terça-feira, 2 de junho de 2009

CARTA DE BRUNO SOBRE O PAI TIM LOPES

A Sandra, mãe do filho de Tim Lopes, enviou a amigos carta do filho Bruno

Vale a pena parar e lê-la. É de uma beleza transcendente. Me emocionou e vai lhe emocionar também

Meu pai

Hoje eu poderia escrever mais uma vez sobre violência. Sobre tráfico de drogas e de armas. Também poderia discorrer aqui ideias ou pensamentos criticando a política de segurança do estado - ou a falta dela. Muros da discórdia. Ou falar de assassinatos e torturas. Crimes e mortes. Falar sobre impunidade, redução de pena, progressão de regime, guerra de tribunais e tribunais de guerra.

Legitimação do estado democrático de direito ou sua proclamação, ainda que tardia. Censura à imprensa por parte do governo. Censura à imprensa por parte do tráfico -ou da milícia. Relembar casos do jornalista Tim Lopes, da equipe de reportagem do jornal " O Dia" e do bravo fotógrafo André Az, por exemplo.
(...)

Mas não.
Hoje quero falar do meu pai. Não do jornalista Tim Lopes. Mas do pai Tim Lopes.
Alguém mais sente essa falta? Não. Ninguém. A saudade é imensa e, há sete anos, todo mês de junho é assim. A temperatura é mais amena, mas o frio é sempre maior. O silêncio do outono fala mais alto. Lembro da minha infância, correndo pela redação do Jornal do Brasil, de O Dia.

Dos almoços de domingo, dos jogos do Vasco no Maracanã, ainda quando começavam às cinco da tarde.

"Olha, vai de calça, senão não dá pra entrar na tribuna de honra do Maraca" ou" aquele ali é Touguinhó, puta jornalista" ou ainda "Ih, o Aydano tá ali...Foge, foge, porque ele é flamenguista". O convite "Quer entrar em campo? Niltinho vai te colocar na boa, cola com ele, vai, vai" e a ideia sugestiva:
"Vamos de ônibus, porque se formos de táxi, não vai rolar grana pro lanche no intervalo do jogo". E íamos, pai e filho, em direção ao Maracanã, eu de boné ecalça num calor de fevereiro: "Se você vai de boné, mermão, não pode sentar najanela. Vai dar mole? Nego do lado de fora leva logo na mão grande. Fica esperto" - advertia ele, temendo pela minha falta de malandragem, coisa de quem foi criado nesse feudo social chamado Zona Sul.

Lembro dos almoços em botequins, cafés da manhã em padarias, da praia no Posto 8, da festa junina da Mangueira, do sítio de Saracuruna, "da nova amiga do papai", dos passeios pelo calçadão, das viagens, da mesada, das matérias que vi nascer em mesas de bar - e depois estampadas na primeira página dos jornais.

Outras que abriam o Jornal Nacional, ou ainda, as reportagens "do boa noite do JN. Vê lá, filhote, creditozinho do teu pai." E eu via, porque não sabia ainda que vaidade e orgulho eram coisas diferentes.
O jornalista Tim Lopes era o meu pai? Não. O meu pai era o jornalista Tim Lopes. Como filho e também jornalista, não é fácil separar uma coisa da outra. Não que devamos desvencilhá-los, mas acho que sinto mais falta de um do que de outro.

Não convivi com o jornalista Tim Lopes nas redações. Ouço as histórias, imagino os detalhes, como teria sido, como ele teria reagido em determinada situação, como conseguiu aquela entrevista. É como se percorresse um caminho de volta ao passado, sem nunca tê-lo vivido, mas que é trilhado pela saudade dos amigos epela memória das matérias.

Ler reportagens antigas, ou ainda ouvir "você é filho do Tim? Ô rapaz, teu pai certa vez...", me fazem ficar mais perto dele,do jornalista. Nunca vou saber como seria, mas posso ter uma ideia de como foi. Mas não em relação ao pai. Essa é a saudade que dilacera o homem.Todo dia o meu pai morre, porque acordo com ele vivo. Ouço suas palavras, me divirto com suas gargalhadas, me assusto com suas broncas em voz baixa, suas risadas desordenadas, seu olhar de criança. Mas no final do dia, acabo lembrando que ele não está mais aqui. Que não volta mais. Que nunca mais meu pai vai me dar um pito ou um abraço apertado, ou vai dizer: "meu filho, que orgulho! você agora é jornalista".

O que dá coragem de seguir em frente, é que todo dia meu pai, depois de morrer nasce mais forte, dentro de mim. E começo a entender: nunca me deixou. Sinto sua presença mesmo sem saber quando nem onde. Não saber, mas sentir. O amor de pai e filho não cabe em palavras nem lágrimas. Elas são apenas atalhosda saudade. O amor de filho aumenta a cada dia. E todo mês de junho, entre o diade morte de meu pai e o dia do meu nascimento, separados por dez dias, me sintomais próximo dele.
Não porque vou ficando mais velho, mas porque vou me tornando mais homem, açoitado pela crueldade da morte, mas fortalecido pelo sofrimento da vida. A primeira vez que andei sozinho na rua devia ter uns sete anos. Desci do antigo apartamento de meu pai, na Rua Jangadeiros, e fui à lanchonete da esquinacomprar caldo de cana e pastel de queijo. Tudo era aventura: até apertar o botão do elevador. Atravessei a rua, estiquei a mão com o dinheiro e fiz o pedido. Lembro que comi em pé, só, olhando do balcão para a janela onde meu paime fitava cuidadoso, mas desviava o olhar de quando em quando, para que eutivesse a ligeira sensação de que estava sozinho no mundo. Aí, quando o flagrava me olhando de volta, ele acenava discretamente, esticando o polegar damão direita e arriscava um assovio malandro, que só eu reconheceria.

Ele sorria, sei porque enxergava seus dentes de longe. Talvez porque estivesse sorrindo como coração. Estávamos felizes. E depois de limpar a boca com as costas da mão, me dirigi de volta pra casa, cheio de pose, aos sete anos, pensando: a rua é umpalco onde tudo acontece. Mal sabia eu que já era jornalista naquele tempo.
Hoje sinto que estou andando pela primeira vez não na rua, mas na vida. E meu pai me olha de outro lugar e não da janela do apartamento.
Ainda ouço o assovio malandro, lembrando feliz daquele tempo.

Esse Tim Lopes não morreu. E toda vez que volto pra casa, fecho os olhos, e consigo vê-lo esticando o polegar, sorriso malandro e penso: o coração é um palco onde tudo acontece.

Um comentário:

Melanie disse...

Lindo e emocionante; amor verdadeiro de um filho que carrega a alma do pai tornando-o tão maravilhoso quanto. Não te conheço, acho mesmo que nunca te vi, mas pra te admirar basta sentir.