domingo, 7 de junho de 2009

POLÊMICA CONTINUA NA IGREJINHA DE FÁTIMA


Galeno recebe moradoras e diz que não está profanando nem desrespeitando a igreja católica

Luis Turiba

O artista plástico Francisco Galeno, que esta semana termina de pintar o terceiro painel interno da igrejinha Nossa Senhora de Fátima, na 307-308 Sul, recebeu na ultima sexta-feira (5 de junho) uma comitiva de moradores das quadras que estão em torno da primeira obra a ser inaugurada em Brasília, em 1958.

“As senhoras vieram me dizer que minhas pinturas eram coisas de criança e impróprias a um templo religioso. Eu disse que elas estavam certas, que os painéis são realmente uma homenagem as crianças que foram as únicas que viram Nossa Senhora de Fátima, e que por causa disso eu não estava desrespeitando nem profanando a igreja católica”, explicou Galeno.

A polêmica na igrejinha Nossa Senhora de Fátima é antiga – mais velha até que Brasília. O templo foi construído pelo arquiteto comunista Oscar Niemeyer, tinha painéis de Volpi internamente e tem azulejos de Athos Bulcão do lado de fora. As pinturas de Volpi nunca agradaram aos católicos tradicionais. Não se sabe como, eles conseguiram com a permissão dos padres, pintar por cima esses painéis. Várias tentativas foram feitas, mas os originais não foram recuperados.
Há um ano, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) contratou Galeno para refazer os painéis. Ele, então, passou a ser agredido verbalmente com insultos e provocações.

5 comentários:

luis turiba disse...

Maria Elisa Costa, arquiteta, escreveu:

"Turiba,
Semana passada quando estive em Brasília fui ver os painéis da igrejinha. Por que? Porque minha cunhada, Teresa Rollemberg (mãe de Teresa Cristina Rollemberg, também chamada de Teresão, que você bem conhece) queria saber o que eu achava, e se perguntava o por quê dos novos painéis - para ela, frequentadora diária da igrejinha desde os anos 60, aquele lugar pedia tudo menos novidades. Entendi muito bem: numa cidade tão nova quanto Brasília, as coisas que conseguiram tornar-se tradicionais, pedem mais é para serem mantidas como de origem ... Os painéis em si são simpáticos, alegres, seu autor é talentoso. Mas na minha cabeça o correto seria restaurar os originais do Volpi, e fazer novos em outra capela.
Não consigo ver o problema como uma questão de serem ou não adequados à capela como construção - para mim a pergunta é outra: por que não deixar a Igrejinha com seu jeitinho quieto e discreto, e aceitar a tradição...

Rogério Carvalho disse...

Prezada Maria Elisa,

Como é bom ler palavras de pessoa tão relacionada à Brasília! Por isso mesmo, entendo que essas palavras deveriam, antes de tudo, buscar informações sobre o que na verdade acontece antes de serem proferidas com o peso que sabes que sua manifestação tem. Gostaria de lhe informar que a restauração dos painéis de Volpi, com a tecnologia atual e acredito eterna é impossível. Não existe forma definida abaixo das camadas de tinta que cobrem a obra, existem sim resquícios de cor, muito esmaecidos e que não permitiriam uma nova integração cromática. Volpi nos deixou esboços e infelizmente, os registros que existem são em preto e branco.Foram feitas prospecções na década de 90, na totalidade das 3 paredes, e nada foi encontrado,existem registros fotográficos dessa prospecção.Durante algum tempo inclusive as paredes permaneceram prospectadas, mas a comunidade não quis mantê-las daquela maneira, entendiam a igreja em obra e não finalizada. O que está sendo restaurado na igrejinha não é o painel de Volpi, é a ambiência que o artista quis promover, foi o que sobrou daquela obra. Ora, bem sabes como arquiteta, que um espaço pequeno, revestido com as suas três paredes internas de azul escuro, é um espaço que promove introspecção, é um espaço reduzido por intenção, e é esta intenção que está sendo respeitada com a inserção de Galeno na Igrejinha. Na definição do projeto, tinha duas possibilidades, fazer um "quase" Volpi, porque nunca conseguiríamos o ritmo das pinceladas e o cromatismo exato além das formas, ou estaríamos agregando valor artístico novamente à igreja, por isso, a escolha é óbvia. Deixar as paredes brancas promoveria o que lá já existia, uma balbúrdia litúrgica com objetos localizados aonde o próprio vaticano desaconselha, e ainda, inserção de flores de plástico e bancos roxos, o que fazia com que a igreja fosse uma por fora e outra por dentro. Desapareceram com o altar, os tocheiros, mudaram o desenho dos bancos, todos de autoria de Athos.Ora, o que é o restauro se não a promoção de unidade ao objeto. Antes de propor qualquer intervenção tive o cuidado de estar na igreja por diversas vezes, e fiquei realmente impressionado com a atitude dos turistas que vinham visitar a igrejinha - quase que em sua totalidade, desciam do ônibus extasiados com a qualidade da arquitetura, porém, quando se aproximavam de seu interior faziam uma careta! E o porquê disso? Porque o que estava fora não conversava com o que estava dentro! Não existia unidade!O jeitinho quieto e discreto que narras era na verdade um jeitinho cafona e conturbado de algumas pessoas trazerem para a capital do país, para um símbolo modernista internacional, os signos que estavam acostumadas em igrejas do interior e que definitivamente não condizem com a qualidade arquitetônica, paisagística e artística que Niemeyer, Burle, Athos e Volpi produziram ali. Por favor, entenda essas palavras com o respeito que tenho por sua trajetória e pelo o que seu pai significa para nós!Acredito que depois desta explicação irá concordar com o Galeno na igrejinha. Saiba que tudo que foi produzido por ele ali está embasado em critérios de restauro bastante criteriosos e que a produção daquele painel foi definida da seguinte maneira:
Deveria utilizar o mesmo tom de azul que o Volpi utilizou; obrigatoriamente deveria ter uma Nossa Senhora de Fátima representada no painel frontal, tendo elementos laterais à santa que produzissem reforço da centralidade e que em seus dois outros painéis fossem definidos elementos que se relacionassem à história da aparição da santa e que ocupassem o espaço cênico da mesma maneira que os elementos de Volpi.

Grande abraço,

Rogério Carvalho
Arquiteto e autor do projeto de restauro da Igrejinha de Fátima.

Mariângela disse...

Realmente a "Igrejinha pertence a todos os brasileiros.Ela é parte de um todo. Ela é maior do que a população que a circunda..." Se isso é uma verdade, então por que será que os brasileiros não participaram efetivamente da escolha do artista? E de qual obra gostariam de ver na Igrejinha? Que democracia é essa? Quem decidiu que seria esse o artista? Como foi feita essa escolha? Mas se a Igrejinha pertence a todos os brasileiros, por que essa crítica preconceituosa com as senhoras da comunidade chamando-as de 'carolas'? Carolas não tem opinião? Não podem se expressar? É isso que eu li? Se a opinião da comunidade que realmente frequenta a Igrejinha não pode ser externada, por que deveríamos ouvir e aceitar a opinião do IPHAN, dos arquitetos e dos 'críticos de arte'? Por que uma opinião tem mais valor que a outra? Não são todos brasileiros? Quer dizer que as 'carolas' não tem gosto? Ou que o gosto do povo é antiestético? Ainda bem que o Ministério Público entende que as 'carolas' são brasileiras e têm o direito de se expressar e lutar por aquilo que acreditam, da mesma forma que você, um poeta, um jornalista que certamente encontra muitas pessoas que gostam ou desgostam daquilo que você escreve e faz! Deixe a democracia avançar e fluir nesse País tão carente disso! Você, como Jornalista, está sendo contraditório e da maneira mais preconceituosa que não combinam com suas poesias e sonhos! Menos adjetivos e mais lógica, Turíbio!

Vania Cecília disse...

Que todos sejam felizes!!!

Muito grata Galeno por esta obra tão sensível, delicada, gentil, feliz e introspectora. Muito grata ao Arquiteto Rogério Carvalho. Vocês foram guiados pela santas mãos de N. Sra. de Fátima. A poesia desta nossa Sra. de Fátima é abundante e generosa. Um sonho. Um despertar. Precisamos agora descer de nossos pedestais e humildemente olharmos para a N. Sra. de Fátima e percebermos a nossa criança, e com ela, em nosso imaginário, glorificarmos nossas vidas aos seus pés e erguermos mais firmes, fortes, confiantes e determinados a sermos felizes como jamais ousamos Ser.

Tenham um lindo dia,

VJ.

Célia Porto disse...

Olá, querido Turiba. Eu gosto muito do trabalho do Galeno e inclusive tenho trabalhos dele no quarto do meu filho, que por sinal adora as gravuras, com pipas, bandeirinhas e até uma igrejinha que segue esta linguagem que Galeno trabalha muito bem - resgate da infância - Percebo que s pessoas qu se sentem agredidas com sua pintura (Igrejinha de Fátima)não compreendem este regate, derrepente poderíamos ajudar o Galeno de alguma forma mais direta, para sua obra ser entendida. Porque de fato, a Igrejinha vai atrair bem o olhar das crianças. Meu filho adora. Puxa como é difícil se fazer entender.