarista Aurélio Buarque de Hollanda, foram morar no Recreio dos Bandeirantes, para além da Barra da Tijuca, bairro longínquo, muito mato e terreno baldio, na hoje superpopulosa Zona Oeste carioca.

 

Quando eles foram morar no Recreio, o bairro era realmente um desertão distante da Barra. Mamãe ficou logo amiga da vizinhança. Seu papo era irresistível. Naquele ambiente, se bem me lembro, moravam Fábio Júnior; o general-presidente (na época) João Figueiredo, que se recuperava da sua cirurgia cardíaca; e no quarteirão a frente estava o campo do Politheama, time do Chico Buarque.

Pois não é que Dona Lourdes se dava com todo mundo. Ela tinha gosto por fazer sucos, era sua paixão. Fazia suco de tudo. E quando o general Figueiredo passava em frente da sua casa fazendo caminhadas de recuperação cardíaca, ela lhe oferecia sucos de mangaba, de abacaxi com morango, de manga com gengibre, sabores exóticos da sua alquimia doméstica.

Com Chico fez amizade que durou anos. Ele lançava um LP e trazia pra ela autografado. Estão todos bem guardados. Também, a cada grande jogo que tinha no Politheama, ela levava sucos para todo mundo saborear no final. Consta a lenda que o Politheama jamais perdeu em casa. Mas mamãe não entendia nada de futebol. O que ela gostava mesmo era de fazer sucos para o Chico.

Um dia Chico lhe fez uma encomenda especial. "Vem um pessoal de fora jogar aqui. Posso lhe encomendar uns 10 sucos diferentes? Eles querem provar as frutas brasileiras. Tá aqui o dinheiro!"

Dona Lourdes, óbvio, não aceitou o dinheiro, mas no dia combinado levou num carrinho mais de 15 jarras de sucos diferentes e algumas misturas mágicas. Tinha até de jaca, jabuticaba, pitanga, amora, saputi. Terminado o jogo, os sucos de Dona Lourdes fizeram o maior sucesso com aqueles negros cabeludos.

À noite, por telefone, perguntei sobre o jogo. Inocentemente, ela me contou: "Filho, eram uns negros bonitos, com umas tranças cumpridas, que suaram muito com o calor do Rio. Adoraram os sucos, beberam tudo, não deixaram uma gota. Principalmente depois que fumavam uns cigarrinhos cheirosos e passavam de mão em mão".

Ou seja: Dona Lourdes, entre tantas coisas que realizou nesse mundão, saciou a larica de Bob Marley e sua banda The Wailers depois de uma pelada esfumaçada no campo do Politheama.  E por tabela, palavra tão utilizada no repertório buarqueano, acabou se transformando também numa personagem viva de uma das muitas histórias de Chico.

 

 


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

CHAMPANHE OU CACHAÇA?

Por André Gustavo Stumpf, Jornal de Brasília


Ninguém ainda decifrou o enigma chamado Marina Silva. Nascida em um seringal no Acre, Amazônia Ocidental, alfabetizada na adolescência, dona de uma carreira política interessante, duas vezes senadora da República, ministra importante no governo Lula, tem história e vivência na política. Não é noviça, embora seja jovem aos 56 anos. Sobreviveu às dificuldades naturais de quem nasce no lugar errado. O interior do Acre não é fácil para ninguém.

Ela ultrapassou com dificuldades o bombardeio cerrado promovido pelo Partido dos Trabalhadores para defender a candidata Dilma Rousseff. Jogaram tantas bombas na adversária que elas também explodiram junto aos petistas. Dilma subiu pouco nas pesquisas de opinião. Marina conservou-se no seu segundo lugar. Aécio somou mais alguns pontos na tabulação dos institutos de pesquisa de opinião.

Modelo - O governo Dilma já mostrou a que veio. Se o PT continuar no poder vai repetir os mesmos erros, porque a visão da presidente, sobretudo na área econômico-financeira, já está declarada. Ela enxerga o mundo por intermédio de lentes dos anos setenta do século passado. Foi o período da chamada substituição de importações – que teve por objetivo trazer mais empresas para o Brasil, defender as existentes por intermédio de proteção tarifária e esquecer de dar qualidade e bom preço ao consumidor brasileiro. O modelo se inspira também no tripé iniciada, muito lá atrás, por Getúlio Vargas, que contempla, um banco de fomento, no caso o BNDES, incentivo a empresas nacionais e controle político dos sindicatos. Quem criou essa fórmula foi, na verdade, Benito Mussolini, na Itália.

Não haverá novidades no eventual segundo governo Dilma. Ela vai conservar a maneira autocrática de governar. Parece personagem adequada para viver numa atmosfera soviética. Burocracia e poder juntos. Tudo muito lento, descolado da realidade e imposto ao povo pela publicidade oficial. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que se conservou íntegro e a salvo do aparelhamento ocorrido na Petrobras, mostrou que a desigualdade aumentou no país e o desemprego voltou a assombrar os trabalhadores. Especialistas dizem que a economia brasileira é como uma vaca a caminho do brejo. Vai chegar lá. Só depende da velocidade da vaca.

Deve ser por essa razão que a Bolsa de Valores brinca com os resultados das pesquisas de intenção de voto. Quando a candidata Dilma perde, as ações sobem de preço. Quando a petista melhora, as ações mergulham. Esse ente mítico chamado mercado, composto por investidores de todos os calibres, não confia na presidente da República. Empresários também não. O resultado é a falta de confiança no futuro, o sério problema da desindustrialização, custo Brasil em alta e, por último, inflação e desemprego. Nada disso aconteceu de uma semana para outra. Trata-se de um processo que ocorreu nos últimos dois ou três anos. Quem sustentou o contrário, perdeu. Até o otimista Guido Mantega, que tentou colorir o quadro cinza, perdeu o emprego. Foi demitido por antecipação.

Minas - Aécio Neves é o dono do projeto liberal do PSDB. Curioso é que o mineiro não conseguiu até agora falar diretamente para o eleitor. Ele foi tragado pelo denuncismo da campanha e se submeteu aos ditames do marketing eleitoral. Virou um candidato a procura do personagem. Os próprios mineiros não lhe estão concedendo vantagem esperada. Ele perde em Minas para Dilma Rousseff. Seu candidato, Pimenta da Veiga, está numa distância considerável do principal oponente, que é do PT. Aliás, em Minas é o único estado onde o Partido dos Trabalhadores pode ganhar a eleição para o governo. Perde em todo o país.

Marina continua a ser enigmática. Seu projeto de governo é um amontoado de propostas. Há para todos os gostos. Algumas pessoas à sua volta indicam tendências, mas ela não se mexeu até agora para indicar nenhum assessor ou conselheiro. É discretíssima e poucos a conhecem de perto. É reservada. Não permite brincadeiras, embora ao contrário da presidente Dilma, não seja grosseira. Trata-se de pessoa de bom trato. Tem sorte. Não tinha partido político. De repente, caiu em seu colo não apenas a legenda partidária, mas também uma candidatura pronta.

Restou o violento fogo de barragem promovido pelo marketing do Partido dos Trabalhadores. É bombardeio para destruir tudo que estiver vivo no território adversário. Além de manter o poder, os petistas que estão há doze anos no poder não querem retornar a vida de antes. Eles desfrutam das mordomias governamentais e dos bons empregos. Deixar de usufruir essa doce vida é difícil. Então vale tudo para se manter no poder e permanecer em posição de mando. O líder do MST já prometeu invasões todos os dias, todos os momentos, caso a presidente Dilma não seja reeleita.

O PT na oposição, depois de ter experimentado o gosto de exercer o poder, será ainda mais rancoroso. Vai ser uma oposição devastadora. Pior se a presidente for a Marina, que já foi do PT, integrou o ministério do ex-presidente Lula e não esconde suas desavenças pessoais com Dilma Rousseff. No fundo, é uma violenta briga das mulheres, cada uma com sua luta, sua vontade e sua fibra. Nenhuma das duas é ingênua. Até agora, no segundo turno Marina, leva. Mas nada indica que este é o cenário definitivo. O bombardeio não vai parar até que a última luz se apague no território inimigo seja destruído. É vida ou morte. Emprego ou desemprego. Champanhe ou cachaça.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

DUAS MULHERES, UM SÓ DESTINO -

EM QUEM VOTAR?

 

Luis Turiba

 

Uma lembra a Mônica, com aquele dentinho saliente e seu jeitão de gerente sempre mandona. E já avisou ao Cebolinha: "se for reeleita, você está fora". Refiro-me a presidente Dilma.

A outra, Marina, é quase um espelho oblíquo da Olívia Palito. Magrinha com seu corpo retilíneo quase curvo, andar cadenciado, estilo zen, voz em um tom abaixo. Ah...mas quando fala, dispara e emociona: parece que tomou uma boa porção de espinafre, daqueles de levantar Popaye.

Ambas, assim como as personagens dos desenhos infantis, estão no inconsciente coletivo do brasileiro. Aliás, estão também no consciente do aqui/agora, no sonho/delírio de um Brasil que ainda busca lugar de destaque na civilização moderna.

Duas mulheres, a mesma árvore. Dois destinos, um só cargo, o maior de todos, a presidência da República do Brasil, com seus 200 milhões de habitantes. Ambas filhas do governo Lula, para o bem ou para o mal.

Aqui é a terra do possível. Depois do sociólogo uspiano, do operário do ABC, da ex-presa política/torturada pelo Doi-Codi; a cortina política se abre para a seringueira de pele escura e negros cabelos de graúna.

A "Sra. da Silva", como a chamou o New York Times, mudou a história desse emocionante processo eleitoral. Dilma demorou a acordar do letárgico sono de quem dormia em berço esplendido a espera de mais quatro anos de mandato. Até que a luz vermelha piscou no partido da estrela.

Foi a morena Marina quem estonteou o acomodado mundo político brasileiro. Ao substituir Eduardo Campos criou novos cenários. Talvez, ela possa a ser reflexo silencioso das mobilizações de julho de 2013. Um dia, quem sabe, Dilma ainda lhe será grata.

Junto com a resiliência, veio a tática do medo e da distorção de fatos a qualquer preço. Estratégia antiga, surrada e burra, que já foi usada contra Lula em 2002 e não colou. Dá a impressão que o PT deseja ressuscitar a Regina Duarte, só que a seu favor. Ninguém pode ter medo da realidade, principalmente se deseja ser presidente de um país tão complexo e surpreendente como o Brasil. A realidade às vezes surta. Perder o poder deve ser realmente desesperador.

Ter uma mulher na presidência da República não é novo, pois Dilma é candidata à reeleição. O novo mesmo é a disputa entre essas duas mulheres, o que permite um olhar mais feminino sobre a nação, seus traumas, tramas e processos . Por isso, vivemos um momento realmente único tamanha a riqueza/encrenca que a vencedora terá pela frente. Até Aécio, que tenta respirar, já se deu conta desse quadro.

Como escreveu recentemente o poeta mineiro Ricardo Aleixo, está havendo "uma ilusão de ética". Acho até que ele não se referia ao contexto eleitoral, mas assumo o deslocamento.

A Petrobras, por exemplo, que já foi a joia da nossa coroa, virou ultimamente a Geni da recente história do Brasil. As denúncias do ex-diretor (e hoje delator premiado) Paulo Roberto começam a boiar e são de uma gravidade estratosférica.

desta vez não adianta culpar a mídia golpista. Quem apura é a Polícia Federal, órgão acima de governos e partidos. Não se tampa o pré-sal com peneiras. A maior empresa do país não pode mesmo ser refém do jogo político e das conveniências partidárias. A Petrobras nesse jogo é o Brasil e nossas mulheres-candidatas precisam ter propostas claras para tirá-la (a Petrobras) do lamaçal de propinas e corrupção onde foi jogada.

Esse é um teste hercúleo para quem tem sua base política-parlamentar acusada de corrupta por um corrupto arrependido. É óbvio que tudo terá que ser checado e pré-checado, mas onde tem óleo tem petróleo. Dilma vai dizer que nada sabe, mas vive um novo inferno astral. De repente a sua Central de Boatos foi atingida por um míssil amigo.

É de Alfredo Sirkis a afirmação: "há uma campanha milionária desesperada usando a "técnica Goebells" (minta, minta e minta, sempre vai ficar alguma coisa): Marina vai acabar com o pré-sal, tomar os royalties do Rio, privatizar a Petrobras, é fundamentalista, contra os gays, e mais qualquer outro absurdo que ocorra aos ficcionistas de plantão." Com a delação de Paulo Roberto, o Paulinho, todos esses argumentos foram por terra.

Aliás, a esquerda brasileira vive um cego processo autofágico onde calúnias, mentiras e arrogâncias mascaram temas e debates essenciais para o Brasil dar um novo grande salto, depois da era FHC e de Lula. A  Amazônia, por exemplo, está virando um canteiro de obras e o desmatamento voltou a subir este ano. E o governo permanece inerte. O debate político passará ainda por outros temas fundamentais como a reforma política, a reconstrução de uma Política Cultural digna; etc.

E outros mais que precisam ser aprofundados, como: modelos de matrizes energéticas, recursos hídricos, as grandes obras hidroelétricas, direitos humanos, racismo, fim da tortura, direitos LGBT, reforma educacional, direitos indígenas e dos povos da florestas e meio-ambiente. Temas que são absolutamente fundamentais para o nosso futuro.

Pois é isso: Marina e Dilma foram ministras do primeiro governo Lula. Vieram da mesma célula, do mesmo DNA, mas evoluíram de formas diferentes. A atual presidente significa uma opção séria pelo continuísmo da atual política econômica e social do PT; e pelo mando político – chamam também de "governabilidade "- da histórica turma do PT e do PMDB, com Renan, Sarney, Sérgio Cabral, Collor, Maluf, Garotinho e Lobão.

Marina chega como uma incógnita e não como um pacote fechado. Para os que buscam caminhos, saídas e soluções diferentes das que estão sendo apresentadas há 12 anos, para quem já se cansou da política de aparelhamento da companheirada; Marina pode mexer com estruturas dos podres poderes viciados pela eterna continuidade do só "nós que sabemos fazer." Gosto quando ela se compromete a convocar as melhores cabeças do país. Este sopro diferente nos traz certo alento e não medo, pois o Brasil é maior que tudo isso.

Uma nova alquimia se apresenta no país da antropofagia. Uma voz feminina se eleva numa política viciada em machos. Acusá-la por ser religiosa e/ou compará-la a Jânio Quadros e a Collor é raso, vazio e de uma tolice imensurável. Na verdade, um desrespeito à inteligência dos  eleitores que somos nós, os verdadeiros patrões da mulher que comandará nossos destinos.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Fwd: Orlando Senna - Agosto

AGOSTO

Por Orlando Senna

Agosto é considerado, em várias culturas, como um mês de azares e tragédias. Na Europa essa visão negativa do oitavo mês do calendário possivelmente teve início, segundo alguns historiadores, no século XVI com o episódio conhecido como Noite de São Bartolomeu, em Paris: em agosto de 1572 a rainha mãe da França, a católica Catarina de Médici, ordenou o massacre de milhares de protestantes. Segundo os católicos da época foram dois mil mortos, segundo os protestantes foram 70 mil. A partir de então, vários acontecimentos desastrosos acontecidos durante os agostos são enumerados pelos que se interessam por esses temas estranhos, entre eles o começo da Primeira Guerra Mundial em 1914, as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945, a construção do Muro de Berlim em 1961 e por aí vai.

O mês de agosto foi inventado por Otávio Augusto, primeiro Imperador romano, sobrinho e filho adotivo de Júlio César, o primeiro César, homenageado com o mês de julho. Otávio, que se auto proclamou Augustus (ou seja, sagrado), também queria um mês com seu nome e surgiu agosto, que antes se chamava sextilis por ser o sexto mês. Otávio Augusto rebatizou o mês, que passou a ser o oitavo no calendário e a ter 31 dias (como julho). Ao contrário da fama azarada desse mês, seu governo de quase meio século ficou conhecido como Pax Romana, um período em que não aconteceram invasões "bárbaras" ao império. Mas, para não fugir tanto à regra, Otávio Augusto morreu em agosto. Os numerólogos dizem que a má fama ou a maldição de agosto não tem nada a ver com o fato de ser o oitavo mês, com o número oito, que representa o resultado do que foi feito no passado, um prêmio ou um castigo segundo o que o indivíduo ou grupo fez. E, como sabemos todos, o oito deitado representa o infinito.

Em alguns países da América Latina, como México e Brasil, o mito do "mês do desgosto" é bem forte. No Brasil, alimentado pelo suicídio de Getúlio Vargas em 1954, pela renúncia de Jânio Quadros em 1961, pelo misterioso acidente de carro que matou Juscelino Kubitschek em 1976, pela morte de Glauber Rocha em 1981, pela morte de Miguel Arraes em 13 de agosto de 2005 e de seu neto Eduardo Campos no mesmo dia e mês deste ano de 2014. Glauber era impressionadíssimo com os azares de agosto. No agosto de 1976 ele apareceu em minha casa, no Rio, inquieto porque sentia que alguma coisa muito grave ia acontecer no Brasil, na política brasileira. Temia que o azar de agosto alcançasse Jango Goulart, que estava na Argentina. Era o dia 22 de agosto e ainda não sabíamos que Juscelino Kubitschek morrera na Via Dutra. A morte de Jango, até hoje sob suspeita de assassinato, ocorreu quatro meses depois, em dezembro do mesmo ano. Glauber subiria ao céu dos poetas e profetas exatamente cinco anos depois, também no 22 de agosto. 

Imagino como Glauber estaria inquieto no início deste agosto que está terminando, se entre nós ainda estivesse. É que estamos vivendo um agosto muito especial na história calendária, um tipo de agosto que nenhum de nós viverá outra vez: um agosto com cinco sextas-feiras, cinco sábados e cinco domingos, fenômeno que só acontece a cada 823 anos. Feliz setembro para todos, feliz primavera para o Brasil.

Por Orlando Senna


*


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Fwd: A morte e a morte de Eduardo Campos

UM ARTIGO DE MARCELO TORRES SOBRE A PERPLEXIDADE DIANTE DA MORTE

Crônica: "A morte e a morte de Eduardo Campos"

 

 

"Está morto: podemos elogiá-lo à vontade", diz o narrador de O Empréstimo, conto de Machado de Assis. "Tinha um olhar de lanceta, cortante e agudo". E é assim que o narrados nos faz conhecer o tabelião Vaz Nunes. 

 

Tomo de empréstimo essas aspas do narrador machadiano para falar das aspas póstumas dedicadas a Eduardo Campos, que teve a vida interrompida de forma trágica e prematura em acidente aéreo no fatídico 13 de agosto. 

 

Eduardo que tinha esse olhar de lanceta, cortante e agudo, o olhar anfíbio, como diz a matéria de capa da revista Piauí deste mês. Eduardo que, depois de morto, é coberto de elogios.

 

Em A morte e a morte de Quincas Berro D'Água, de Jorge Amado, o narrador diz que "Quando um homem morre, ele se reintegra em sua respeitabilidade a mais autêntica, ainda que tenha cometido loucuras em sua vida".

 

Referia-se à morte ou às mortes de Joaquim Soares da Cunha, o Quincas Berro D'Água, um sujeito que se afastara da família para se entregar à bebida e viver e morrer como um pária social.

 

Calma, não estou, com essa prosa, querendo comparar as duas mortes, muito menos relacionar um com o outro, até porque o primeiro é apenas um ser do plano da ficção e o segundo era uma pessoa de carne e osso.

 

Além de tudo, ainda que eles estivessem no patamar do real, sabe-se que Quincas partiu como um velho traste, enquanto Eduardo foi pessoa ilustrada - deputado, ministro, governador, até candidato a presidente. 

 

O que quero mostrar é como, no noticiário e nos comentários, numa oficina ou num salão de beleza, um morto, um morto famoso, é logo transformado em um mito, talvez um deus do seu tempo e do seu mundo. 

 

De acordo com as pesquisas Ibope, Vox Populi e Datafolha, cerca de 60% dos brasileiros não conheciam Eduardo Campos, e essa era inclusive uma das justificativas para sua até então baixa performance nas pesquisas.     

 

Mas eis que a morte chega e provoca uma reviravolta, talvez até milagres. De uma hora para outra, gente que nunca ouvira falar no candidato do PSB agora o cobre de elogios, todo mundo agora ia votar nele.

 

Não se pode duvidar da sinceridade do votante que ora se declara, o que se estranha é não ter havido antes tantos votos declarados como agora há, no calor da tragédia. O que havia era um movimento inverso - um ligeiro viés de queda nas pesquisas de intenção de votos.

 

Neste fatídico dia, o 13 de agosto, quem primeiro me trouxe a má notícia foi um dos manobristas da escola do meu filho. Às 12h58, assim que descemos do carro, seu Valtino veio tenso, ansioso, assustado, os olhos de incredulidade:

 

- Tá sabendo que Leonardo Campos morreu? - ele falou de um jeito que parecia se tratar de alguém da escola, talvez um pai de aluno.

 

- Desculpa, seu Valtino, mas quem é Leonardo Campos? 

 

- O candidato a presidente! Leonardo Campos! O melhor de todos...

 

- O senhor quer dizer Eduardo Campos morreu? É isso mesmo?

 

- É isso. Deu agora no rádio. Eu ia votar nele. Era a nossa única esperança... 

 

Naquele instante chegavam uns cinco ou seis pais e mães e todos dizendo que iam votar nele, que ele era o melhor candidato, ele era o mais preparado, ele era o mais bonito, e agora não tinham opção, ele era a única esperança... 

 

- Mas como é que esse homem só estava com 8% no Ibope? - pensei. – Pesquisas compradas, deve ser isso. Pesquisas compradas...  

 

E ainda teve uma matéria no UOL que dizia: "O estivador Donizete Maguila Júnior, 37, que mora próximo, disse que chorou ao ver o corpo do político. Ele conta que foi um dos primeiros a chegar ao local".

 

"Eu iria votar nele. Reconheci o corpo na hora. Era o meu candidato. Ele passava confiança. Chorei quando vi", disse Maguila Júnior. Já em matéria veiculada no site do Jornal do Brasil, Maguila Júnior teria dito o seguinte:

 

"O estrondo foi tão forte que as vidraças de casa quebraram e meu cachorro morreu. Em princípio vi seis corpos. Vi pessoas gritando, chorando e muito machucadas. Mas logo reconheci o nosso candidato pela cor dos olhos."

 

Não temos como duvidar do estivador quando ele fala das vidraças quebradas, da morte do cachorro, da sua confiança no candidato, do voto ora declarado e do choro sincero. Mas que reconheceu o corpo do homem pela cor dos olhos...   

 

Segundo vimos, os corpos das pessoas que estavam no avião foram dilacerados, sendo que a identificação só poderá ser feita no Instituto Médico Legal (IML), por meio de DNA, arcada dentária etc.

 

Mas ele reconheceu o corpo do seu candidato pela cor dos olhos...

 

Bom, eis aí a cobertura de uma tragédia, e com ela as opiniões antes desconhecidas, as simpatias apenas agora declaradas, os votos secretos revelados, todas as honras e todas as glórias para o novo herói nacional.

 

Num exercício de ficção, fico a imaginar o que estaria o morto pensando sobre esses elogios, esses votos, esses choros – toda essa coroação póstuma. Então lembro do defunto-narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas:

 

- O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós [mortos] é que não se nos dá do exame nem do julgamento.

 

Então, longe do olhar da opinião terrena, já indiferente ao exame e julgamento dos vivos, o morto – neste caso, o vivíssimo Brás Cubas – conclui dizendo o seguinte: - Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.   (marcelocronista@gmail.com


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

UM SINDICATO, DUAS VERDADES E UMA SÓ SOLUÇÃO

Um sindicato, duas verdades e uma só solução

 

"Ou a gente se Raoni

Ou a gente se Sting"

 

Luis Turiba

 

A intolerância é realmente uma merda. Não leva a nada, a não ser a um mau-humor intragável. Ou, em casos extremos, a guerras. Exemplos é que não faltam em nosso redor, basta ligar a TV.

Mas vamos pegar leve e ficar só no mau-humor. Foi o que ocorreu ontem com muita gente que esteve na reunião plenária convocada pelo Sindicato dos Jornalistas para discutir propostas e posturas que protejam os profissionais da Comunicação contra todos os tipos de violências – as do Estado (PM e polícias), a dos traficantes nos morros cariocas, a dos black-blocks em manifestações; e a dos patrões dentro das empresas.

A galera do movimento "Esse Sindicato não me representa" foi à reunião com o objetivo de botar a atual diretoria para fora do Sindicato através de renúncia. Eram muitos e tinham certeza que conseguiriam tal objetivo. Para isso, se mobilizaram, levaram um abaixo-assinado com 800 nomes, montaram um cardápio de argumentos, começaram a reunião na força e na pressão.

Mas não seguraram nem a peteca nem a pemba da jornalistada presente, especialmente a jovem e combatente redação da EBC.

Moral da história: os insatisfeitos que se mudem e esses, tão mais cheios de razões que a própria razão desconhece, acabaram por bater em retirada antes da reunião findar, levando na bagagem o mau-humor da intolerância.

O que vi e ouvi – pude assisti a tudo de helicóptero, pois não sou militante desse ambiente - foi uma linda e contundente vitória do Sindicato e de todos os jornalistas do Rio de Janeiro.

Ao longo do debate que foi riquíssimo e esclarecedor, ressoaram no auditório  frases e conceitos fantásticos de jovens jornalistas que desejam um Sindicato livre, vivo, ativo, dinâmico sem nenhum ranço peleguista ou qualquer intimidade patronal.

A coisa parece óbvio, mas algo estava fora do lugar. Como pode, jornalistas que têm compromissos éticos com os fatos reais, estarem se pegando por versões diferentes de um mesmo fato?

Muita gente foi a plenária sentindo no ar um "cheiro de golpe" da turma que desejava (sabe-se lá porquê) derrubar a diretoria eleita. "É preciso não deixar isso virar um Fla X Flu", diz um outro. Alguém de repente afirma que "jornalismo é feito com fato" e em seguida indaga: "Onde estão os fatos?". Que fatos? Cadê as provas de que jornalistas foram expulsos da sede do Sindicato pelos black-blocs liderados pela Sininho? Não existem. Jornalismo não se sustenta na base do disse-me-disse", afirmaram.

Aliás, muitas jornalistas pegaram o microfone para desmentir a versão da expulsão. E por quê a professora Sylvia Moretzsohn, presidente da Comissão de Ética, que ouviu todas as partes envolvidas no episódio, fez uma carta contestando as informações do grupo que pede a renúncia da diretoria eleita. Em seu parecer, Moretzsohn afirma com todas as letras que os jornalistas deixaram o Sindicato depois que a presidente Paula Máiran, sentindo que o clima era ruim entre os participantes, encerrou a reunião convocada pela Comissão da Verdade.

Enfim, quem esteve na reunião para "renunciar a diretoria sindical" não teve força nem argumento sustentado para isso. É claro que a diretoria de Máiran foi muito criticada; mas a maioria dos presentes na plenária deu voto de confiança a diretoria e deseja que, partir de agora, as ações em defesa dos jornalistas fiquem mais transparentes. Alguém chegou a afirmar: "lucidez agora é apoiar e fortalecer o Sindicato."

Tudo caminhava para um final harmonioso, com muita paciência e elegância da mesa; além da aprovação de propostas de proteção aos jornalistas no exercício da profissional; quando a colega Cátia Guimarães, da Fiocruz, numa fala contundente, forte e até provocativa, no bom sentido, acusou os colegas do "Não me representa" de prejulgar os movimentos sociais com acusações e condenações sem provas".

Aí o tempo fechou com raios e trovoadas, pois uma representante da oposição sindical levou para o lado pessoal e "caiu pra dentro".

Não deu outra: intolerância e mau-humor se espalharam no auditório do Fórum de Justiça, onde foi realizada a reunião. Felizmente, seguranças do Tribunal garantiram a ordem, quem não gostou foi embora (por livre e espontânea vontade, diga-se de passagem).  No final, várias propostas e moções foram aprovadas e o Sindicato saiu muito fortalecido para novos embates.

Ou seja: a luta continua.

 

 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O MELHOR DA FLIP FOI NAS RUAS

 Luis Turiba

Uma festa literária que se esparrama para além das páginas dos livros e dos pensamentos dos pensadores. Essa é uma das essências mais marcantes da Flip, que nos últimos 12 anos tem transformado por três dias a histórica cidade de Paraty, na região sul do Rio de Janeiro, numa espécie de quermesse de letras, palavras, sons, papos-cabeças, paladares, conhecimentos, ideais.

Vive-se cenas múltiplas com cortes, flashes-back, efeitos especiais, fundos musicais, ousadias e muito bate-perna. O mundo esteve presente ali com o seu melhor e o seu pior, com o apadrinhamento do filósofo Millôr Fernandes, o patrono-homenageado da farra.

Pois então: voltando para casa onde nos hospedamos num condomínio gracinha na rua do canal, já cansados no início da madrugada; um tanto o quanto "borrachos" pelas duas garrafas de Trapiche argentino esvaziadas no restaurante Thai Brasil, lá vamos nós, abraçadinhos, narizes gelados, casacos fechados até o pescoço para proteger-se do frio de 13 graus, atravessando a ponte das bandeiras que une o fuzuê da praça à tenda principal.

Vindo do lado contrário rumo à praça surge o escritor José Resende, contista brasiliense e um dos textos mais suaves da minha geração de Brasília. Abraços trocados, apresentações feitas, fica no ar o convite: "Amanhã às duas faço recital no Café Literário do Off Flip. Apareça!"

Não mais voltei a encontrar o Resende na Flip. Ninguém que chega a Paraty tem muito compromisso com mesas, falas e apresentações de ninguém. A não ser aquelas pessoas (a minoria) que tem tickets previamente comprados para essa ou aquela apresentação. Quem não tem, vai aos telões e andar pela cidade.

Todos, porém, têm o compromisso de andar pelas ruas de pedras de Paraty. Elas são arredondadas, cada qual uma obra de arte à parte, poemas geológicos cravados ali por escravos vigiados pelo chicote cantante do colonizador português.

É esse assoalho "desproporcionário" que dá ao nosso andar em Paraty um equilíbrio literário. E todos seguimos felizes pelas ruas, esbarrando em textos e sendo esbarrados por contextos; encontrando-se e desencontrando-se, conhecendo in loco novos autores, leitores, atores, agentes, livros e novos amigos de bons papos e pratos.

Se não voltei a me encontrar com Resende, nem topei com Romildo Guerrante, foram tantos outros e repetidos os encontros com Maurício Mello Júnior, Suzana Vargas, Ancelmo Gois, Ovídio Poli Júnior, Tavinho Paes, Chiquinho Amaral, João do Corujão da Poesia, Sergio Léo e Marta Salomão, Maria Cristina Andrade, que me senti na tribo. Sempre ao acaso, o que dá a sensação de libertação. Planejado mesmo, só o recital que fizemos no Café Literário da Off Flip, no Clube dos Autores.

Então é isso: quando a fome bate, andarilhos entram em alguma pequena porta. Assim, como num lance de dados, descobrimos o sofisticado Thai, gastronomia tailandesa apimentadíssima, onde ouvimos uma maravilhosa bossa-nova em sax e violão, tendo na mesa ao lado o poeta-cronista Jose Miguel Wisnik.

Tudo acontece nas ruas festivas de Paraty. Na porta de um outro restaurante, o líder yanomami Davi Kopenawa, dá entrevista para uma rádio francesa. Ali perto, índios guaranis são redimidos e redescobertos com seus balagandãs artesanais multicoloridos. Uma passeata aqui, um batuque de maracatu acolá; um sapateador argentino a suar a camisa para ganhar trocados; e aqueles carrinhos de doces que quebram os regimes mais disciplinados.

E assim caminha a Flip com papos afinados e conversas afiadas por entre pedras redondas. São nessas ruas de arquitetura colonial, luzes de mistério e ares de história, que as falas, conceitos, polêmicas, provocações de cabeças pensantes e realizadoras como Pérsio Arida, Glenn Grenwald, David Carr (New York Times), Eduardo Viveiros, Bernardo Kucinski, Marcelo Rubens Paiva, o poeta Charles Peixoto e a escritora Fernanda Torres com suas tiradas hilárias, ganharam ecos, reproduzindo-se até o sapato furar de tanto andar. Conversa também andam e ruas terminam repercutindo as tendas. 

Me lembro: na minha primeira Flip, há 10 anos, entrei em Paraty de charete na carona do ministro Gilberto Gil, de quem era assessor. Ouvi então Chico Buarque homenagear Vinícius de Moraes. Dez anos depois, volto de carro e ando a pé na multidão, revezando dois pares de tênis: um para a prosa, outro para a poesia.

Só assim pude entender que em terra de Millôr, o bom humor reina. Está nas ruas, mesmo que nasça em tendas. Em Paraty a praça ainda é o melhor e o grande palco. E é no ti-ti-ti que a literatura se faz viva.

 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

ESCOLA BOMBA

 

Luis Turiba

 

Quando se bombardeia uma escola

de pássaros em primeiros passos

- estilhaços de vidros, pó de fogo,

fumaça tóxica venal e ácida nos

corpos nos olhos de quem já não tem

lágrimas nos rostos plásticos –

mata-se mata-se mata-se mata-se

famílias Cristos todos micros organismos

que possam sobreviver em espíritos

desce-se ao inferno dos infernos quando

o pequeno neto do avô esquelético é

arremessado como tijolo oco nos

escombros dos horrores sem lei

sem lógica sem chance de retorno

da bola de fogo que jaz do ensino ao forno

entre o silêncio o silvo e o estampido

quando bombas arrasam escolas em Gaza

é cortado o cordão umbilical com o humano



sexta-feira, 18 de julho de 2014

Fwd: Orlando Senna - O Brics e as telas

O Brics e as telas

Por volta do ano 2000 os quatro países mais emergentes do mundo iniciaram reuniões com o propósito de acelerar conjuntamente o crescimento de suas economias, através de uma série de acordos comerciais e de cooperação. Não se apresentaram como um bloco econômico, no sentido corriqueiro desse conceito, nem foram considerados inicialmente como tal, tanto que nunca tiveram um nome ou uma sigla oficial, como União Européia, Nafta, Mercosul. Ganhou, como apelido inventado pelo economista Jim O´Neil, do banco Goldman Sachs, a palavra Brics, iniciais dos países participantes, Brasil, Rússia, Índia, China. Em 2011 a África do Sul passou a integrá-lo, conformando uma associação que abriga 40% da humanidade (3 bilhões de habitantes) e tem 21% do PIB global. Um PIB superior ao dos EUA e da União Européia.

Durante esta semana o Brics realizou sua sexta Conferência de Cúpula no Brasil e tomou as mais importantes decisões de sua curta história: a criação de um banco próprio e poderoso, o Novo Banco de Desenvolvimento-NBD, capital inicial de 50 bilhões de dólares e projetos de infraestrutura (maior que o Banco Mundial), e um fundo anticrise, o Arranjo Contingente de Reserva, com caixa inicial de 100 bilhões de dólares e destinado a blindar os países associados das intempéries da economia global, geradas pela gestão atropelada dos dinheiros do mundo pelo FMI e Banco Mundial. Sem papas na língua, os mandatários do Brics anunciaram um esforço conjunto e expansivo para a reforma e a "democratização" do FMI.

Os EUA e Europa nunca gostaram da iniciativa dos grandes países emergentes, trabalharam duro para impedi-la mas, diante da determinação deles, e agora das ações decididas no Brasil, o gostar ou não gostar perdeu o sentido, a relação com o tema passou a outro patamar. Em uma linha entre o ponto de vista e o horizonte o que se desenha é um bloco econômico/cooperativo/cultural capaz de assumir a liderança planetária a médio prazo, com um mercado produtor e consumidor que pode deixar na poeira o poder imperial (já bastante ferido e debilitado) dos EUA. Essa mudança progressiva do eixo econômico, e consequentemente cultural, do mundo ainda vai gerar muitos entreveros entre os caubóis do Tio Sam e a turba de cossacos, cangaceiros, shaolins, gurus e zulus dos Brics. Na minha modesta opinião, a segunda metade do século XXI será bem diferente da primeira, os indícios apontam que e a humanidade iniciará uma nova etapa da sua história.

Nesse contexto, o tema que ainda não apareceu publicamente é o das comunicações e das indústrias culturais, aspecto determinante para uma nova era global. Em quatro palavras, um Mercado Comum Audiovisual Brics. Não constou de nenhuma pauta anunciada porque se trata do mais delicado dos temas a ser trabalhado pelo Brics, o enfrentamento maior com os EUA. A ausência na pauta pública não significa que, internamente, a matéria não esteja sendo tratada, no ritmo lento mas cadenciado do avanço Brics. Desde o primeiro governo Lula algumas interfaces da comunicação e do audiovisual estão sendo abordados com Índia e China, em análises, projeções e prospecções para acordos de cooperação bi e multilaterais. 

Recentemente, a ideia desse mercado comum ecoou nos ouvidos de alguns ministros do governo Dilma, com a discreção exigida pelo caráter de atmosfera explosiva do assunto. Um mercado comum de produção e distribuição ancorado em três bilhões de consumidores internos e com fôlego para uma enorme difusão externa, transformando radicalmente o cenário cultural e informativo global. Quem viver, verá. 

Por Orlando Senna 


* Link para outros textos de Orlando Senna no Blog Refletor    http://refletor.tal.tv/tag/orlando-senna 


segunda-feira, 14 de julho de 2014

SE PIORAR, MELHORA

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO.....

...e se Pelé fosse argentino?
...e se Podolski tivesse um hostel no Vidigal?
...e se Toninho Cerezo não errasse aquele passe contra a Itália?
...e se o Sol amarelasse em Cabrália?
...e se o Maracanã desabasse como um viaduto?
...e se Maradona montasse uma boca no Alemão?
...e se o Felipão fosse candidato à presidência?
...e se o apagão fosse uma explosão nuclear?
...e se a crônica esportiva tomasse um lexotan?
...e se o David Luiz tivesse a careca do Robben?
...e se não tivesse Copa?

quinta-feira, 10 de julho de 2014

BRASIL NA COPA

RESPEITEM A AMARELINHA


Luis Turiba

Caro amigo Rudolfo Lago: console-se, não chore, não se culpe. Mesmo que o mundo não passe da próxima guerra e outra civilização venha habitar a Terra, jamais esqueceremos o estranho apagão da seleção brasileira que nos tirou o sonho do hexa.

Imagens fortes marcam nossas vidas. Me lembro (e cada um de nós, também) quando assistimos pela televisão a transmissão direto os ataques terroristas às Torres Gêmeas de NY em 11 de setembro de 2001.

Foi com a mesma sensação de perplexidade no olhar que vivi os quase 10 minutos dos cinco gols seguidos da Alemanha. A certa altura me pareceu repetições de algo muito ruim que estava acontecendo ali, ao vivo e a cores. História na TV. Algo nos paralisava. A seleção caia como um viaduto.

Há quem diga que o vacilo dos 7 a 1 do Mineiraço reabilitou, 64 anos depois, o goleiro Barbosa e todos os demais jogadores brasileiros que perderam para o Uruguai no Maracanaço de 50. Justiça histórica? É... pode ser.

Vexame nacional, derrota pornográfica, apagaço psíquico, atraso tático, auto-engano, galhofa cósmica, surra alemã. Doída e ferida; com o coração e os joelhos humilhados e ralados; pingando lágrimas, suor e o sangue dos derrotados, a nação brasileira se curva em busca de explicações. Afinal,  "o escrete é a pátria de chuteiras, escreveu Nelson Rodrigues – um dos personagens mais vivos dessa Copa de 2014.

Os especialistas meteram o pau no esquema tático do Felipão: só três volantes para sete voláteis, Fred pra quê? A crônica esportiva, incrédula e atordoada, procura com razão (mas não acha, pois quem acha vive se perdendo), as razões extra-campo para tamanho papelão. Mascarados prometem invadir a CBF, Romário à frente: quebra tudo, fora Marins. Até Paulo César Caju ficou roxo de raiva: "apertem os cintos, o piloto sumiu".

E os intelectuais garantem, citando Friedrich Nietzsche: "as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras." É isso Felipão?!

Há mais verdades e mentiras no ar do que supõe nossa vã filosofia. "O time entrou em campo dopado, de olheiras", me garantiu um bem situado observador. A culpa é da psicóloga que não conseguiu "psicolografar" nossos craques. Chama o Dunga pra cabeça de área.

Pouco ou muito importa: o time se dissolveu em campo como uma fumegante diarreia. E nós, torcedores, fomos arrancados do mundo sem direito a passagem de volta. Agora, temos que enfrentar os moinhos de ventos da terra de Van Gogh.

A seleção brasileira tem história e histórias. Já nos deu alegrias e tristezas (históricas) também. Por ela, já rimos, festejamos e choramos de emoção, de raiva, de decepção. Também vaiei, fui engenheiro de obras prontas. Mas ela nos pertence, assim como o futebol não é (e não pode ser) propriedade de ninguém. É algo coletivo. Não tem dono. Campeões, sim. E nós brasileiros, chegamos ao topo por cinco vezes. Mais do que qualquer outro povo neste planeta.

Portanto, a seleção não merece ser tão achincalhada. Nem em campo, nem fora. Nossos jogadores não foram treinados para perder. Não era o que desejava Felipão, Parreira (ambos também campeões) e os demais da Comissão Técnica.

Todos se esforçaram ao máximo nesta Copa. Cada um suou a camisa por si e por nós aqui fora. Houve um acidente em campo, algo muito grave, é verdade. Mas esculachar não. Não podemos permitir com esse patrimônio cultural do Brasil seja jogada assim no ralo da falta de saneamento básico.

Tem uma música do filósofo musical Jorge Benjor – "Quem cochicha o rabo espicha" – que nos ensina: "Também não fique pensando/ Que essas vitórias serão fáceis/ Pois nesta vida de perde e ganha/ Ganha quem sabe perder/ E perde quem não sabe ganhar/ Por isso você precisa aprender a jogar/ Em vez de ficar cochichando/ Olhando o bonde passar."

Vale lembrar também trecho de uma crônica do poeta Carlos Drummond sobre a sofrida e chorada derrota do Brasil para a Itália em 1982, por 3 a 2, quando tínhamos um time dos sonhos cheio de talentos como Zico, Sócrates, Falcão e Toninho Cerezo.

"Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo.(...) Perder implica remoção de detritos: começar de novo. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas. A Copa do Mundo (..) acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos. E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?"

Então é isso: hora de olhar para o próprio umbigo. Redescobrir Garrinchas, Pelés, Didis, Gérson, Tostões, Cajus, Romários, Ronaldos. Cartolas para o inferno.

Para finalizar, querido amigo, vamos aplaudir (de pé) a seleção da Alemanha, provavelmente a futura campeã do mundo. Jogou bonito e sério, rolando a bola de pé em pé, colocando a tonta defesa brasileira na roda.

Um agradecimento a seus jogadores pela elegância da vitória, especialmente a Mesut Özil  que escreveu no twitter: "Vocês têm um país lindo, pessoas maravilhosas e jogadores incríveis. Essa partida não pode destruir seu orgulho!"

O atacante Lukas Podolski, também se manifestou com uma espécie de Manifesto. Pode até ser uma jogada de marketing, mas vale a pena ser lido:

"Respeite a amarelinha com sua história e tradição, o mundo do futebol deve muito ao futebol brasileiro, que é e sempre será o país do futebol. (...) Todos nós crescemos vendo o Brasil jogar, nossos heróis que nos inspiraram são todos daqui. 
E finalizou: "Brigas nas ruas, confusões, protestos não irão resolver nada ou mudar nada, quando a Copa acabar e nós formos embora, tudo voltará ao normal. Então, muita paz e amor para esse povo maravilhoso. Um povo humilde, batalhador e honesto. Um país que aprendi a amar".

Então, amigo, chegou o momento de tirarmos o rabo de entre as pernas, sacudirmos o complexo de vira-lata que volta a nos ameaçar, vencendo nossos moinhos de vento e reinventando o futebol arte-com-gestão.

Todo mundo bufando, torcendo, opinando e discutindo. Que momento maravilhoso. Partamos para a Democracia no futebol. Então: vida que segue, mesmo com 7 a 1 nas nossas costas. Vamos incorporá-lo. Outras goleadas virão, contra e a favor, no campo e na vida. Chega de chororô.