quarta-feira, 26 de março de 2014

CANTO DE RENATA JAMBEIRO ENCANTA O RIO DE JANEIRO


 

Por Luís Turiba

 

Renata Jambeiro é danada. Há um pouco mais de um ano no Rio de Janeiro, ela já conquistou seu espaço na Lapa, maior bairro boêmio da cidade, dividindo o palco todas as quintas-feiras com o violinista virtuoso Nicolas Krassik. O bar tem andado cheio e animado.

 

Nesse espaço mágico, o casal têm recebido visitas musicais participativas como Carlos Malta, a poeta e atriz Eliza Lucinda, as cantoras brasilienses Cássia Portugal e Sandra Duailibi, e ainda intérpretes e músicos de diversos seguimentos. Entre uma apresentação e outra, esteve duas vezes cantando na Europa – em Berlim e Cannes -, foi musa da escola da samba campeã do carnaval de Brasília, Acadêmicos da Asa Norte, e compôs dois sambas que começam a chamar a atenção de bambas do Rio de Janeiro – “Pra curar dor de amor” e “Levanta”, este último em parceria com João Martins.

 

Renata tem esse dom de organizar o movimento. Em Brasília, além de atuar  nos palcos do teatro, dança e preparação corporal, lançou 2 álbuns, 1 DVD e 1 Documentário,  se dividiu entre shows no Brasil e no exterior e ainda manteve o coletivo “Nós Negras”, na companhia de Cris Pereira, Kiki Oliveira, Kris Maciel e Teresa Lopes. Aqui no Rio, ao lado de Nicolas Krassik, vai firmando seu espaço na Lapa e já canta também em outro coletivo, o bloco carnavalesco  “Mulheres de Zeca”, organizado pela cantora Dorina, e dividindo a voz com a própria Dorina, Nilze Carvalho, Janaína Morena o e Dayse do Banjo. Como se vê, Renata é danada mesmo. E não pára. Leia sua entrevista:

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P- Você foi a “Musa” da escola de samba Asa Norte, tricampeã do carnaval de Brasília. Foi uma despedida sua de Brasília?

 

Renata Jambeiro – Brasília é minha terra e sempre que precisarem de mim estarei lá. Amo minha cidade e foi uma responsabilidade muito grande ser musa da  Acadêmicos da Asa Norte nesse carnaval. Imagina, você estar alí na frente do carro abre-alas, apresentando e conduzindo a escola na avenida.  Teve também uma outra leitura que me emocionou muito, que foi uma espécie de retribuição, um carinho de Brasília, da Asa Norte, em relação a mim. Eles me confiaram aquele posto, aquela atividade e isso gerou uma expectativa enorme e assim, quis retribuir à altura do que me foi colocado nas mãos. Sempre tive uma ótima relação com o bairro, com a Acadêmicos. Estudei e me formei na Universidade de Brasília (UnB), morei na região. Além disso, foi a Asa Norte que me puxou numa atitude de “pura paixão”. Era a minha comunidade, a minha família, meus amigos, todo muito feliz, envolvido nessa grande família que é a Acadêmicos. Sei que cada escola tem a sua verdade e sua dedicação, eu tenho o máximo respeito por todas, mas a Acadêmicos fisgou o meu coração. Antes do desfile, me concentrei, me interiorizei e rezei forte. Aí me veio aquela emoção e quando a bateria começou a tocar, eu gritava para todos em minha volta: “vamos lá galera! Só temos uma chance! Vamos fazer pra valer! É com a gente!”. Isso coroou todo o meu carnaval. Dias antes, havia recebido no Semente as cantoras Cássia Portugal e Sandra Dualibi. Cantei à convite da cantora Dorina no “Mulheres do Zeca” no palco sagrado do Renascença e no Parque Madureira, fui ao baile do Spanta Nenen. Tudo isso no Rio. Mas voltar à Brasília foi muito bom. Na verdade, foi sensacional e agradeço de coração a confiança depositada pelo presidente Robson Farias, pelo mestre Ronaldo e pelas diretoras Jodete, Jeanne e Nana Campos.

 

P- Antes, porém, você teve duas experiências internacionais cantando seus afro-sambas do CD “Sambaluayê” para um público europeu. Como foi isso?

 

Renata Jambeiro - Levar o próprio trabalho para a Europa é um grande desafio para mim. Tive a alegria de estar em Berlim e logo em seguida em Cannes falando de brasilidade e levando meu show, com sua proposta enérgica, dançante. Em Berlim, onde estive em Dezembro de 2013, tive a oportunidade de cantar na abertura da exposição sobre Brasília para um público grande, atento e feliz. A convite de Danielle Athayde (curadora da exposição) e Silvestre Gorgulho, grande incentivador cultural dessa exposição, minha ida foi possível através do apoio da Terracap. Uma noite calorosa e receptiva ao lado dos músicos Luiz Augusto Guimarães (percussão) e Daniel Neves (violão 7 cordas), que me acompanharam. Apesar do extremo frio, ao qual não estou acostumada, a noite foi dançante, alegre e inesquecível para todos nós.

Já em Cannes, França, a proposta foi levar o show para uma das maiores feiras de música e tecnologia musical do mundo, o MIDEM, através do SEBRAE e da produtora Lizete Fregonesi, minha representante no exterior e o apoio da Funarte/Ministério da Cultura. Um grande aprendizado, misturado a fortes emoções. A feira é enorme e traz profissionais da música de todas as instâncias e de todos os continentes. Esse ano o Brasil foi o país homenageado e foi uma grande honra representar meu país com um show que colocou todo mundo pra dançar. Foi absolutamente forte, alegre e emocionou a todos, inclusive a mim e à banda que me acompanhou: Márcio Ricardo (violão), Guilherme Sá (cavaco), Luiz Augusto (percussão), Rafael Chaves (percussão), Sandro Salvador (percussão). A mesma banda acompanhou também a cantora Joyce Cândido e o cantor e compositor Leandro Fregonesi que fez todo mundo pular e cantar "Sinhá Maria", sua composição arrasa-quarteirão. Com uma platéia especializada, o saldo foi totalmente positivo.

 

P- Bem, agora passou o carnaval e o verão está terminando também. Como você avalia sua participação no show semanal que  tem feito no Semente, sempre em parceria com seu amado Nicolas Krassik?

 

Renata Jambeiro – Fazer shows no Bar Semente durante todo o verão foi um incrível aprendizado. Por tudo: pela tradição musical da casa, pelo hábito de receber gente que faz a diferença no palco e na platéia, pelas histórias, pela parceria com o fantástico Nicolas Krassik e pelos músicos que nos acompanham - (Chris Mourão, na percuteria; Rafael Chaves e Luis Augusto na percussão (congas, pandeiros, tamborins); Lúcio Rodrigues no violão Sete cordas; e Leo Pereira, no cavaquinho) – e  o apoio luxuoso que tivemos de Marcelo Caldi (acordeon) no início do processo – e, especialmente, pelos encontros fantásticos que foram proporcionados nas noites de quinta-feira. Cada quinta-feira teve uma mágica diferente. Nenhuma foi igual a outra. E todas foram muito vivas, sem burocracia ou acomodações.

 

P- Quais foram as canjas e os encontros mais fantásticos? Quais os que mais te marcaram?

 

Renata Jambeiro – Começo falando do Carlos Malta. Ele em si é um show, um menestrel, sempre traz uma proposta, uma atitude. Quando se junta com Nicolas Krassik então, explodem em uma sinergia mágica. Em Dezembro, no meu aniversário, e ele tocou “Parabéns” para mim no pífano e em outra ocasião fez música com um copo de caipirinha. Sensacional. Quando ele entra, muda o contexto. Teve também a participação da cantora Nina Wirtti, que faz um estilo anos 40 com uma qualidade vocal magnífica. E mais Alfedo Del Penho, Edu Krieger, Jamelão Netto, Pedro Holanda, Leandro Fregonesi. A magia da Eliza Lucinda que apareceu por lá e se entregou à música e ao palco se expressando, dando um show. O dia em que as cantoras brasilienses Cássia Portugal e Sandra Dualibi cantaram e a casa se legitimou no nosso telecoteco-do-forrobodó. Enfim...

O Semente é assim. Cada dia é um dia. Matar um leão toda quinta-feira, com a fome do insaciável. Naquele palco não podemos ter um olhar burocrático para a música. Temos que estar prontos para o que o momento irá nos proporcionar. E tem estado cheio sempre, aquelas pessoas merecem o nosso melhor. Daí, porque cantar no Semente tem me dado chance de aprimoramento.

 

P- E sua parceria com esse fantástico músico que é Nicolas Krassik?

 

Renata Jambeiro – Aí é um caso especial. Ele sabe muito e é muito crítico. Então me sinto muito estimulada para buscar novas experiências sonoras que estão presentes no nosso Brasil musical. O samba, no violino inusitado de Nicolas, se amplia e passa a ser também baião, marcha, forró, jongo.  Ele “nordestiza” o Brasil e nós estamos nos descobrindo. Conversamos muito, testamos muito, ensaiamos muito. Os músicos são interessados, pesquisadores. Assim, permitimos “um tempo” para as músicas. Elas precisam disso para criar pernas e andar por aí.

 

P- Como foi sua chegada no Rio de Janeiro?

 

Renata Jambeiro - A terra do samba! Estar no Rio é uma mistura de sensações. Literalmente o purgatório da beleza e do caos! Completou um ano que estou morando na cidade... um ano que me fez crescer e desenvolver como artista, como ser humano. A cidade não pára e preciso acompanhar. O estudo, o empenho, as descobertas, uma a uma, foram se desenvolvendo de forma natural, flertando com as novas possibilidades que se abriram. O balanço é positivo! Cheguei em Janeiro passado fazendo temporada no Favella's, casa da Lapa, shows no CCC-Centro Cultural Carioca, Rio Scenarium e participações em diversos outros eventos, shows e rodas de samba no Rio e em Niterói. Apresentei meu show no Festival Back 2 Black, na Cidade das Artes. Segui com shows pelo Brasil. Trabalhei em vários estados com a Caravana do Esporte e da Música, idealizada e presidida pela cantora Daniela Mercury e a esportista Ana Mozer e assumi as quintas-feiras do Bar Semente, na Lapa, onde trabalho ao lado do grande violinista popular Nicolas Krassik, o francês mais brasileiro que eu já conheci e me apaixonei. Assim, a parceria na vida se expandiu para o palco, onde misturamos nossas propostas musicais e as quintas do Semente se tornaram surpreendentes e imperdíveis.

 

P- Você tem dado uns “rolezinhos” pelo mundo do samba do Rio. Como isso tem acontecido?

 

Renata Jambeiro – O Rio é uma cidade que vive dentro de uma estrutura festiva. A base dessa estrutura é a música, especialmente o samba. O samba, por sua vez, tem as suas hierarquias e elas são fortes, representativas. Eis porque tenho feito esse circuito de conhecimento das diferentes células do samba carioca. Quero entender as propostas, as diferenças rítmicas e poéticas. Nada é mais importante do que a vivência.  Trago desde quando morava em Brasília alguns relacionamentos importantes como minha amizade com Dona Ivone Lara, que é nossa grande dama do samba e uma pessoa ímpar, assim como toda sua família, que me recebeu com muito amor. Nossa amizade começou em Brasília e depois ela me chamou para participar do seu show no Teatro Rival e aí lá se vão 7 anos. O Noca da Portela que se tornou um pai musical. O cantor e compositor Altay Veloso que abraçou a mim e ao meu trabalho com amor. Isso, falando da velha guarda e ressaltando o que eles já me proporcionaram. Outra força tem sido o produtor Dermeval Coelho que me inseriu no Cacique de Ramos, onde fui recebida com todo carinho e onde o senhor Bira Presidente me agregou como afilhada caciqueana. Cantar lá foi maravilhoso. Outro lugar importante é o Renascença, onde o querido Moacyr Luz também abriu espaço para mim  e onde tenho queridos amigos tocando. Assim, aos poucos, vou conhecendo os lugares do samba da cidade e também apresentando meu cartão de visita, que é o meu canto.

 

 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Fwd: Capa para o Convite

CONVITE PARA O LANÇAMENTO DO "QTAIS" EM SÃO PAULO

Sobre a poesia de Luis Turiba, segundo José Castello, no cadernoPROSA 7 VERSO, de O GLOBO

"Aprecia o indecifrável, o vago, aquilo que causa medo – tudo que os poetas de gabinete veriam como obstáculo e atrito, ele enxerga como impulso e leveza. Sabe que “dos signos, a linguagem é a mais subversiva”. Por isso não se interessa em organizar o desorganizado, ou em hierarquizar o que não em posição fixa. Não: Turiba é um poeta em que a alegria de escrever (viver) serve de combustível primeiro. Escrever “por escrever”, e por isso é tão dono de sua escrita, ainda que ela lhe fuja a cada verso, ainda que lhe dê rasteiras e subverta sua própria palavra. Vê Exu (perigo, mas energia) “até nas lesmas/ do mago Manoel de Barros”. Exu, anjo das manhas, em torno de quem o poeta se contorce para escrever."


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A RESENHA DO JOSÉ CASTELLO SOBRE "QTAIS", MEU ÚLTIMO LIVRO DE POESIA

POESIA E ALEGRIA


José Castello, caderno "Prosa e Verso", de O Globo -1.2.2014


Uma poesia que dança. Uma poesia que coloca o jogo divertido das palavras acima do protocolo dos significados. Uma poesia nômade, ambulante, que passeia por vários mundos. Eis a poesia de Luis Turiba, de quem leio “Qtais” (7Letras). Antes de tudo, o império dos sons, como em “Ser minério é coisa sério”, poema em homenagem a Minas e aos mineiros. Antes de qualquer coisa, a busca do novo: “caminhar é pisar chão/ sem pisá-lo de antemão”. O poeta é um caminhante – é uma espécie de ambulante que avança apoiado em seu cajado. Um poeta libertário, cujo cajado (a língua) dele também se desvia. “Meu cajado é libertário/ temos quase a mesma altura/ caminhando em paralelo/ olhando o mundo às avessas”.


Avançam os dois, “plugados à lei do impulso”, em uma grande aventura zen. Vão aos tropeções, mas deles, em vez de tirar dores, tiram lições. O poeta caminha contra a lógica: “A lógica dos lógicos já não me interessa/ (...)/ Meu tempo está no vento peso  q não pesa”. Avança sem uma bússola, parece um sonâmbulo, Turiba nos faz ver. “Sou cego e calado e escrevo ensimesmado”, define-se. Ainda assim, cultiva uma intensa luz interior. Diz a si mesmo: “Não apague a luz interna e intensifique-se”. Sem direção, resta-lhe a própria força para construir seu caminho: “levo-me leve em vôos sem lei/ meu fio terra é madeira de fibra/ sou andarilho”. Carrega um cajado “alado e desconfiado” e assim privilegia a leveza, os voos e os grandes saltos. “Um fariseu distraído/ afável & aviolado.”


Muitas vezes ligamos a poesia ao peso, à densidade, ao sofrimento – mas é contra essas relações difíceis que Luis Turiba escreve. É um poeta que escreve, antes de tudo, para se divertir. A poesia como brincadeira, como dança sem método e sem partitura, como improviso. Assim Turiba brinca enquanto faz poesia, e nós, seus leitores, nos deliciamos. Vai buscar seus materiais nos cantos mais remotos – como em “O que é o Sol?”, segundo ele escrito “a partir de um poema oral búlgaro do século V”. Verdade? Mentira? E isso importa? Interessa sim a distância que o poeta toma para desenrolar seus versos. Para erguer-se em seu tapete voador. Faz uma poesia que voa, mas que é também uma poesia andante, que rasteja, que cheira o chão e suas brechas. Seja como for, escreve uma poesia que canta. Importante definir o que faz? Não parece. “Ainda não aprendi teu nome/ Mas já sei (quase) tudo sobre”, diz ele, descortinando uma resposta.

Busca um verso “arrítmico”, aos soluços, aos impulsos. “Quisera fazer um verso/ com a sublime arritmia do amor/ um verso míssil/ neurastênico e febril/ ar do dia anterior à criação do universo”. Destino dos poetas, não só de Turiba: estar às voltas com as origens. “Um verso de trivela/ transverso e subversivo”, prossegue em seu sonho. “Um verso de fogo e batom/ histórico, histérico e erudito”. Origem (fogo) e beleza (batom) se misturam para anunciar uma estratégia que o traz de muito longe e leva para mais distante ainda. Matéria de poesia: o tempo, que nas mãos de Turiba se converte em um material maleável e perigosamente desdobrável.


Uma poesia na qual as identidades se misturam e é assim que se aproximam, como está dito: “quem manda em mim/ sou ela”. Poesia da mistura, mas também da confluência e do diálogo feliz entre palavras. Nos versos elas encontram seu lugar de honra, encontram provavelmente seu berço. Por exemplo, quando Turiba brinca assim: “caramba/carambolas/ sou de jambo/ não me amora”. Uma escrita de contras-sensos: “agnóstico/ benzo-me ao olhar o Cristo Redentor”. Exatamente como somos, seres de contradição e de desmentidos, seres instáveis, de pequenas demências, dos quais a poesia é a língua mais exemplar.


Há nela um gosto não só pelos sons, mas pela desafinação. O poeta relata: “Mas cuíca também falha/ Em plena Sapucaí/ Quebra a vara/ Rompe o couro/ Desarma o circo e o estilo”. A desafinação como uma nova maneira de os sons se encontrarem e se desencontrarem. Como uma outra arritmia, que perde o prumo, mas não deixa de avançar. O poeta, precavido, multiplica seus instrumentos. “Por isso, digo em sigilo:/ Tenho duas cuícas/ Florença e Nikita”. Iguais, mas diferentes – e é dessa diferença que vem a desafinação inevitável e original. “Enquanto Florença aflora/ Nikita quita/ E assim floreiam o mundo/ Desafinadas as cuícas.” Também a desarmonia tem seu valor. Também o desajuste é promotor de beleza, o poeta nos leva a ver. O mundo não é uma orquestra afinada e impecável; ao contrário, é um grande sopro de desencontros, e muita beleza sai disso.

Um poeta, portanto, que desconfia das excessivas habilidades. E que privilegia as diferenças. Por exemplo, a estranheza que ele encontra nas girafas: “ouvi dizer que elas dormem/ dez minutos a cada hora/ também pudera, natureza mátria/ com aqueles pescoços quilométricos/ (que um dia hei de beijá-los)/ um cochilo faz descansá-los”. Girafas: exceções em um mundo de exceções, e eis aí a origem da poesia. Nesses desencontros, nesses desalinhamentos. Em um poema como “Língua à brasileira”, Turiba evoca Caetano Veloso, José Saramago, Guimarães Rosa, os irmãos Campos, tornando difícil que o leitor vislumbre uma ascendência nítida para sua poética. Poeta da mistura, Turiba louva seus vários caminhos, que volta a percorrer como um ermitão em busca do próprio nascimento.


Aprecia o indecifrável, o vago, aquilo que causa medo – tudo que os poetas de gabinete veriam como obstáculo e atrito, ele enxerga como impulso e leveza. Sabe que “dos signos, a linguagem é a mais subversiva”. Por isso não se interessa em organizar o desorganizado, ou em hierarquizar o que não em posição fixa. Não: Turiba é um poeta em que a alegria de escrever (viver) serve de combustível primeiro. Escrever “por escrever”, e por isso é tão dono de sua escrita, ainda que ela lhe fuja a cada verso, ainda que lhe dê rasteiras e subverta sua própria palavra. Vê Exu (perigo, mas energia) “até nas lesmas/ do mago Manoel de Barros”. Exu, anjo das manhas, em torno de quem o poeta se contorce para escrever.

  

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

CARLOS DRUMMOND - POETA DE OLHAR TRÍVIO

Do livro QTAIS

roubaram do poeta os óculos
tirando-lhe o visual d'estátua
há neste furto certo imbróglio
um quê místico, ar de máfia

de olhar férreo de minério
o poeta mantém-se etéreo
nem o fogo solda cáustica
tira dele o "zero-a-zero"

com ou sem seus óculos
o poeta não mexe músculo
nem na passagem do monótono
mas frenético monobloco

de costas pro mar esquálido
Carlos Drummond é o espírito
do poeta que sem óculos
tem visão de olho mágico

Carlos Drummond é o máximo
que ilumina nossos mínimos
de bronze é sua poética
que traduz um olhar trívio

ORAÇÃO PARA NOSSA SENHORA DA BALA PERDIDA

do livro QTAIS


Mãe,
Afaste de mim esta bala
Este dardo inflamável
Esta seta diuturna
Este terror sem rumo
Este projétil alado e raso

Pois já que elas não cessam
Que pelo menos nos errem

Rogai por nós os passantes
Os transeuntes os pedestres
Os motoristas e as crianças
E principalmente as mães

Não nos faça alvos fáceis
Desta chuva de petardo
Não nos atinja o corpo
Nem a alma nem os prantos

Que veloz, não me alcance
Que sua força não me curve
Que seu fogo não me queime
Que o acaso não me derrube

Eu que diariamente passo
Por favelas becos vielas
Por túneis curvas células
Eu que faço o bom combate

Protegei as nossas vísceras
Das emboscadas bandidas
Dos acertos entre quadrilhas
Do fogo amigo ou polícia
Só te peço oh mãe amiga
Santa do cotidiano
Poupe-nos o banho de sangue
De passagem tão insana

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

QUATRO POEMAS DO "QTAIS"

chipnoxibiu

xipnuchibiu

shipinuxibil

 

 

SUSTENTA HABILIDADES

 

o pior cego

é aquele que não quer VERDE

 

lágrima na floresta

testemunha sexo selvagem

entre a motosserra e a árvore

 

sou selva uma

querem-me toras

se viva, verde

se morta, dólar

 

ou a gente se Raoni

ou a gente se Sting

uma metade passa fome

outra metade faz regime

 

VÁCUOS

oxigênios

oxilêncio

.

azul-ozônio

.

cigarras

 

ziiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmm

 

 

TORTURA

 

Levanta-se o véu e rasga-se a túnica

Os corvos ainda bicam o que restou de ti

Uma dor cicuta que espiral perdura

....tortura...

 

O teu silêncio cobrado em preço físico

O teu algoz agora também teu karma

Tua voz teu suspiro e teu fantasma

 

Quem içou o dia e eternizou o cinza

Um Deus raivoso fez habitat às sombras

Tiras o capuz e o que vês? Abismos...

 

Jagunços a conspirar em cadafalsos

– Ora Senhor! Não se trata bandidos a bombons!

– Meus Deus! Meu Deus! Será que vou calabar?

 

Nunca serás mais o que antes eras

Se o corpo resistiu, o espírito tem chagas

Marcado como gado a ilusão tritura

......tortura............