terça-feira, 14 de setembro de 2010
POETAS HOMENAGEADOS NO CONIC
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
OI POEMA ADOTA ESCOLA EM ITAPOÃ
A POETA BRIC PRADO ADOTOU HOJE (13.09) A ESCOLA CLASSE DE ITAPOÃ COM UMA APRESENTAÇÃO POÉTICA PARA A CRIANÇADA.
POETAS DE BRASÍLIA CONTINUAM OCUPANDO ESCOLAS
O DF e seus contrastes surreais: quem pensaria que em pleno Lago Sul, bairro burguês de Brasília, uma congregação de apenas sete freiras vive e mantém, sem apoio financeiro sistemático oficial, uma entidade socioeducativa voltada à complementação da formação de filhas de empregadas domésticas que trabalham na região? Ao procurarem uma escola da periferia para adotar como voluntárias e saberem da existência do projeto do Instituto N.Sª da Piedade (INSP), as poetas Angélica Torres Lima e Cristiane Sobral não hesitaram: adotaram a instituição e lá irão se apresentar em recital, pela primeira vez, amanhã, às 15h, para as turmas de crianças da 3ª e da 4ª séries.
Partiu do grupo OiPoema essa inédita contraproposta ao Fundo de Arte e Cultura de atuação voluntária em prol de escolas de regiões carentes (ou de instituição carente em região abastada), pelo apoio à publicação de seus novos livros, a serem lançados no próximo dia 28.09, sob o selo da Coleção OiPoema. Cada um dos integrantes, Luís Turiba, Nicolas Behr, Amneres, Bic Prado, Cristiane Sobral e Angélica Torres Lima, adotou uma instituição para promoverem recitais, doação de livros, oficinas de poesia, com os alunos.
"Ficamos muito felizes de saber que o Instituto N.Sª da Piedade será presenteado com o projeto de poesia de vocês, que enriquece a Instituição e as crianças ao participarem do mesmo", reagiu a diretora ao saber da proposta. Irmã Conceição Oliveira quer, no entanto, a participação de todo o grupo no trabalho educativo do INSP, que mantém hoje 130 crianças, conta com o apoio assistemático de 20 voluntários e tem sido amparado por pessoas da comunidade do Lago Sul e filantropicamente pelo Movimento Maria Cláudia Pela Paz, por iniciativa da pedagoga Cristina Del'Isola.
Com a tragédia do assassinato da filha Maria Cláudia, Cristina Del'Isola sustentou-se nas ações beneficentes do Movimento, entre elas o apoio, via promoção de feiras, quermesses e brechós, em favor do belo Instituto, instalado há 48 anos na chácara 7 da QI 5 do Lago Sul, e mantido a duras penas pelas Irmãs Auxiliares N.Sª da Piedade. No final do ano passado iniciaram-se as obras de recuperação das instalações do Instituto e em maio foi inaugurada a biblioteca, que contou com doações de livros por parte de integrantes e simpatizantes do Movimento da família Del'Isola, entre eles, diversos escritores e artistas da cidade.
O recital poético da também atriz e professora Cristiane Sobral e da jornalista Angélica Torres Lima será realizado no espaço que recebeu o nome de Biblioteca Maria Cláudia, em homenagem à jovem de 22 anos, imolada pelo caseiro da família por manobra maquiavélica da empregada da casa. Cristina Del'Isola tem, portanto, forte motivo para apoiar a oferta de boa formação a filhas de domésticas pelo INSP, e o grupo OiPoema se dispõe a colaborar com a iniciativa.
domingo, 12 de setembro de 2010
FERNANDO PESSOA CAIU NO SAMBA
FERNANDO PESSOA E O OUTRO DO OUTRO
Um samba-enredo de Luis Turiba
Canta Breno Alves
Edição: Luis Turiba
DEUS QUER
O HOMEM SONHA
A OBRA NASCE
DEUS QUIS
QUE A TERRA FOSSE TODA UMA
SE A VIDA QUASE SEMPRE IMITA A ARTE
ME COUBE UM DESTINO TESTEMUNHA
VOU CONTAR PRA VOCÊS
ALGO QUE ME INVADE
QUANDO TENTO APREENDER
SE REVELA NENHUMA (BIS)
O OUTRO DO OUTRO NO OCO
DO ECO DO TORTO
QUE CARREGO JUNTO A MIM
É PORTO É FACTO É FARDO
É FADO É UM BRADO
COBERTO DE LAMA E DE CETIM
O SOL SAIU E MANDOU AVISAR
GENTE É PRA BRILHAR FOME PRA QUÊ
PASSEI A MINHA INFÂNCIA NO ALÉM MAR
BORDANDO INCERTEZA O MEU VIVER
FERNANDO PESSOA E SUA MENSAGEM
TORNOU A LUSA LINGUA NAVEGÁVEL
FINGIR-SE É CONHECER É SER O OUTRO
UM MAR DE VOZES EM UM SIMPLES PORTO
O POETA É FINGIDOR
FINGE TÃO COMPLETAMENTE
QUE CHEGA A MENTIR QUE É SAMBA
O FADO QUE NAS GENTES
POEMA PARA AS CRIANÇAS DO VERJÃO E DA GRANJA DO TORTO
Foram tardes inesquecíveis, essas com as crianças da Escola-parque da Granja do Torto e a do dia anterior, com as crianças da Escola-Parque do Varjão. Tardes de poesia, luz, troca, alegria. Fiz um poema para agradecer o que recebemos. Leiam e remeta-os àquelas escolas em sinal de nossa admiração e afeto.
Beijo amoroso,
Sobre se encantar
(para as crianças do ensino fundamental das escolas-parque do Varjão e da Granja do Torto)
Contos de fada,
histórias da carochinha,
lendas, mitos, fábulas,
absurdas fantasias,
tudo é matéria
prima da poesia,
penso e decido
deixar o verso
brincar de
esconde-esconde
com o papel
em branco da
imaginação.
Deixo aos adultos
dizerem não,
eu digo sim
à magia e ainda
tenho medo de
bruxa malvada
e de bicho-papão.
Tenho medo do
escuro das palavras,
prefiro iluminá-las
com príncipes, duendes,
elfos e fadas,
que me salvarão
a tempo dos ogros
do desalento
e da solidão.
O poema é uma
caixa de lápis-de-cor
recém chegada
às minhas mãos.
Gosto de desenhar
coqueiros, montanhas,
areias, céu azul,
e beira-mar,
e depois pintá-los,
um a um. Desenho
então um coração
vermelho e sinto-o
pulsar. Para fazer
um poema, é preciso
papel, lápis
e imaginação,
disse-nos o poeta,
a mim e a outras
tantas crianças.
Olhei nos seus olhos
e pude ver cintilarem
as nuanças da alegria.
O poema está
na inocência
do olhar, pensei
e pintei um arco-íris
com as cores da
da esperança, ó leitor
imaginário das páginas
desse diário, só
para te ofertar.
POETAS RECITAM EM INSTITUTO PARA FILHAS DE DOMÉSTICAS
Foto Eraldo Peres: Angélica Torres Lima, Amneres e Bic Prado. Atrás: Nicolas Behr, Cristiane Sobral e Luís Turiba.
Poetas recitam em Instituto de formação para filhas de domésticas
Integrantes do grupo OiPoema adotam entidade carente do Lago Sul - DF
Brasília, 12.09.2010 – O DF e seus contrastes surreais: quem pensaria que em pleno Lago Sul, bairro burguês de Brasília, uma congregação de apenas sete freiras vive e mantém, sem apoio financeiro sistemático oficial, uma entidade socioeducativa voltada à complementação da formação de filhas de empregadas domésticas que trabalham na região? Ao procurarem uma escola da periferia para adotar como voluntárias e saberem da existência do projeto do Instituto N.Sª da Piedade (INSP), as poetas Angélica Torres Lima e Cristiane Sobral não hesitaram: adotaram a instituição e lá irão se apresentar em recital, pela primeira vez, nesta 3ª feira (14.09), às 15h, para as turmas de crianças da 3ª e da 4ª séries.
Partiu do grupo OiPoema essa inédita contraproposta ao Fundo de Arte e Cultura (FAC-SEC/DF), de atuação voluntária em prol de escolas de regiões carentes (ou de instituição carente em região abastada), pelo apoio à publicação de seus novos livros, a serem lançados no próximo dia 28.09, sob o selo da Coleção OiPoema. Cada um dos integrantes, Luís Turiba, Nicolas Behr, Amneres, Bic Prado, Cristiane Sobral e Angélica Torres Lima, adotou uma instituição para promoverem recitais, doação de livros, oficinas de poesia, com os alunos. Luís Turiba, coordenador do OiPoema, advoga que é mais importante ajudar na formação de carentes do que ser presidente, "porque a educação desvia as crianças da rota do tráfico e da prostituição". No recital de terça-feira, além de leitura e performance de poemas, Angélica e Cristiane vão conversar e propor dinâmicas sobre a matéria poética com as alunas, que têm entre nove e 11 anos de idade.
"Ficamos muito felizes de saber que o Instituto N.Sª da Piedade será presenteado com o projeto de poesia de vocês, que enriquece a Instituição e as crianças ao participarem do mesmo", reagiu a diretora ao saber da proposta. Irmã Conceição Oliveira quer, no entanto, a participação de todo o grupo no trabalho educativo do INSP, que mantém hoje 130 crianças, conta com o apoio assistemático de 20 voluntários e tem sido amparado por pessoas da comunidade do Lago Sul e filantropicamente pelo Movimento Maria Cláudia Pela Paz, por iniciativa da pedagoga Cristina Del'Isola.
Com a tragédia do assassinato da filha Maria Cláudia, Cristina Del'Isola sustentou-se nas ações beneficentes do Movimento, entre elas o apoio, via promoção de feiras, quermesses e brechós, em favor do belo Instituto, instalado há 48 anos na chácara 7 da QI 5 do Lago Sul, e mantido a duras penas pelas Irmãs Auxiliares N.Sª da Piedade. No final do ano passado iniciaram-se as obras de recuperação das instalações do Instituto e em maio foi inaugurada a biblioteca, que contou com doações de livros por parte de integrantes e simpatizantes do Movimento da família Del'Isola, entre eles, diversos escritores e artistas da cidade.
O recital poético da também atriz e professora Cristiane Sobral e da jornalista Angélica Torres Lima será realizado no espaço que recebeu o nome de Biblioteca Maria Cláudia, em homenagem à jovem de 22 anos, imolada pelo caseiro da família por manobra maquiavélica da empregada da casa. Cristina Del'Isola tem, portanto, forte motivo para apoiar a oferta de boa formação a filhas de domésticas pelo INSP, e o grupo OiPoema se dispõe a colaborar com a iniciativa.
Divulgação OIPOEMA; mais informações com Luís Turiba, 61 9826.0222.
SOU UM CAÇADOR DE EMOÇÕES
Entrevista publicada no Correio Braziliense de 12.9.2010

Muito prazer - Luis Turiba
Um pernambucano, criado no Rio de Janeiro e radicado em Brasília desde 1978 dá liga? Dá sim. Luis Turiba, 60 anos, é um homem "sem-fronteira" na vida e na poesia. Referência da literatura local, Turiba não para de colocar projetos no forno. Pretende fazer documentários sobre o samba no mundo e um livro que tratará do "pulso nada mudo" da cultura brasileira. Com o grupo OIPoemas adota escolas públicas e prepara o lançamento de uma coleção de livros. Nesta conversa com o Correio, ele lamenta o fraco desempenho da Secretaria de Cultura nos últimos anos: "O pior da história".
Caçador de emoções
José Carlos Vieira, Severino Francisco e Sergio Maggio
| Leonardo Arruda/Esp. CB/D.A Press |
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A revista Bric-a-brac (1985 a 1992) marcou a cena cultural da cidade e do país. Fale um pouco sobre ela…
A Bric-a-brac foi um rio que passou pela vida da gente, usando a expressão poética de Paulinho da Viola. A Bric-a-brac conseguiu, ao longo dos seis anos em que ela existiu como produto e como grupo, fazer pontes poéticas de Brasília com outras vanguardas do país de uma forma muito ativa. Tínhamos um grupo muito forte, cujo núcleo era formado por três jornalistas: Lúcia Leão, João Borges e eu; além de um designer, o Reza (Luiz Eduardo Rezende). Nossa meta era fazer mergulhos nas fontes poéticas do país, como a entrevista que fizemos com Manoel de Barros, que durou uma troca de cartas de seis meses. Fomos três vezes a Campo Grande, tomamos muito uísque, muito caldo de piranha, mas tudo o que aconteceu nesses encontros não podia sair (devido a um acordo com Barros), apenas o teor das 10 cartas. Fizemos também uma entrevista histórica com Paulinho da Viola, com José Mindlin, que foi um mergulho profundo dentro da biblioteca dele e que acabou impulsionando-o a escrever a obra Uma vida entre livros, que o levou à Academia Brasileira de Letras. No discurso de posse ele agradece à Bric-a-brac pela entrevista. Fizemos pontes com os concretistas, com a vanguarda de São Paulo, que era Arrigo Barnabé, Arnaldo Antunes… Fizemos contatos com o pessoal de Minas, ou seja, a revista foi uma rede que até hoje continua dando frutos.
Mas por que a revista acabou?
Foi um tempo intenso e útil, mas o rio da convivência entre a gente secou, com todo o respeito. Mas ainda tenho um sonho de fazer algo similar.
Você acaba de lançar um livro de poesias em homenagem a uma de suas filhas (Luísa Lulusa, a atriz principal). É um livro infantil?
Este livro foi feito para crianças de todas as idades. É um livro pro vovô, pro titio… A criança já nasce poeta, mas depois ela vai se alfabetizando e se despoetizando. Eu já tinha três filhos, já era um pai-avô quando Luísa (a mais nova) e Manuela surgiram. O livro foi uma parceria de intensa paixão entre nós três, elas opinaram muito.
A necessidade do Fundo de Apoio à Cultura para lançar livro não cria uma dependência perigosa e viciante do Estado?
É uma boa discussão. A cultura sobrevive ao Estado, ela está acima do Estado. O que o Estado tem de fazer é não atrapalhar e, se possível, incentivar, democratizando o máximo possível a liberação de recursos. O Fundo de Apoio à Cultura é uma conquista dos artistas. Mas a liberação dessas verbas ainda é deturpada e burocrática, completamente anticultural, tem um viés ideológico. Essas regras precisam mudar. A gente espera que o próximo governador tenha sensibilidade para isso. Mas vale destacar que o artista tem de ser independente de FAC, independente de tudo.
Você faz parte da chamada geração da poesia marginal e, no entanto, sempre teve admiração pela poesia concreta e amizade com os paulistas Augusto e Haroldo de Campos. Para a maioria dos poetas, a poesia marginal e a poesia concreta são coisas incompatíveis, pois uma é intuitiva e a outra, cerebral. Como você trabalhou essa química, para muitos, inviável?
Não sou um poeta concreto. Surgi no auge da poesia marginal, tanto que trouxe pra vocês verem esse livro, que é a bíblia da poesia marginal: Me segura qu'eu vou dar um troço, de Waly Sailormoon (Salomão). Chacal, Francisco Alvim, Chico Chaves, eu… todos bebemos nesse livro. A maneira como a poesia concreta foi apresentada para a nossa geração era uma coisa de um belo aproveitamento do espaço. O que a gente bebeu nos concretos? Eles tinham seus princípios rígidos, como a morte do verso. Mas foi uma radicalidade que logo passou, porque ao mesmo tempo em que eles falavam da morte do verso, eles se transformaram nos melhores tradutores dos versos mundiais, especialmente Augusto de Campos. Eu me desenvolvi como poeta tendo muito contato com Augusto; tanto é que, no tempo da Bric-a-brac, a poesia concreta estava fazendo 30 anos, fizemos a primeira grande entrevista com Augusto de Campos. É claro que também bebíamos muito no Tropicalismo, na música popular brasileira. A minha cultura poética passa pela MPB.
O que é ser poeta?
(silêncio) É um caçador das grandes emoções do planeta. Me desenvolvi como poeta e como jornalista. No jornalismo, a gente trabalha com a objetividade, na poesia a gente trabalha principalmente com a magia em forma de linguagem. Uma coisa é a informação, a outra é a emoção. Você tem sucesso como jornalista e como poeta se você desenvolver bem esses códigos. Mas acima de tudo, o poeta é um caçador de emoção. Com o tempo ele vai se transformando num sem-fronteira, porque vai captando poesia em varias outras linguagens, você começa a ver poesia no jornalismo, no audiovisual… começa a fazer a ponte da poesia com a música — no meu caso. É como o poeta Xico Chaves destaca: transterritoriedade.
Brasília é, culturalmente, provinciana?
Não. A cidade recebe todas as influências de fora, mas Brasília já é um celeiro de artistas e absorve muito bem as boas coisas que vêm de fora, e isso transforma as pessoas que estão fazendo arte aqui, ou você acha que o Cena Contemporânea não transforma centenas e centenas de jovens que trabalham com teatro? As grandes vedetes do Cena Contemporânea terminam sendo artistas brasilienses. Como o ator Willian Lopes, que se apresentou na parede externa do Ministério do Esporte. Achei genial quando ele disse: "Eu transo legal com os espaços de Niemeyer". O artista plástico Chico Amaral colocou palavras (dê espaço ao tempo) em postes da Asa Norte. Só quem conhece a geografia da cidade tem meios de interferir poeticamente nos espaços de Brasília, ou seja, começa a fortalecer esse olhar brasiliense.
O projeto da barca poética enfrenta bons ventos?
Nós temos um grupo de poetas com linguagens diferentes que se reúne para fazer atividades culturais há 10 anos. Esse grupo chama-se OIPoema, integrado por poetas como Bic Prado, Cristiane Sobral, Angélica Torres, Amneres e Nicolas Behr. Conhecedores da geografia da cidade, nós sempre buscamos locais para fazer poesia, descobrimos a barca, um espaço em que poderíamos levar pessoas para lá e fazer um passeio pelo Lago durante duas horas com intervenções poéticas e muita música. Fizemos um trabalho intenso, agora ficou esse espaço formado para os poetas de Brasília. Vários outros grupos já ocuparam a barca. Nos recolhemos porque resolvemos fazer outro tipo de intervenção, que é uma coleção de livros de poesia. Durante quase um ano o grupo ficou gestando a coleção OIPoema, com seis livros. A essa coleção vai se juntar a obra do Reza, um livro de poemas visuais. Mas a ação que estamos fazendo agora é adotar uma escola pública numa área periférica da cidade. Por exemplo, a minha é a Escola Classe nº 4 , de Vila Buritis, em Planaltina, onde já doei livros, fiz palestras… Estamos percorrendo áreas como o Varjão e o Paranoá.
Brasília dá samba?
Totalmente. Brasília foi fundada em ritmo de samba, defendo essa tese (risos). Por exemplo, Água de beber, de Tom Jobim e Vinicius, foi feita graças a uma fonte que tem lá no Catetinho. Uma das primeiras providências de Juscelino Kubitschek, como presidente bossa nova, foi trazer para a cidade Tom e Vinicius, que fizeram uma linda sinfonia, além de beberem das fontes da cidade. Destaco uma instituição que a gente precisa olhar com bastante carinho, que é a Aruc. A Portela veio aqui abençoar essa escola na época de sua criação. Depois o samba se espalhou pela cidade e hoje temos coisas maravilhosas, cantoras incríveis, como Dhi Ribeiro, Renata Jambeiro e tantas outras.
Como se iniciou sua relação com Brasília e como a vê hoje? Ela passou a ser uma cidade como qualquer outra? As marcas modernas foram apagadas pelo poder oficial e agora são apenas ruínas arqueológicas e cartões-postais?
A cidade pulsa. Mesmo sendo pernambucano, jamais deixei de ser carioca em Brasília (risos). Fui um menino criado em frente ao Morro da Mangueira. Aos 28 anos, quando vim pra cá, em 1978, sofri um banzo, procurava o mar e não encontrava. Se não existissem eventos como o Concerto Cabeças, eu piraria. Mas sempre que posso vou ao Rio, à Lapa, ouvir um samba lá. Aqui também é assim, toda semana preciso ir a um samba no Calaf, no Tartaruga… senão, eu não fico legal. Brasília me deu muitas amizades, poesia, uma produção cultural intensa. Agora, eu me defino um sem-fronteiras.
Você conviveu com Paulo Tovar, Renato Matos e outros tantos nomes da cultura local nos tempos em que se podia fazer um piquenique às duas da madrugada, em pleno Eixão, sem ser importunado por ninguém. Fale um pouco dessa época e dos bares que vocês frequentavam...
É bacana essa imagem do pique-nique. Nós éramos os donos da cidade. A gente saía do Bom Demais, às 3h da manhã, e iamos andando da Asa Norte à Asa Sul, onde morava, fazendo seresta, cantando etc. e tal, e não éramos incomodados nem por bandidos — hoje se você for andar por aí, vem uma turma e lhe rouba o relógio, o anel, o tênis para comprar crack — nem por policiais, que caem em cima de você, querendo documentos e suspeitando que você seja um bandido. Mas esse tempo passou. Muitos já se foram, como Paulinho Tovar, e outros estão aí, feito Renato Matos, com os cabelos já brancos, um gênio da música local, sobrevivendo de sua arte.
Depois de passar por problemas cardíacos, o que você faz para se divertir?
Não me estresso. Cometi muitos abusos, principalmente com bebidas e muito trabalho. Procuro cuidar da minha alimentação.
Como conciliar a agenda de poeta, agitador cultural, blogueiro, jornalista e pai?
Tudo ao mesmo tempo agora (risos).
Se fosse convidado para ser secretário de Cultura do DF, qual seria a sua primeira ordem? Como você avalia a atuação da secretaria hoje?
Não aceitaria (risos). Tenho muita amizade pelo Silvestre Gorgulho, mas desde que me entendo por gente, foi a pior gestão na história de Brasília. Por quê? Porque o Silvestre foi ali para cumprir uma outra missão. Ele jamais teve uma visão de políticas públicas, jamais se cercou de gente que entende daquilo. Eu mesmo trabalhei com ele na aproximação da Beija-Flor com a cidade, de mostrar o T-Bone, o Beirute… e mesmo assim foi uma coisa muito atrapalhada. Uma decepção. O Arruda não era tão tapado assim, ele tinha uma visão cultural. Mas se perdeu completamente. Ele já escreveu um livro sobre a vida da mãe do Glauber Rocha, a dona Lúcia. O governo só atrapalhou a vida da gente.
Quais são seus principais projetos?
Mergulhar de cabeça no mundo do audiovisual. Gostei muito de fazer filme, fiz um sobre a história do Sindicato dos Jornalistas e me amarrei muito. Tenho dois projetos grandes pela frente: o primeiro é O samba no mundo, dividido em seis documentários. Porque o samba e a capoeira são fontes da cultura brasileira que se espalharam por todas as regiões desse planeta. Onde você vai, tem uma academia de capoeira. Quando trabalhava no Ministério da Cultura cheguei participar de uma roda internacional de capoeira em Genebra, em que vi árabe jogando capoeira com judeu. A outra coisa é o samba. Mapeei o samba em todas as grandes cidades do mundo. O primeiro capítulo chama-se Samba no mundo Japão. No carnaval de Asakusa, em Tóquio, tem 12 escolas de samba. Quinhentas mil pessoas vão para a rua assistir ao desfile. Os japoneses estão reinventando o samba. O segundo projeto trata do "do-in antropológico" que participei quando trabalhava no MinC — uma massagem nos pontos da cultura nacional que estavam enrijecidos para que eles pudessem fluir novamente. Nesse período, tive a oportunidade de fazer um mergulho na cultura do Brasil, fui juntando muita documentação, tenho 50 caixas com artigos, fotos etc… Tenho até uma roupa enorme de maracatu que ganhei de Mestre Salustiano. Com esse material escreverei um livro sobre o pulsar nada mudo da cultura brasileira.
Leia mais poemas de Luis Turiba.
MEIAOITO
(fragmentos)
"a-wop bop a-loo
bop a-lop bam boom"
a língua do rock sacode o corpo
o bonde segue no seu elétrico balanço
festivais da Record bolinam a massa
CPC da UNE faz realismo engajado
um temporal colorido e cabeludo relampeja
sexta sangrenta
furor juvenil
chapa quente nas refregas
aquela cabeça brasileira
tinha dois chafarizes
esguichando sangue como larvas
de um vulcão indomável
o corpo tremelicava no chão
tapete roto no asfalto quente
uma da tarde (…)

