Mostrando postagens com marcador artigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador artigo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

ARUC, PATRIMÔNIO CULTURAL DE BRASÍLIA, CORRE SÉRIOS RISCOS

Meu caro amigo Turiba, Te escrevo em caráter pessoal, em nome da nossa amizade e do nosso compromisso com a história dessa cidade que escolhemos para viver e que ajudamos a escrever. A ARUC vive um dos momentos mais difíceis e dramáticos da sua gloriosa história de 54 anos. Durante todos esses anos, a ARUC se transformou numa referência do samba, do esporte, da cultura e do Carnaval não só em Brasília, mas em todo o país. Você sabe muito bem que no Rio de Janeiro, entre os sambistas e o povo do Mundo do Samba, todo mundo conhece e respeita a ARUC e seu trabalho. Você não só sabe disso, como acompanhou de perto grande parte dessa história, frequentando nossa quadra, seja nos ensaios, seja nos eventos, e até mesmo desfilando na Bateria. O trabalho da ARUC em defesa do samba de raiz, principalmente a partir do final dos anos 70 e começo dos anos 80, foi decisivo para que Brasília recebesse, na quadra da ARUC, nomes como os de Paulinho da Viola, João Nogueira, Beth Carvalho, Elza Soares, Eliana Pitmann, Nelson Sargento, Noca da Portela, Martinho da Vila, Jamelão, Luiz Carlos da Vila, Velha Guarda da Portela, Dona Ivone Lara, Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Dorina e tantos outros sambistas de renome. Tudo isso nos permitiu ter a honra de ser uma das poucas manifestações culturais de Brasília a ser oficialmente reconhecida pelo GDF como Patrimônio Cultural Imaterial do Distrito Federal. Pois bem, toda essa história, agora, está seriamente ameaçada. Seja pela indefinição quanto à regularização da área ocupada pela ARUC desde 1973, que se arrasta há anos, nos causa uma profunda insegurança jurídica e nos impede de buscar patrocínios e parcerias para revitalizar a área e promover benfeitorias que beneficiariam não só a comunidade do Cruzeiro, mas os amantes do samba de toda a cidade, seja pela não realização dos desfiles das escolas de samba em 2015, que, muito provavelmente, também não deve ocorrer em 2016, que afasta a nossa comunidade da nossa quadra e da nossa sede. Para lutar contra isso e mostrar que estamos vivos, temos tentado realizar alguns eventos, ao longo do ano, mantendo viva a bandeira do samba. Amanhã, dia 5 de dezembro, realizaremos mais um desses eventos, uma Feijoada, para comemorar o Dia Nacional do Samba, com a participação da cantora Dhi Ribeiro e dos grupos Samba-Show e Kanella de Cobra, além da Bateria Nota 10 da ARUC. Durante o evento, lançaremos oficialmente a campanha Sou + ARUC, que pretende mobilizar a comunidade, os amantes do samba e os amigos da ARUC, como você, na defesa da regularização da nossa área e na luta pela nossa sobrevivência. Conto com sua presença nesse evento e, mais do que isso, com seu apoio, pessoal e profissional para ajudar a divulgar as nossas atividades e na nossa campanha em defesa da ARUC. Um abraço fraterno Moa – 04/12/2015

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

CARNAVAL DO RIO DÁ LIÇÃO MUNDO RAIVOSO

Por Luis Turiba
O Rio de Janeiro é uma cidade tão intensa em todas as suas atividades cotidianas – seu povo, a natureza, trânsito estressado, ações sociais, culturais, policiais, etc – que você tem a impressão que está sempre perdendo alguma coisa importante em algum lugar imaginário.

Para quem vem de 36 anos de Brasília, a capital dos espaços urbanos burocráticos e conspiratórios, como venho, essa sensação ganha dimensões transcendentais.

Em Brasília, ao se sair de casa ouvindo o gorjear dos pássaros, o canto dos galos e um latido de cão perdido na imensidão do cerrado, levasse alguns quilômetros por avenidas largas até surgir algum acontecimento digno de registro. Às vezes, um dramático desastre de trânsito encurtava essa demanda e congestiona sua visão.

No Rio, mal você bota os pés na rua, começa a acontecer tudo ao mesmo tempo agora. A cidade tem seu frenético ritmo, um pulsar repleto de zumbidos, tiques nervosos e surpresas inebriantes. É disso que se alimenta o carioca.

Um vendedor de biscoitos pode quebrar bem cedo o jejum ao gritar seu pregão a plenos pulmões enquanto você desce a rua barbeado e perfumado: "rooooooooooosquinha! Quem quer comer minha roooosquinha!!! Tá quentinha e é goooooostosa!". Pronto, só isso já cria uma ambientação teatral na cena urbana. E você vai andando pelas calçadas que são verdadeiras feiras permanentes onde mulheres exuberantes desfilam suas gorduras encantadoras como se estivessem em passarelas fashions.

Dependendo de onde você mora, isso piora (ou melhora) e muito. Tem um doido em cada esquina e uma esquina para milhares de freadas e buzinadas. Um maluco de bicicleta, um camelô artista, um artista sem platéia. Funcionários da prefeitura com lambretas de baianos azucrinando seus ouvidos ao cavucar esgotos, fiações e outras conexões.

Quando se chega na semana pré-carnaval que estamos vivendo, esses micros acontecimentos multiplicam-se numa dimensão inconcebível. Uma simples saída do Cordão do Bola Preta arrasta 100 mil pessoas pela Avenida Rio Branco. Mas isso não é nada, pois espera-se um milhão na manhã do próximo sábado quando o centenário bloco abre oficialmente o Reinado de Momo.

A carnaval de rua do Rio já ultrapassou em muito as dimensões do de Salvador. Para esse ano, as previsões mais otimistas dão conta de seis (6) milhões de pessoas nas ruas brincando em quase 300 blocos, bailes, escolas de sambas e de bambas. A cidade ferve e tome beijo na boca, muito mais por conta das mulheres que dos homens. É o prazer pelo prazer... e muito prazer em não te conhecer.

Jovens, jovens, como é bom ser jovem. Ele lê com atenção o que está escrito entre um vagão e outro do Metrô: "Não abra essa porta! Perigo de Morte por choque elétrico". Bem, o que ele faz? Abre a porta e passa corrente de um vagão para o outro desafiando a sorte e a morte.

Enchem a cara de vodka num calor de 44 graus e baixam enfermaria para sessões de glicoses na veia. Mas sem eles não existiria carnaval no Rio de Janeiro, pois são eles que fazem a beleza da festa com seus irresponsáveis desafios e seus cânticos de guerra e paz, subindo e descendo, ratatara ratatara.

E aí se juntam em blocos com nomes sui generis como "Já que pegou amassa", "Vem min mim que sou facinha", "Rola preguiçosa", "Que merda é essa", etc.

Ontem, domingão de Flamengo campeão, além do adorável "Suvaco do Cristo" que passou a sair às 9 da matina para evitar superconcentrações, fui no bloco dos Malucos Beleza – o "Tá Pirando, Pirado, Pirou". Só num carnaval como o do Rio de Janeiro é possível se fazer com sucesso um bloco que há sete anos desfile sua ação contra manicômios, hospícios e outras prisões da mente e do pensar. O bloco sai com o patrocínio da Petrobrás e da ONG Brazil Foundation.

Desfilou do Pinel para a Urca de Roberto Carlos  com o enredo "As 7 Maravilhas do mundo: ver, ouvir, provar, amar, sentir, rir e fazer fotossíntese". O genial samba de Nico da Cavaco, Roni e Bisqui da Fatinha dizia lá pelas tantas: "O Tá Pirando não vem de Win Wenders/ Com seus anjos morrendo de inveja/ Mirem-se no exemplo dessa flor/ Ama a luz mesmo cega/ Bethoven compôs sendo surdo/ A nona sinfonia genial/ Maestro assopra o apito/ Chegou o carnaval." 
E assim o Rio encarna o grande hospício do "Vai Passar" do Chico dando lições ao mundo nebuloso que ainda é possível se viver com alegria, ritmo e zoeira. 

 

 

sábado, 27 de junho de 2009

DÁ PRA PUXAR A DESCARGA AÍ, MERMÃO!

Como ninguém puxa a válvula e ainda deixa a porta do Senado, digo, banheiro aberto, José Sarney não sai do troninho

Por Márcia de Almeida,
do site www.emdiacomacidadania.com.br

Alvo de investigação da Polícia Federal, o esquema do crédito consignado no Senado inclui entre seus operadores José Adriano Cordeiro Sarney - neto do presidente da Casa, o senador José Sarney (PMDB-AP). De 2007 até hoje, a Sarcris Consultoria, Serviços e Participações Ltda, empresa de José Adriano, recebeu autorização de seis bancos para intermediar a concessão de empréstimos aos servidores com desconto na folha de pagamento. Ao Estado, o neto de Sarney disse que seu 'carro-chefe' no Senado é o banco HSBC. Indagado sobre o faturamento anual da empresa, ele resistiu a dar a informação, mas depois, lacônico, afirmou: 'Menos de R$ 5 milhões.', deu o Estadão, mas o ex-presidente diz que é uma perseguição da mídia por ele apoiar Lula.
Aí, ontem, veio outra informação, a de que sua filha, a senadora e atual governadora do maranhão, roseana sarney, virou funcionária da casa em um dos famosos trens daalegria, que incorporavam ao serviço público os não-concursados. Por acaso, este trem foi em 1985, quando papai Sarney era Presidente da República, quando defendeu e representou a ditadura militar durante seus 21 anos de existência e, hoje, ninguém fala disso.
O movimento Fora, Sarney já esta na rede e dentro do próprio Senado. Mas Lula diz que o país não pode parar por coisas menores, mesmo estando comprovado o assalto permanente aos cofres públicos efetados pelo Legislativo deste país abençoado por deus, e bonito por natureza, mas que beleza!/Em fevereiro, tem Carnaval, como remarcou Jorge Benjor.

sábado, 13 de junho de 2009

O MARTÍRIO DE GALENO


Artigo do editor Carlos Marcelo, publicado no Correio Braziliense de hoje (13.06)

carlosmarcelo.df@diariosassociados.com.br


Com orgulho, o artista plástico Galeno mostra a última fase do trabalho que desenvolve, a convite do IPHAN, no interior da Igreja Nossa Senhora de Fátima. Abre um sorriso ao perceber o embevecimento dos que acompanham sua trajetória diante do resultado do maior desafio que já enfrentou: levar a sua arte às paredes da capela desenhada por Niemeyer no coração da Asa Sul.
Mas o artista baixa o olhar quando reproduz a sucessão de ironias e hostilidades que tem escutado diariamente nas últimas semanas por se recusar a seguir um modelo figurativo para a representação da aparição de Nossa Senhora às crianças portuguesas Jacinta, Lúcia e Francisco em 13 de maio de 1917.
“Tem dias que a gente perde até a vontade de trabalhar....”, disse.
Opiniões divergentes existem e sempre existiram, ainda mais quando o tema envolve religiosidade e fé. Por isso, antes de mais nada, é preciso pautar a discussão sobre os novos painéis da Igrejinha, que envolveram até o Ministério Público Federal (acionado após recebimento de abaixo-assinado com 68 nomes que não aceitam o trabalho de Galeno), pelo respeito.
Estabelecido o patamar mínimo para qualquer debate, convém tentar alcançar a dimensão do fato e não reduzi-lo a uma questão de gosto pessoal.
Pelas características únicas do projeto original, a Igrejinha é uma edificação que transcende a próprio religão: trata-se de um monumento arquitetônico e urbanístico – ali se encontram, reunidos, os gênios de Niemeyer e Athos Bulcão, em espaço de convívio idealizado por Lúcio Costa,e por isso dezenas de turistas a visitam diariamente.
A Igrejinha não é propriedade particular dos seus fiéis freqüentadores, que lá encontram espaço para o exercício de sua fé. Ela é maior do que a população que a circunda e dele se apropria”, definiu o artista plástico Omar Franco, em comentário no blog do poeta e jornalista Luís Turiba, um dos primeiros a ampliar a discussão.
Desejar a Igrejinha ornada da mesma que outros oratórios espalhados pelo Brasil é, em última instância, recusar Brasília. Significa a rejeição ao projeto original da cidade em prol da reprodução de moldes seculares – um dos freqüentadores chegou a sugerir que Galeno projetasse uma imagem sacra na parede e se limitasse a copiá-la. Mais preocupante do que esta visão reducionista da capital e do processo criativo do artista, porém, é tomar conhecimento dos episódios de desrespeito à arte de um brasileiro nascido em 13 de maior e que, por isso, carrega Nossa Senhora não apenas na inspiração. Porque o nome completo do artista que tem sido hostilizado por alguns fiéis é Franscisco de Fátima Galeno. Um piauiense radicado no Planalto Central desde 1959; um brasiliense como todos nós.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

PINTURAS PAINÉIS DA IGREJINHA

Omar Franco, artista plástico

Está na hora de esclarecer alguns aspectos inerentes à arte e à cultura, quando a pedido de carolas, trazem à cena o Ministério Público Federal para salvaguardar suas vontades e desejos de ver fora das paredes da Igrejinha uma obra de arte autêntica e de valor inestimável, tanto do ponto de vista estético, quanto pelo valor social/cultural que o artista Galeno representa.

A Igrejinha não é propriedade particular dos seus fiéis frequentadores, que lá encontram espaço para o exercício de sua fé. Ela pertence a todos os brasileiros. Ela é parte de um todo. Ela é maior do que a população que a circunda e dela se apropria. O trabalho de arte, que nela está sendo feito, transcende a existência imediatista dos seus frequentadores.

Dessas paredes já foram retiradas as pinturas do genial Alfredo Volpi. Foram vilipendiados os azulejos de Athos Bulcão, transformaram seus arredores em mictórios fétidos. O desejo de retornar as cores azul e branco das paredes refletem muito bem o vazio existente na cabeça dessas pessoas. A igreja católica foi o maior mecenas que humanidade já conheceu. Se esqueceram da Capela Sixtina?

Quem conhece um pouco de semiótica sabe o poder que a imagem tem. A arte é reflexo imediato de uma ação cerebral criativa. O que mais nos aproxima de Deus do que a nossa capacidade de criação? Seria conveniente substituir a obra do Galeno por uma N.S. de gesso? Como ousam destruir o que não conhecem? Essa atitude tomada por pessoas, contrárias ao trabalho tão bom e honesto que vem sendo realizado pelo Francisco de Fátima Galeno (nascido em Parnaíba, Piauí, em 13 de maio de 1956, mesma data em que nasci) nos devolve à penumbra, à escuridão, às trevas e ao obscurantismo recente da nossa história política, quando os poderosos chamavam a polícia para resolver querelas que contaminavam seus interesses particulares comezinhos.

Não é possível em uma cidade como Brasília, cercada de arte por os todos lados e tombada pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, se submeta a uma minoria ignorante, limitada e poderosa, sem argumentos, acione o Ministério Público Federal, já sobrecarregado, para se meter numa ação de poucos, que novamente se dispõem a dar um grande chute na Santa, mas dessa vez, como fogo amigo, dando um tiro no próprio pé.

Brasília, 10 de junho de 2009.

terça-feira, 2 de junho de 2009

CARTA DE BRUNO SOBRE O PAI TIM LOPES

A Sandra, mãe do filho de Tim Lopes, enviou a amigos carta do filho Bruno

Vale a pena parar e lê-la. É de uma beleza transcendente. Me emocionou e vai lhe emocionar também

Meu pai

Hoje eu poderia escrever mais uma vez sobre violência. Sobre tráfico de drogas e de armas. Também poderia discorrer aqui ideias ou pensamentos criticando a política de segurança do estado - ou a falta dela. Muros da discórdia. Ou falar de assassinatos e torturas. Crimes e mortes. Falar sobre impunidade, redução de pena, progressão de regime, guerra de tribunais e tribunais de guerra.

Legitimação do estado democrático de direito ou sua proclamação, ainda que tardia. Censura à imprensa por parte do governo. Censura à imprensa por parte do tráfico -ou da milícia. Relembar casos do jornalista Tim Lopes, da equipe de reportagem do jornal " O Dia" e do bravo fotógrafo André Az, por exemplo.
(...)

Mas não.
Hoje quero falar do meu pai. Não do jornalista Tim Lopes. Mas do pai Tim Lopes.
Alguém mais sente essa falta? Não. Ninguém. A saudade é imensa e, há sete anos, todo mês de junho é assim. A temperatura é mais amena, mas o frio é sempre maior. O silêncio do outono fala mais alto. Lembro da minha infância, correndo pela redação do Jornal do Brasil, de O Dia.

Dos almoços de domingo, dos jogos do Vasco no Maracanã, ainda quando começavam às cinco da tarde.

"Olha, vai de calça, senão não dá pra entrar na tribuna de honra do Maraca" ou" aquele ali é Touguinhó, puta jornalista" ou ainda "Ih, o Aydano tá ali...Foge, foge, porque ele é flamenguista". O convite "Quer entrar em campo? Niltinho vai te colocar na boa, cola com ele, vai, vai" e a ideia sugestiva:
"Vamos de ônibus, porque se formos de táxi, não vai rolar grana pro lanche no intervalo do jogo". E íamos, pai e filho, em direção ao Maracanã, eu de boné ecalça num calor de fevereiro: "Se você vai de boné, mermão, não pode sentar najanela. Vai dar mole? Nego do lado de fora leva logo na mão grande. Fica esperto" - advertia ele, temendo pela minha falta de malandragem, coisa de quem foi criado nesse feudo social chamado Zona Sul.

Lembro dos almoços em botequins, cafés da manhã em padarias, da praia no Posto 8, da festa junina da Mangueira, do sítio de Saracuruna, "da nova amiga do papai", dos passeios pelo calçadão, das viagens, da mesada, das matérias que vi nascer em mesas de bar - e depois estampadas na primeira página dos jornais.

Outras que abriam o Jornal Nacional, ou ainda, as reportagens "do boa noite do JN. Vê lá, filhote, creditozinho do teu pai." E eu via, porque não sabia ainda que vaidade e orgulho eram coisas diferentes.
O jornalista Tim Lopes era o meu pai? Não. O meu pai era o jornalista Tim Lopes. Como filho e também jornalista, não é fácil separar uma coisa da outra. Não que devamos desvencilhá-los, mas acho que sinto mais falta de um do que de outro.

Não convivi com o jornalista Tim Lopes nas redações. Ouço as histórias, imagino os detalhes, como teria sido, como ele teria reagido em determinada situação, como conseguiu aquela entrevista. É como se percorresse um caminho de volta ao passado, sem nunca tê-lo vivido, mas que é trilhado pela saudade dos amigos epela memória das matérias.

Ler reportagens antigas, ou ainda ouvir "você é filho do Tim? Ô rapaz, teu pai certa vez...", me fazem ficar mais perto dele,do jornalista. Nunca vou saber como seria, mas posso ter uma ideia de como foi. Mas não em relação ao pai. Essa é a saudade que dilacera o homem.Todo dia o meu pai morre, porque acordo com ele vivo. Ouço suas palavras, me divirto com suas gargalhadas, me assusto com suas broncas em voz baixa, suas risadas desordenadas, seu olhar de criança. Mas no final do dia, acabo lembrando que ele não está mais aqui. Que não volta mais. Que nunca mais meu pai vai me dar um pito ou um abraço apertado, ou vai dizer: "meu filho, que orgulho! você agora é jornalista".

O que dá coragem de seguir em frente, é que todo dia meu pai, depois de morrer nasce mais forte, dentro de mim. E começo a entender: nunca me deixou. Sinto sua presença mesmo sem saber quando nem onde. Não saber, mas sentir. O amor de pai e filho não cabe em palavras nem lágrimas. Elas são apenas atalhosda saudade. O amor de filho aumenta a cada dia. E todo mês de junho, entre o diade morte de meu pai e o dia do meu nascimento, separados por dez dias, me sintomais próximo dele.
Não porque vou ficando mais velho, mas porque vou me tornando mais homem, açoitado pela crueldade da morte, mas fortalecido pelo sofrimento da vida. A primeira vez que andei sozinho na rua devia ter uns sete anos. Desci do antigo apartamento de meu pai, na Rua Jangadeiros, e fui à lanchonete da esquinacomprar caldo de cana e pastel de queijo. Tudo era aventura: até apertar o botão do elevador. Atravessei a rua, estiquei a mão com o dinheiro e fiz o pedido. Lembro que comi em pé, só, olhando do balcão para a janela onde meu paime fitava cuidadoso, mas desviava o olhar de quando em quando, para que eutivesse a ligeira sensação de que estava sozinho no mundo. Aí, quando o flagrava me olhando de volta, ele acenava discretamente, esticando o polegar damão direita e arriscava um assovio malandro, que só eu reconheceria.

Ele sorria, sei porque enxergava seus dentes de longe. Talvez porque estivesse sorrindo como coração. Estávamos felizes. E depois de limpar a boca com as costas da mão, me dirigi de volta pra casa, cheio de pose, aos sete anos, pensando: a rua é umpalco onde tudo acontece. Mal sabia eu que já era jornalista naquele tempo.
Hoje sinto que estou andando pela primeira vez não na rua, mas na vida. E meu pai me olha de outro lugar e não da janela do apartamento.
Ainda ouço o assovio malandro, lembrando feliz daquele tempo.

Esse Tim Lopes não morreu. E toda vez que volto pra casa, fecho os olhos, e consigo vê-lo esticando o polegar, sorriso malandro e penso: o coração é um palco onde tudo acontece.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

ESTÁVAMOS TODOS NO VÔO DA AIR FRANCE

Por Luis Turiba

Stop! A vida parou ou foi o avião.

É assim. Quando cai um avião a vida pára. Avião não foi feito pra cair. Nenhum avião, especialmente um Airbus da Air France, com 228 pessoas a bordo, entre as quais sete crianças e um bebê. Todos nós que viajamos de avião, estamos atordoados no dia de hoje, pois de uma maneira ou de outra estávamos também naquele vôo que desapareceu num mar revolto, depois de terríveis momentos de turbulência, no meio do oceano Atlântico, entre o Brasil e a África.

Acordar com uma notícia assim é duro, rasga o nosso peito. Faz a gente pensar na fragilidade da vida, em coisas do passado, num futuro que talvez não venha, seja interrompido.

Por exemplo: viajar na primeira classe de um vôo da Air France entre o Rio e Paris aconteceu comigo. Não me perguntem como, pois até hoje não sei. Na época, era assessor de imprensa do ministro Gilberto Gil no MinC e ia para a abertura do ano do Brasil na França, em março de 2005.
Estava acompanhado do cineasta André Luís Oliveira, que iria documentar com sua lente mágica a exposição de abertura do grande evento, com milhares de peças ancestrais dos índios brasileiros no Grand Palais.

Pra variar, chegamos no guichê esbaforidos com um atraso de um vôo entre Brasília e Rio. Despachamos, pegamos o ticket e zarpamos para o avião, um super Jumbo que flutua no ar. Ao entrarmos, a aeromoça nos indiciou a escada para subirmos ao segundo andar. “S'il vous plaît, Messieurs...” disse ela com aquele cantado parisiense.

Não dava pra acreditar, mas era verdade. Uma ordem divina, quem sabe vinda do Itamaraty, nos colocou no paraíso. Bem na frente do segundo andar, vendo o vôo de frente. Uma poltrona que virava cama, mesa e quem sabe até banho. Computador e TV com 40 canais a nossa disposição. Champagne! du champagne, oui Madame, merci Madame, bonne nuit Madame, merci!

Como posso esquecer do sopro daquela aeromoça francesa, bem baixinho, no meu ouvido esquerdo, perguntando se queríamos jantar. Aquilo não era uma consulta – era uma canção. La Vie en Rose.

É bem verdade que quando chegamos no Charles De Gaulle, minha mala não havia embarcado. Mas foi o de menos. Malas desaparecem (e aparecem) em qualquer aeroporto do mundo. E tudo vale a pena se a alma não é pequena, principalmente porque na chegada, Paris toda coberta com um manto de nuvem clara, só deixando do lado do fora a ponta da Tour Eiffel brilhante sob aquele sol do começo da primavera. Que visão privilegiada, olhar de sonho.

Mas agora me ponho a pensar: podíamos não ter chegado. Podíamos ter ficado pelo meio do caminho, no meio do oceano Atlântico, entre Fernando de Noronha e a Ilha do Sal, em Cabo Verde. Aí, tantas coisas teríamos deixado de viver.

E é isso que agora está acontecendo. É esse o karma coletivo que temos de enfrentar. A angústia da notícia, o desespero da confirmação, a saudade dos que não chegaram a Paris, o pânico dos que embarcaram seus entes queridos, laços que reforçarão para sempre a amizade, já eterna, entre os povos brasileiro e francês, amores interrompidos, futuro desperdiçados, explicações não cabíveis.

Oh mar, misterioso mar, responda-nos por favor: onde estará o avião que estava no ar?

sábado, 16 de maio de 2009

MORRE GUTA CARNEIRO, OUVIDORA DA PETROBRÁS

MARCIA DE ALMEIDA FALA SOBRE CIDADANIA, LUTA CONTRA A HOMOFOBIA E DÁ PAU NO GOVERNO LULA

Editora do www.emdiacomacidadania.com.br

O começo desta semana deu a impressão de que o mundo está, realmente, se acabando, com a nótícia estarrecedora de que, um bebê de três meses teve os olhos e a boca grudados com cola e foi abandonado ao pé de uma árvore em uma favela em Maceió (AL).

Uma adolescente de 14 anos, ex-namorada do pai do bebê, foi presa como autora ( ou “apreendida”como parece que se tem que dizer) . O que pensar de uma raça que chega a este ponto, dane-se a idade de quem praticou a barbaridade. Que paísé este, e que país será este, em que uma adolescente de 14 anos cola olhos e boca de um bebê, para se vingar do pai da criança?

Na 4ª feira, mais uma vez, o PL 122/06, que criminaliza a homofobia, caiu com a pauta inteira, porque havia sessão plenária e, em dia que tem sessão plenária, as comissões não se reúnem, claro.

Ocorre que acabo de saber que, ao invés de voltar a pauta como deveria ser, o PL 122 vai ter mais uma audiência pública para, depois, andar de novo uma trilha para voltar à pauta, pela enésima vez. Na segunda-feira vou saber direitinho como é isso e o que vai rolar, através do gabinete da relatora do PL, senadora Fátima Cleide (PT/RO) mais do que a favor da aprovação da lei.

É por falta dela que desembargadores acham que podem fazer súmulas inconstitucionais como a que denunciei aqui, semana passada, dando o “direito”dos heterossexuais discriminarem os homossexuais. E que imbecis persigam os outros apenas por serem diferentes de si próprios.

Além disso, o desembargador diz que esta manifestação homofóbica é liberdade de expressão. Vendo por esta janela, qualquer um então pode ter a liberdade de expressão achar que negro não é gente, que judeu fede, que muçulmano é asqueroso, etc, e expressar isso, abrindo e reabrindo a ferida da discriminação.

Pena que isto (a não votação do PL) tenha ocorrido justamente na Semana do Dia Mundial de Combate à Homofobia, que é domingo, e na newsletter e no site tem toda programação.

Nesta mesma semana, no Rio Grande do Sul ele sempre à frente de todos os estados da Federação, nessas coisas), um casal lésbico catarinense conseguiu o direito de registrar no nome das duas os gêmeos gerados por inseminação artificial por uma delas, ao contrário do que ocorreu em São Paulo, quando o direito de uma outra dupla homossexual, na mesma situação, foi negada.

Mas, no Rio, a partir de ontem as delegacias têm que registrar os Bos assinalando que o crime é de homofobia, quando for o caso. Sérgio Cabral faz um monte de eme, mas neste aspecto dos direitos LGBT vem mantendo tudo o que prometeu na campanha, e muito mais.

E dia 17, amanhã, Dia Mundial de Combate à Homofobia, na Praia de Ipanema, esquina da Vinícius de Moares, haverá uma manifestaçàl LGBT, na qual 3 mil flores ( talvez girassóis) formarão a bandeira do Brasil, número de homossexuais mortos nos últimos anos no Brasil.

A Petrobras entrou em palpos de aranha, com a descoberta de uma cambalhota para não pagar 4 bilhões de imposto.

E o governo manda para o Congresso uma mexida nas cadernetas de poupança, para salvar os fundos de investimento, na verdade, o que é uma grande sacanagem. Se o cidadão ou a cidadã estiverem poupando há mais de 20 anos, dependendo, poderão sim, ter mais de 50 mil reais. Não é correto que o que exceda este montante seja taxado, se a poupança chegou a xis mil reais depois de anos e anos.

Nem acho a taxação a ser aplicada absurda, acho o princípio dela inadequado. Ah, mas só 1% dos poupadores têm mais de 50 mil, alega o governo. Depende de quanto tempo a pessoa demorou para chegar ali, repito. Especulador mesmo, não joga dinheiro num rendimento fixo de 0,5% ao mês mais TR. Isso é conversa pra enganar trouxa. Tudo se deu para poderem arrumar novos juros, mais apetitosos, para os fundos de investimento, dando um créu nos poupadores da caderneta.

Vamos combinar que 50 mil reais são o preço de um carro.

Espero que o Congresso tenha vergonha ( um restinho que seja) e breque o projeto do governo - que já avisou que vai estender, através de MP, a mudança que fez nos juros destes fundos.

Como eles não podem deixar de aprontar uma semana sequer, a Câmara com votações simbólicas e sessões vazias, criou 1445 cargos na Justiça do Trabalho e no Ministério Público. Os projetos vão para o Senado. Se aprovados, serão mais 129, 3 milhões de reais. Do meu, do seu, do nosso dinheirinho, claro.

Mas a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados salvou a cara dos deputados e aprovou quarta-feira, dia 12, em caráter conclusivo, projeto de lei que define a prática de tortura como ato de improbidade administrativa, quando praticada por agente público. O projeto altera a Lei da Improbidade Administrativa e estabelece que quem pratica a tortura comete esse tipo de crime. A matéria está no site.

E a semana acaba em imensa tristeza, com a morte de Guta Carneiro, no Rio, atual Ouvidora da Petrobras, mas uma guerreira da vida, trocada aos 22 anos pelo embaixador americano, exilada, batalhadora. Há 2 semans sofreu um acidente de carro, em Búzios, batalhou loucamente durante todo este tempo para ficar aqui, mas acabou derrotada por uma infecção sistêmica.

O velório será na capela 7 do Cemitério de São João Batista, das 9h às 15h de hoje. O corpo, porém, será cremado.

Quem batalhou contra a ditadura e continua na luta pela dignidade dos cidadãos, dirá scom um nó na garganta: Maria Augusta Carneiro Ribeiro: presente. Para sempre.

Perde o Brasil, perde a cidadania, perde o contingente enorme de mulheres corajosas.

Por isso, não tenho a menor idéia do que vai estar no CURTIR TABÉM É CIDADANIA de hoje. Mas espero vocês no www.emdiacomacidadania.com.br.

Bom fim-de-semana!

Marcia de Almeida
Editora
www.emdiacomacidadania.com.br