quarta-feira, 28 de maio de 2014

O RIO NA COPA (3)

COPA NA COPA

 

Luis Turiba

 

Copa é Copa. Com Copa ou sem Copa, Copa há. Mas em toda a Avenida Atlântica nenhuma bandeira nas janelas, nenhuma mensagem de oba-oba. Isso é grave: esse silêncio gritante em Copa.

 

Copacabana não engana mais ninguém. Nem a você, nem a mim, nem ao Caetano Veloso. É uma espécie de umbigo do mundo, cujo cordão mantêm-se conectado à placenta planetária. É aquele desconforto urbano que apaixona e inebria cariocas, brasileiros, terráqueos de todos os planetas.

 

Sinais de Copa em Copa são tímidos, quase inexistentes. Dos ursos psicodélicos da ONU no Leme, com destaque para o cubano em forma de charuto com um havana na boca; até a muralha noturna verde-amarela do Forte no Posto Seis; a Copa só está presente nas esculturas de areia em forma de engenhocas caça-níqueis com o Cristo sempre em destaque e aquelas tintas berrantes pra sair bem na foto. De vez em quando, um torcedor gaiato faz sua performance solitária no calçadão.

 

Mas independente de Copas, Copacabana pulsa: com seus orelhões de classificados eróticos anunciando em fotos bandeirosas um "faço tudo em 15 minutos sem decepção". Lá longe está seu estacionamento marítimo para super-navios à espera de uma vaga na baía de Guanabara; seus turistas mundanos com camisetas do Flamengo ou da Mangueira desfilando pelo calçadão.

Sim, por lá anda aquela puta suburbana acompanhada pelo play-boy em busca de uma boa aventura a pé e a pó. E também o vovô levando sua netinha no assento protegido da bicicleta enquanto a vovó malha com seu fio dental; o vendedor de falsos copos de chopp que assusta o turista desprevenido ameaçando jogar o líquido em cima dele; fora aquele paraíba simpático que vende canga e carrega no guarda-sol uma verdadeira butique de biquínis multicoloridos.

 

Quantos bacanas, quantos bananas. Otários e esperto por perto. Sotaques, ataques, trambiques, salamaleques, limusines, cineastas amadores, repórteres. Em suas ruas, alguns só pensam naquilo. outros no quilo. Do monumental Copacabana Palace avista-se os tapumes de obras intermináveis. Os bares na beira-mar com suas comidas seeempre a desejar. Feirinhas, freinhas e freirinhas. O rasante do helicóptero salva-vidas e o ronco da cuíca. A morena que passa com o balanço do seu remelexo carioca a fazer olhares liquidificantes. Umas pelas calçadas dos prédios com olhares lânguidos, outras a chutar ondinhas no vai-e-vem de orgasmos múltiplos do oceano Atlântico.

 

Em Copacabana, meninos paulistas pré-adolescentes são cada dia mais parecidos com Cristiano Ronaldo no cabelo e na marra. Os sonhos do Brasil do interior colocam seus pés pela primeira vez na água salgada gelada enquanto catadores de latinhas enchem seus sacos negros de plástico.

Lá no mar, um petroleiro anuncia sua chegada ao Rio com um silvo roco e forte. O ronco de uma moto desgovernada, uma sirene de ambulância, tiros de polícia, alguém tenta matar alguém, zumbido do congestionamento, um caminhão poluente, o cheiro forte de esgoto, um menino é preso numa tentativa de assalto. O vendedor de chapéu panamenho fabricado na China e o grupo de pagode anima a turistada.


Copa barata, Copa cara. Copa prostituta, astuta e princesinha. Ou como se cantava nos anos 70; "Potacabando, princesinha quer mais." Intensa, senhora, meretriz, atriz e santa. Clara e morena, gringa, hippie e transparente. Copa da Avenida Atlântica, do calçadão de quem se exercita e excita, das areias brancas e da avenida humana que recebeu o papa Francisco, que é argentino como Maradona que adora Copacabana. Esse silêncio gritante é Copa.    

 


Um comentário:

Elza Maria Vieira disse...

Alegre por ver q vc não desistiu! Muito legal!