sexta-feira, 19 de junho de 2009

Igrejinha: Arte, Ética, Poder e Fé

Mariangela Oliveira,

Psicopedagoga


Até que ponto a expressão do artista é livre? Existe uma ética para essa expressão?

Ouvi falar dos painéis que o artista Galeno está pintando na Igrejinha, na 307/308 Sul,em Brasília/DF, mas ainda não tinha visto a obra que vem trazendo tanta polêmica. Ontem, 17/06, vi pela televisão parte dela e comecei a procurar entender o motivo pelo qual os frequentadores diários da Igrejinha estão rejeitando essa obra.

Galeno é muito criativo e sua arte mostra isso. A pintura que está fazendo na Igrejinha vem da alma, das suas vivências, da sua história e do modo como vê e sente a vida! A rejeição dos católicos vem da alma, das suas vivências, das suas histórias e do modo como veem e sentem a vida! Galeno está certo sob seu ponto de vista e tem o direito de se expressar, assim como as pessoas da comunidade tem o direito de dizer o que acham da obra e de não quererem que ela fique exposta numa Igreja Católica. Os mesmos sentimentos e direitos fluem como se convergentes fossem!

A arte é viva e convivemos com ela em todos os espaços, mas será que uma Igreja Católica é um espaço aberto à livre expressão artística? Será que igrejas de outros credos abririam seus espaços para essa expressão livre, que não foi sequer dialogada? Será que a própria Igreja Católica abriu esse espaço?

Ao transitar em espaços religiosos o artista precisaria, antes de tudo, dialogar consigo para identificar em sua alma algo além de si mesmo. Se Galeno é capaz de tamanha criatividade, trazendo uma releitura, uma alegoria da aparição de Nossa Senhora de Fátima, ele também deve ser capaz de dialogar e tentar entender o que a comunidade da Igrejinha diz.

O espaço da Igrejinha não é uma tela pessoal, não é uma galeria de arte, não é o hall de um hotel, de um prédio para receber toda e qualquer obra de arte. É um espaço religioso! E como tal, requer um olhar diferenciado, um senso estético e principalmente ético por parte de todos os envolvidos! Como espaço religioso, a Igrejinha se sustenta pela presença e atuação das pessoas que diariamente e ao longo dos anos vêm cuidando e fazendo dela seu Templo de encontro com Deus. Igreja se faz com pessoas, sem elas, qualquer Igreja se transforma apenas em um ponto turístico.

A Igreja Católica sustenta por séculos algumas tradições em sua expressão que são intrínsecas dela mesma e que devem e podem ser respeitadas. Uma dessas tradições está fincada na própria maneira como a história nos é contada sobre o aparecimento de Nossa Senhora de Fátima as três crianças. Da mesma maneira que Cristo nos é apresentado pregado e sangrando em uma cruz, que diversos santos são mostrados matando dragões, amarrados e flechados, a Igreja sustenta em seus anais a história literal da aparição em Fátima. Isso é uma práxis e como tal deve ser respeitada literalmente dentro do seu próprio espaço religioso.

Ao artista é livre sua expressão em qualquer lugar que não seja o espaço dentro da própria Igreja. Usá-lo para expressar algo pessoal sem a anuência dialogada com a comunidade, sem traduzir o sentimento comum, é falta de respeito com as crenças e fé do outro, portanto, é total falta de ética!

As pessoas que frequentam a Igrejinha diariamente desejam ter um espaço religioso que traga e expresse a história de Nossa Senhora de Fátima como ela foi e é contada, e não como o artista a vê. Se ela está expressa de maneira alegórica, e não é capaz de fazer o elo entre o humano e o divino, ela perde sua finalidade dentro do Templo. Para se alcançar essa ligação nem é preciso uma obra de arte, basta uma vela acesa, porque o seu significado mítico vai além dela mesma. Não é o caso de sua arte. Invés de religar, elevar, ela interrompe, desvia, não sai do plano terreno. A Arte feita com fins específicos para lugares pré-determinados tem de ter, necessariamente, uma finalidade: sua obra não comunica nesse ambiente! O artista está certo em pintar o que lhe vem da alma, mas não está sendo ético ao ultrapassar os limites alheios.

Brasília está tombada pelo Patrimônio Cultural da Humanidade, assim como a Igrejinha, mas isso não dá o direito do IPHAN de decidir por esse ou qualquer outro artista para que ele expresse a seu bel prazer algo pessoal que foge àquilo que a própria Igreja Católica sustenta a séculos. São séculos de história que se deseja modificar com um painel pessoal do seu autor. O dever do órgão está circunscrito a não deixar que o prédio se deteriore pelo tempo e desgaste natural, e não, pela imposição de artes e artistas, sem o devido diálogo com a comunidade que dá sustentabilidade à existência religiosa da Igrejinha de Fátima. A atitude do IPHAN, sustentado pelos impostos do contribuinte, também carece de um olhar do Ministério Público, porque o órgão está se desviando da sua verdadeira função. Algumas questões ficam no ar quando se envolve a parte legal: é uma doação? É um serviço contratado?  Quanto custou? Quem pagou? Se foi pago com dinheiro público, como foi o processo licitatório? Como se processou a escolha?

O papel de qualquer obra de arte é convergir e não causar a dispersão. Igrejas como a Catedral, o Santuário Dom Bosco e outras, sustentadas exclusivamente pela comunidade, já vêm passando por uma séria crise de afastamento dos fiéis, em razão, também, da falta de condições de se chegar até elas em função do crescimento da cidade, do congestionamento, da falta de estacionamento e agora, para agravar ainda mais a situação, se veem na perspectiva de terem seus espaços ocupados por cenas que não traduzem de forma alguma o sentimento de uma comunidade que deseja exercer seu direito de professar sua fé dentro dos padrões dogmáticos e próprios da Igreja Católica. O tombamento não significa que aquele espaço passou a ser uma galeria ou um prédio turístico! Não significa também que a Igreja tenha de abrir mão da sua história, dos seus dogmas, dos seus ritos, das suas regras.

Galeno, faça uma pintura que torne o lugar mais leve, aconchegante, um espaço de oração. Não queira que sua arte, sua pintura se transforme em algo que traga ressentimentos, amargura, tristeza! Pinte para lhe satisfazer, mas também para trazer coisas boas, para acrescentar. Se você deseja que os outros respeitem e entenda o seu trabalho, você deve primeiramente respeitar e entender que aquele espaço é, antes de tudo, dos fiéis que frequentam e dão sustentabilidade à Igrejinha dentro dos seculares padrões católicos. Você tem seu valor e está sendo premiado por ter esse espaço valoroso para se expressar. Pense, analise e tente reverter esse processo. Não desperdice isso!

Basta ir além do que sua alma diz. Interprete a alma do outro! Você pode!


 

 

 

 

 


8 comentários:

Rogério Carvalho disse...

Prezada Mariangela,

Você acompanhou o processo desde o começo? Ou simplesmente palpita sem ter historiado o porque do resultado?
Imagino pelas suas palavras, que pensas que sabe o que aconteceu e vem acontecendo,porém, informo que estás equivocada.
A comunidade não pode ser entendida como as 300 pessoas indignadas com a obra,e sim, como a população brasileira. É por isso querida, que meia dúzia não podem falar pelo Brasil.A Capela foi tombada em nível federal, porque seu autor em arquitetura assim solicitou em 2007 ao Ministro Gil. Foi reconhecida então como patrimônio nacional, por isso, aqueles que são evangélicos, presbiterianos, umbandistas e até mesmo ateus são tão "donos" daquele espaço quanto os 300 que não gostam. É simples não é? Se quiser modificar isso, sugiro que tente mudar o Decreto Lei 25/37. Não bastasse isso, informo que foram feitas reuniões com a comunidade durante 1 ano e meio. Esta comunidade modificou a imagem da santa duas vezes, e o resultado final você deve ter visto. Apenas visto - não compreendido! É importante frisar o papel dos multiplicadores da informação nessa história toda. Essas reuniões foram realizadas obviamente com representantes da comunidade. Com o padre,e com as pessoas que conformam a estrutura daquela paróquia. Se eles não informaram à população, cobre deles, mas não diga que a comunidade não foi ouvida. Tenho certeza absoluta que foi o processo de restauração mais democrático que essa cidade já viu. Sabe quantas reuniões tive depois das 20:30 h com várias pessoas dentro da própria igreja? MUITAS! Pense menos com sua cabeça, cheia de informações mal elaboradas pelos outros e recheada de preconceitos católicos e sinta! Permita-se à emoção, relacione-se com a cor, pense porque Volpi pintou aquelas paredes da mesma cor...o que ele quiz dizer...fico imaginando como seria bom se pessoas soubessem mais que a raiz quadrada de 789! Soubessem se relacionar com o mundo e com as diferenças! O dia que uma igreja evangélica for tão importante culturalmente quanto aquela capelinha, será tombada, e passará pelo mesmo processo...Sinta-se privilegiada de ter acesso à obra de um artista de primeira linha no cenário nacional. E veja a pipa como um brinquedo....um brinquedo nas mãos de Lúcia, Francisco e Jacinta! Um brinquedo que nas mãos de crianças em todo Brasil, se aproxima do céu...mas isso é somente para aqueles que sabem ver!
Ah! E não poderia deixar de registrar aqui o verdadeiro sentido da religião... Hoje escutei uma notícia no rádio qe me lembrou o quanto pequeno e mesquinho sou! Um, em cada seis seres humanos, sente fome no mundo...para refletir o que é importante para DEUS!

Rogério Carvalho
Arquiteto e autor do projeto de restauro da Igrejinha de Fátima

Mariângela disse...

Senhor Rogério Carvalho
Você realmente não entendeu nada do que eu escrevi. Uma pena! Eu não palpitei nada além do que a minha consciência permite ou de meu conhecimento, ou você não entende o significado de pontos de interrogação? Não coloque em minha boca coisas que não falei! Pontos de Interrogação não são afirmações. São Perguntas. E perguntas são questionamentos provenientes daquilo que a gente ainda não sabe! Quando você diz: “É por isso querida, que meia dúzia não podem falar pelo Brasil”, fico estarrecida porque assim você está querendo tirar o meu direito, como cidadã, de falar e expressar minhas opiniões, do mesmo modo que você e muitos outros fizeram aqui mesmo neste Blog. Não entendi porque você está tão irritado com uma opinião contrária a sua! Calma! Não estou falando de ‘quantidade’ de pessoas que concordam ou não com a ‘obra de arte’. Mas se é esse seu argumento, vou utilizá-lo também para lhe dizer que acho até estranho você adotar o termo ‘falar pelo Brasil’ com um universo quantitativo tão pequeno. Realmente, não consigo entender esse pequeno universo como opinião do Brasil. Para se falar em ‘processo democrático’, ‘opinião do Brasil’ falta muito! Sou uma simples cidadã que pergunta. Não estou interessada em números, estou interessada em entender apenas isso: Por que a opinião de pessoas que apóiam tem de sobrepor à opinião dos que não apóiam? Por que uma opinião tem mais valor do que as outras? Não teria um meio termo que atendesse ambos os lados? Preste atenção: estou fazendo perguntas! Essas, você nem precisa responder. Só estou fazendo um esforço para você entender que quando você diz que ‘meia dúzia não podem falar pelo Brasil’, essa afirmação deve valer também para os que estão a favor! ‘Meia dúzia a favor também não podem falar pelo Brasil’. Agora você entendeu? A única coisa que você ainda tem de entender é que penso, e isso é um direito meu que você não pode tirar: a Igrejinha é 50% monumento tombado e 50% Igreja Católica. Simples assim: matemática pura! Raciocínio lógico puro! É óbvio! Ninguém vai lá somente para ver uma obra de arte e um monumento tombado por um decreto federal, antes disso, e ainda hoje, continuam e continuarão indo principalmente para professar a fé! São duas coisas, não é somente o lado artístico que está em jogo! Pense!

Mariângela disse...

Não substime a minha capacidade de raciocínio sem me conhecer: “Se quiser modificar isso, sugiro que tente mudar o Decreto Lei 25/37”. Para fazer uma afirmação desse tipo você realmente está aborrecido por eu ter opinião contrária a sua!!!! Por quê? Você diz que eu escrevi com ‘preconceito católico’? Novamente você não entende o que lê! Não se trata de preconceito o fato de eu achar que pinturas alegóricas não cabem em um Templo Religioso Católico! Eu apenas expressei um ‘conceito’ meu. Você é que interpretou como ‘preconceito’. Ou você acha que eu deveria chamar você de ‘preconceituoso’ porque não acha válida minha opinião diferente? Você diz também em seu texto que gostaria que as pessoas ‘soubessem se relacionar com o mundo e com as diferenças’. Mas é exatamente isso que estou fazendo, mostrando a minha opinião diferente. E você, está brabo, nervoso. Respeite a minha opinião diferente e de tantas outras pessoas que não concordam com aquela arte na Igreja. Eu não vou conseguir mudar nada. Essas pessoas não vão conseguir mudar nada. Apenas expressamos algo que pensamos e sentimos, da mesma maneira que você e tantos outros estão fazendo! Pensar, falar e externar opinião não estão garantidos em um decreto lei. Está em nossa Constituição Federal! Ou será que você sugere que eu a modifique também? É apenas o exercício de cidadania: expressar o que pensam. Quando você escreve: “Um brinquedo que nas mãos de crianças em todo Brasil, se aproxima do céu...mas isso é somente para aqueles que sabem ver!’ Eis uma diferença básica: eu vejo e sinto além disso, porque não penso apenas em decretos, poder, arte, projetos, reuniões, pois vejo também o outro lado da balança: penso na ética, no respeito às tradições católicas, nas pessoas que desejam um Templo harmonioso, aconchegante, espiritual. Gostaria que você entendesse que não estou fazendo julgamento de valor da arte de Galeno. Estou falando de espaços, respeitar os limites alheios! Apenas estou falando de uma ‘arte alegórica e pessoal ‘colocada em Templo Católico! Para encerrar volto ao seu texto: “Se eles não informaram à população, cobre deles, mas não diga que a comunidade não foi ouvida”. Primeiro, eu não afirmei isso. Eu perguntei, o que é muito diferente. Por falar em informação, que tal você responder a uma “meia dúzia e ao Brasil’ essas perguntas: é uma doação? É um serviço contratado? Quanto custou? Quem pagou? Se foi pago com dinheiro público, como foi o processo licitatório? Como se processou a escolha? Interessante o seu último parágrafo. Então pergunto: O que você fará de concreto com essa informação?

Mariângela disse...

Você está dando valor demais às minhas palavras. Elas valem o menor grão de areia que se pode imaginar neste mundo incomensurável da Internet. Minha opinião representa apenas a menor fração que possa existir no universo. Daqui a algum tempo você rirá de toda essa polêmica. Em alguns dias a reinauguração acontecerá e a Igrejinha será ovacionada como o grande monumento da arquitetura moderna e a arte pintada em seu interior como representante inefutável da arte contemporânea. Você estará na festa, verá e sentirá toda essa grandeza porque você é parte essencial dessa história. Na festa, muitos aplaudirão com a certeza de estarem fazendo o inquestionável, outros o farão envolvidos pelo momento vivenciado e muitos permanecerão calados. Os meios de comunicação da cidade aclamarão o evento e o feito. As outras mídias espalhadas pelo Brasil e o mundo repetirão as mesmas notícias. Sou uma pequena cidadã que desejou usar de seu direito constitucional para tentar mostrar o outro lado da balança, apenas isso. Sempre soube que minhas palavras não mudariam nada. É assim que o mundo funciona, sempre pendendo a balança para um lado só. O ser humano ainda tem um longo caminho pela frente até conseguir o equilíbrio e a harmonia entre dois pesos e duas medidas.

Rogério Carvalho disse...

Prezada,

Aguardo você na festa de inauguração da igreja e do novo painel.Quanto aos seus questionamentos pesquise e encontrará resposta para todos. O tempo que gastou em minha resposta é o mesmo que gastará para ter relsolvidas as suas perguntas.

turibapoeta disse...

Mariangela e Rogério,

muito bom o diálogo que vocês travaram via blog. penso que ele foi criado para isso: permitir polêmicas, debates, discussões em todos os níveis. Estive em Sampa por cinco dias e acompanhei de lá os apartes de vocês. Parab´nes e em breve estaremos todos, viu Mariangela, na inauguração dos paines do Galeno

abraços

Turiba

Mariângela disse...

Senhor Turiba e senhor Rogério Carvalho

Obrigada Turiba por essa oportunidade! Realmente acredito que seu blog cumpriu com seu objetivo. E não poderia ser diferente, pois você, ao longo dos anos, construiu uma carreira brilhante como jornalista e sempre defendeu a transparência e a objetividade. Creio que seria interessante você colocar aqui no blog as respostas às minhas indagações que também devem ser de muitos brasilienses sobre a parte legal desse projeto como: Quais os artistas que participaram da seleção? Quais os critérios para a escolha dessa obra? Foi uma doação? Quanto custou? Quem pagou essa conta? Se esse assunto está tão às claras como o senhor Rogério Carvalho informa, seria interessante colocar aqui, se você tiver acesso a essas informações, pelo menos os links e sites para que qualquer brasileiro possa se informar. Coloquei seu blog nos meus ‘favoritos’ e estarei sempre aqui exercendo o sagrado direito da liberdade de expressão e o faço com muita segurança porque o “tempo que eu gastei” para participar das discussões foi extremamente útil e de grande valia, pois pretendeu mostrar que a moeda sempre tem dois lados, que o fiel da nossa democracia ainda está enferrujado e continua pendendo sempre para um lado só! Agradeço também a participação do senhor Rogério Carvalho, pois todas as palavras dele confirmaram e concluíram de maneira inegável o que meu texto realmente quis dizer! Que todos os brasileiros ainda precisam lutar muito para que seja ouvido e respeitado nas suas diferenças! Obrigada, Mariângela Oliveira

Rogério Carvalho disse...

Mariangela,

Você vai estar lá no sábado, às 14 h vibrando conosco não é?
abraço,
Rogério Carvalho