terça-feira, 14 de abril de 2015

CONFERÊNCIA DE SENDAI: O BRASIL E A RESILIÊNCIA CLIMÁTICA

No mês passado foi realizada em Sendai, Japão, a Terceira Conferência Mundial sobre a Redução do Riscos de Desastres Naturais. Além de cabeças coroadas, participaram representantes dos 187 Estados membros da ONU. Na ocasião foi acordado um novo marco para reduzir nos próximos 15 anos a mortalidade e as perdas econômicas produzidas por essas catástrofes. São sete as recomendações.

A última conferência foi em Hyogo, também no Japão, em 2005. Na época, já se apontava a necessidade de se construir uma agenda global e coletiva de resiliência diante dos desastres naturais.

De lá para cá avançou-se pouquíssimo. O relatório base da conferência diz que "ao longo desses 10 anos, os desastres continuam produzindo um fardo pesado. Mais de 700 mil pessoas perderam a vida, mais de 1,4 milhão de pessoas ficaram feridas e cerca de 23 milhões foram desabrigadas pelos desastres. No geral, mais de 1 milhão e 500 mil pessoas foram afetadas por desastres de várias maneiras. Mulheres, crianças e pessoas em situação de vulnerabilidade (idosos, crianças, doentes) foram desproporcionalmente afetados. A perda econômica total foi de mais de U$ 1,3 trilhões. Além disso, entre 2008 e 2012, 144 milhões de pessoas foram deslocadas por catástrofes."

O Brasil foi representado em Sendai pelo climatologista Carlos Nobre, diretor do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Afinal, somos parte significativa dessa macabra estatística com nossas enchentes, alagamentos e desabamentos. De mais a mais, há dois anos enfrentamos uma estiagem na região Sudeste com repercussões diretas no abastecimento d'água, no custo energético e na produção agrícola/ alimentar. Seca está que começou em 2013 e, além de esvaziar inúmeros reservatórios, já comeu um dígito do PIB nacional neste período, segundo estimativas do próprio Cemaden. Há outros estudos que falam em prejuízo de 8% do PIB nos últimos três anos de estiagem.

Este órgão do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) tem um plano nacional para aumentar a resiliência da sociedade brasileira diante de tais catástrofes. Foi construída até uma rede observacional para monitorar todo território nacional, com base em três mil sensores que acompanham os fenômenos meteorológicos de todo o País, podendo avaliar com rapidez inundações, alagamentos bruscos, deslizamentos, secas.

Quem coordena essa rede é o engenheiro hidrólogo Mario Mendiondo, argentino com mestrado e doutorado em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Pós-Doc Sênior do Center for Environmental Systems Research da University of Kassel, Alemanha.

Para Mendiondo, a estiagem é um fenômeno conhecido da sociedade brasileira, especialmente por causa do nosso semi-árido nordestino. "Em 1953 houve aqui no Sudoeste uma seca de grande magnitude. Mas as estiagens têm suas dinâmica própria, não são ciclos estacionários. A seca que esvaziou o Cantareira é superior a de 53, pois já dura dois anos e afeta especialmente o eixo Rio-São Paulo, que hoje é ocupado por grandes populações e grandes produções agrícolas também."

De qualquer maneira, no seu entender, é fundamental melhorar a tecnologia de previsões e novos elementos para o bom trato de água. No Japão é chamada rede observacional - radares climáticos e pluviométricos - é 20 vezes maior que a brasileira, para um país cujo tamanho é um pouco maior que São Paulo.

Nos últimos dois anos, diz Mendiondo, o Japão investiu U$ 4 bilhões na sua rede observacional para aumentar a resiliência diante dos desastres naturais - muito em função do tsunami de 2011.
"A pobreza na sociedade moderna pode ser medida entre os que tem e os que não tem essa rede observacional de defesa. É necessário construir uma Política Nacional que mantenha e aperfeiçoe a rede. O Brasil precisa aumentar os financiamentos em prevenção de risco", afirma o coordenador do Cemaden.

Segundo ele, a grande maioria dos municípios brasileiros não possuem secretarias de gestão e risco contra os desastres naturais. "Conta-se nos dedos de uma mão", comenta. Normalmente são secretarias ligadas ao meio ambiente ou ao planejamento urbano, tudo muito tímido, pois os municípios não possuem Planos Diretores de Ocupação do Solo.

"Não se pode sair por aí dando alvarás de construção em morros, encostas, áreas de riscos e deslizamentos. Os centros urbanos vivem alagando com a menor chuva e não há sinalização próprias nem política de comunicação. Poderíamos evitar inúmeras mortes com placas sinalizadoras, avisos óbvios e rápidos de fazer. Mais de 40% da população brasileira não têm nenhum tipo de proteção contra a elevação de níveis das águas das chuvas. E isso acontece em Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro. Falta o planejamento óbvio e sinalizações básicas", desabafa o coordenador do Cemaden.

Enquanto isso, de Sendai, no Japão, chega a mensagem básica para todas as governanças do mundo: "Desastres naturais, muitos dos quais são agravadas pelas alterações climáticas, afetam significativamente o desenvolvimento sustentável no planeta. Evidências indicam que a exposição de pessoas e bens em todos os países tem aumentado mais rapidamente diante da vulnerabilidade, gerando novo risco e um aumento constante em desastres com perdas significativa para a economia, o social, a saúde, o impacto cultural e ambiental, a curto, médio e longo prazo, especialmente em nível local e da comunidade.

Ou seja: a aplicação do novo marco de Sendai "requer um forte compromisso das lideranças políticas e será vital para o êxito de futuros acordos sobre os objetivos de desenvolvimento sustentável". Entre as sete recomendações de Sendai, a última diz ser necessário "aumentar substancialmente a disponibilidade e o acesso a sistemas de alerta precoce de riscos múltiplos e informações de risco de desastres e as avaliações para o povo até 2030. Diante dessas recomendações, Mario Mendiondo afirma que, apesar de investimentos não satisfatórios, o Brasil está no caminho pois possuiu os marcos regulatórios legais e planos para o saneamento básico, a água, o solo e a proteção contra desastres naturais.

"Precisamos criar na sociedade uma consciência idêntica a já existente para o tratamento do lixo. Travar a batalha da comunicação, levar o assunto para a grade escolar nos vários graus. Trazer essa agenda para os vários níveis de governança, desde o federal até o municipal. Nossos políticos precisam lutar por emendas voltadas para essa causa e ter uma sociedade melhor e mais preparada para enfrentar secas, inundações e outros problemas climáticos. Entre os Brics - China, África do Sul e Rússia - estamos na liderança; mas precisamos caminhar para se igualar a países do Primeiro Mundo", propõe ele.

E finaliza: "tratar bueiros sem levar em consideração as mudanças climáticas, é coisa do passado. Vamos olhar para o futuro."


quinta-feira, 12 de março de 2015

TÁ DIFÍCIL, MANO!

Luis Turiba


Jovem, negromestiço e morador de uma quebrada qualquer em uma grande cidade brasileira. Esta condição já é quase um atestado de culpa ou um passaporte para a desexistência. Pouco importa se trabalha ou estuda. Nossa juventude corre risco.

No meio caminho não há somente pedras ou esgoto a céu aberto. Assim, do nada, você pode ser alvejado na puxada do gatilho e no estampido do cão. Fiquem espertos. Ou, na melhor das hipóteses, ser algemado e enjaulado como cachorro louco num desses camburões que lembram navios negreiros da pós-modernidade. Aí, é trauma para sempre ou um X a mais nas estatísticas.

Tá difícil, Mano; reconheço. Nos últimos tempos tem acontecido quase de diariamente como uma chuva de balas perdidas. Os confrontos se multiplicam especialmente nas áreas de chapa quente. Em alguns casos, o assunto chega à televisão, ao noticiário como recentemente, quando soldados foram presos por fuzilar um jovem na Palmeira e o Comandante do Batalhão exonerado por tentar confundir o mal-feito com o direito. Semanas atrás, uma passeata de jovens indignados foi dissolvida à bombas, porrada e tiros, transformando a Maré numa espécie de Soweto do século XXI. É muito ONG pra pouca onda. Dois corpos ficaram no chão. Esse estado de barbárie (falamos do Estado Ismalico, mas tantas vezes ela está em nosso próprio quintal) trás dor, medo e pavor para dentro dos nossos lares. É um Rio de Janeiro nada glamoroso, especialmente quando uma mãe aguarda a chegada do seu filho que, como milhares de outros jovens de 20 anos, foi a praia com a galera e terminou sendo levado ao bofetões para uma delegacia no Leblon acusado por um roubo do qual não faz a menor ideia. E o mais grave: da rua até a DP, ficou sem o celular, o anel e o cordão do pescoço. No fim, o delegado mandou soltar, pois nem passagem ele tinha: mas e daí?  Dentro da lógica do absurdo, talvez tenha tido até sorte.

"Rio de ladeiras, civilizações, encruzilhadas/ cada ribanceira é uma nação". Esse verso de Chico Buarque revela a nova geografia carioca que não está nos cartões postais. É nesse ambiente que o extermínio planta suas raízes. O assunto está na ordem do dia da Segurança Pública do Rio e de outras grandes cidades, como Salvador. Como escreveu Marcus Faustini  em recente crônica: "A naturalização da morte de jovens de origem popular no Rio precisa ter fim, antes que morra a força pela mudança de quem fica." Ainda é possível não exterminar a esperança.


Luis Turiba, jornalista e poeta


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

JE SUIS CUICÁ

O som da cuíca é um patrimônio imaterial da cultura popular carioca – no mundo não há outro igual
Numa bateria de 280 componentes, são 28 cuícas marcando o ritmo na mesma levada com tons diferenciados
Lá e cá, com uma bossa dobrada no meio
Umas choram, outras riem, a maioria gargalha
Tudo funciona como numa alucinada orquestra de couros
Ao longo de 90 minutos – uma partida de futebol – você toca ali no meio de redemoinho.
Vira também uma cuíca: corpo e instrumento num só embalo
Somos, portanto, homens-cuíca ladeamos por homens-surdo, homens-caixa, homens-tamborim
Mas somos cuícas
Flutuamos...voamos...dançamos...gargalhamos
As cuícas tocam para os chakras dos umbigos das mulatas
As rainhas, quando realmente majestades, se derretem ao som imantado das cuícas da Sapucaí
As bichas enlouquecem
Na fiel bateria da São Clemente cuícas surfam em ondas
O estridente som dos agogôs de quatro bocas nos completam
Há dez anos desfilo na Sapucaí e este ano me senti genuinamente uma cuíca
Mugindo como boi, buzinando como caminhão, abduzido pelo som circulante em êxtase deslumbrante
Cuíca não sente dor, nada pensa: é zen transcendental
Cuíca não sente o tempo passar e faz a plateia delirar
Cuíca não é o principal instrumento, mas é o molho de pimenta
Cuíca bebe água, suor e lágrimas pelo gorgurão
Durante 90 minutos fui uma cuíca e não queria mesmo ser outra coisa, pois o meu som fazia o maior espetáculo da Terra.
Deus salve as cuícas: je suis cuicá

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

TANCREDO NEVES, CULTURA E A NOVA REPÚBLICA


Luis Turiba

 

Foi Tancredo Neves quem me apresentou a Jorge Luís Borges. Isso em fevereiro de 1986, Buenos Aires, última escala do giro internacional que o então presidente civil eleito (pelo Colégio Eleitoral) fez ao mundo civilizado para apresentar ao papa e a governantes aliados - Portugal, Itália, França, EUA, México e Argentina - o novo Brasil que nascia depois de 21 anos de ditadura militar. 

A ditadura foi derrubada com o povo nas ruas e o pelo voto indireto. A este movimento chamou-se Nova República e se concretizou com um viés cultural. A velha raposa mineira tinha um compromisso político com pensadores, acadêmicos e intelectuais que se engajaram na sua campanha contra o governista Paulo Maluf. O deputado José Aparecido seria seu Ministro da Cultura, uma nova pasta criada para os artistas no processo de redemocratização. 

No seu livro "Diário de Bordo", o embaixador Rubem Ricupero, que acompanhou Tancredo Neves na histórica viagem internacional , assim descreve o encontro do Bruxo com a Mago argentino: "Borges está quase completamente cego e é acompanhado por uma jovem secretária de nome asiático [...]. Com 84 anos, parece relativamente bem, come com certo apetite embora evite carne e alguns tipos de alimentos. Adota às vezes um tom cínico e provocativo. A jovem secretária é Maria Kodama, com quem se casaria anos depois."

Por sugestão de Tancredo, o então jovem repórter aqui foi recebido por Borges e Maria Kodoma no apartamento do sétimo andar de um prédio com escadas em forma de caracol num subúrbio de Buenos Aires. "Estamos dirigindo uma coleção com 100 escritores. São 100 volumes, cada um com um prólogo. Escolhemos aqueles de uma grata leitura. Tive que viver 85 para cumprir esse objetivo.(...)  Também vou publicar um livro chamado Atlas, com colagens, fotografias, recordações e textos curtos. É um Atlas com muitas partes do mundo: Irlanda, Inglaterra, Japão, Egito, Grécia, Califórnia. Muitos países e lugares."

Borges foi uma espécie de padrinho internacional de Tancredo, cuja base cultural esteve presente em toda a campanha. Um mês antes de sua eleição (15 de janeiro), ele fez o Comício da Juventude na praia de Boa Viagem, em Recife, para se despedir da campanha. Artistas, roqueiros, celebridades e desportistas compareceram. Mas por pouco a vaca não foi pro brejo. A empolgação (verão tropical, loucuras e rock and roll) era tanta, que algumas mulheres foram atacadas na praia e a polícia teve que intervir. Tancredo ficou zangadíssimo com aquilo, deu uma bronca no neto-secretário Aécio Neves e chegou a falar mal da juventude roqueira. Nova crise. Teve que voltar atrás, porque na época o Roberto Medina estava lançando com uma tremenda mídia o primeiro Rock In Rio. Deixaram o dito pelo não dito, pois as reais tensões e futuros acordos eram focados para o desmonte da máquina burocrática da ditadura.

Enquanto isso, o futuro presidente adoecia em silêncio. Notávamos quando ele fazia cara do muxoxo vez por outra. Ao escolher seus ministros, dispensou na moral o então senador sociólogo Fernando Henrique Cardoso e ainda lhe aconselhou: "Diga aos jornalistas que o convidei, mas que você não aceitou." Assim era Tancredo. Dona Antônia, sua secretaria, mandava mais que a maioria dos ministros. Mas ele  não teve tempo de praticar a democracia-cultural. A doença o derrubou e Sarney, que já havia escrito "Marimbondos de Fogo", assumiu. Mas a base de um futuro Ministério da Cultura, hoje tão disputado, estava montada.

Foi nesse clima que Zé Aparecido nomeou seus dois principais assessores no MinC: um negro e um índio. O advogado Carlos Moura avançou no espaço e criou a Fundação Palmares. O cacique-piloto Marcos Terena trouxe a cultura indígena para a pauta antropológica brasileira. Tancredo adorava ouvir Fafá de Belém cantar. Mas a história foi tomando seu próprio rumo: Sarney dispensou Francisco Dornelles e inventou o Plano Cruzado, Aparecido foi nomeado governador de Brasília. O MinC passou pelas mãos e pelas cabeças de gente como o economista Celso Furtado e o acadêmico Antônio Houaiss. Depois, Collor derrotou Lula. Mas aí, já é outra história.


Luis Turiba é jornalista e poeta. Cobriu toda a campanha de Tancredo Neves e fez a viagem internacional com o presidente eleito em 1985. Editou em Brasília a revista Bric-a-Brac. Atualmente, mora no Rio de Janeiro onde publicou em 2014 o livro de poesia 'QTAIS" pela editora 7Letras

 



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

UM CORREDOR CULTURAL PARA O RIO-450


Por Luis Turiba


O centro do Rio de Janeiro tem todos os ingredientes para se constituir num dos maiores Corredores de Convivências de Culturas do planeta. Pense na Times Square, em Nova Iorque; na Plaza Mayor, em Madri; ou no calçadão do Centre George Pompidou, em Paris. Imaginou: o centro cultural do Rio pode ser ainda maior. Basta querer, mexer, transformar, conectar os entes.

Da Praça Mauá ao aeroporto Santos Dummond existe um corredor onde funcionam centros culturais, museus, escolas, bibliotecas, polos gastronômicos, teatros, rádios, clubes, sindicatos, blocos carnavalescos e auditórios. A cultura pulsa, mas não se articula para tornar-se um tsunami de inquietações.

Consideremos a Avenida Rio Branco como eixo central, começando na Praça Mauá, onde estão o MAR, o quase pronto Museu do Futuro, a sede da histórica Rádio Nacional, o morro da Conceição e a Pedra do Sal; até a Cinelândia, onde o Theatro Municipal brilha. Nessa legendária praça, centro político de grandes acontecimentos, ainda convivem a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Arte, a ABL e o MAM, vizinho do Santos Dummond que liga o Rio a SP, Beagá e Brasília.Do lado direito da Avenida Rio Branco, está o Clube de Engenharia com seus 130 anos de história e o Sindicato dos Jornalistas; isso sem falar da vizinha e agitada Lapa, com dezenas de espaços musicais; e a nova Praça Tiradentes. Do outro lado da calçada, no corredor rumo à Praça XV, onde circulam diariamente quase dois milhões de cariocas (incluindo os que moram em Niterói); vamos encontrar magnificamente espalhados, quase formando um quadrado de vida própria, o CCBB, a Casa Brasil-França, o CCECT, a Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Caminhando ali por trás, vamos encontrar um dos maiores polos gastronômicos do Centro, com dezenas de restaurantes, bares e cafés entre a Candelária e a Praça XV. Nesse mesmo contexto está o histórico Passo Imperial  e ao seu lado a sede da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), localizada em um dos mais simbólicos palácios  que os colonizadores portugueses nos deixaram. A ALERJ está geograficamente no centro desse desarticulado Centro de Convivências e pode funcionar como um sol, iluminando e unindo essa galáxia de cultura, arte, conhecimento e lazer. Pela sua tradição e forca politica, pode muito bem plugar todos esses espacos para um Rio 450 Anos. E olha que não falamos da ABI, da OAB, dos espaços ligados ao SESC, SENAI, da Firjan. Vamos pensar nisso?

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MANOEL DE BARROS SE ETERNIZOU: AGORA É MUSGO

O POETA QUE VIROU MUSGO

Luis Turiba

 

Manoel de Barros agora é musgo. Ele sempre teve parentesco com garça. Como ele gostava de dizer: "palavras têm sedimentos, cópia de lodo, usos do povo, cheiros de infância, permanências por antros, ancestralidades, bostas de morcegos. Não vou encostar as palavras lesma, sapo, águas. Pois elas são meus espelhos."

Manoel pegou o trem do Pantanal rumo a eternidade. Águas agora são fêmeas de chão.

A entrevista que fizemos com ele para a Bric-a-Brac foi, talvez, meu mais importante trabalho jornalístico. Ele era um poema-silêncio. Quase um ano de convencimento. Depois, seis meses de troca de cartas. Visitamos o Poeta por três ou quatro vezes em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Ele nos apresentou – Resa, João Borges e eu – o famoso Caldo de Piranha com muito uísque dos bons. Muita conversa e Manoel adorava mentir. Contava que esteve, na sua juventude, com Noel Rosa na Lapa. Parecia coisa de filme de Wood Allen. Farrista, risonho, adorava uma piada.

Mas em público, virava lesma, caramujo, parede. A última vez que nos vimos foi no final do século passado, numa tarde em sua casa, onde levei o então ministro Gilberto Gil para conhece-lo. Dona Stela fez uns petiscos e conversaram muito. Documentei isso em vídeo:

"Oi Gil… quanto prazer tê-lo em casa. Mas estou recebendo aqui o poeta e não o ministro."

Esperto, foi Manoel de Barros quem tratou logo de quebrar o protocolo. Trouxe o ministro-cantor para o mundo das palavras. Gil, barroco-baiano, aceitou e tocou em frente.

"O prazer é todo meu, Manoel. Fazia tempo que buscava este encontro. Sua prosa poética me encanta, está na mesma margem da de Guimarães Rosa."

Manoel de Barros se orgulhou. Aos 88 anos, cabeleira branquinha como as garças do Pantanal, jeito de passarinho tímido, foi receber o ministro Gilberto Gil no portão de entrada da sua casa na pacata Rua Piratininga, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Estava acompanhado de Dona Stella, sua mulher, da filha e de amigos.

O ministro-poeta também esperava por este encontro há algum tempo. Tinha vontade de conhecer e papear com seu colega das águas pantaneiras. As duas tentativas anteriores haviam fracassado. Manoel não pode comparecer à Brasília para receber a Medalha da Ordem do Mérito Cultural de 2004, outorgada pelo presidente Lula e pelo ministro da Cultura. Nem tampouco a uma estada do ministro Gil à cidade de Corumbá. Andava dodói, mas já voltou à ativa.
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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O ELEITOR DESCONSTRUÍDO

Luis Turiba*

 

Desconstrução. Ninguém escapou dela. Nós, eleitores, também fomos totalmente desconstruídos pelo virulento tsunami eleitoral que o Brasil acaba de viver.

Mesmo reservando-se, todos fomos atingidos pelos seus ecos e efeitos dessa onda como pedestres distraídos em meio a um tiroteio de balas de prata perdidas . Não há ciência que explica tal dinâmica. A história ainda se redesenha aos nossos pés. As fendas são profundas, os abismos perigosos, os atalhos tenebrosos. Os brasileiros saíram quase nocauteados desse ringue.

Estamos aos cacos e tentamos agora juntá-los. Vitoriosos e derrotados, pois são cacos de certezas e incertezas; de sonhos e pesadelos; de confianças, promessas, medos, mágoas e ilusões. Cacos políticos e ideológicos; de marketing e malandragens; de dívidas e compromissos. E nem toda cola-tudo, cola tudo.

Sim, o PT venceu. Dilma foi reeleita, é a nossa legítima presidenta por mais quatro anos. E daí? Isso é o lado óbvio ululante da história. Aos vencedores, as batatas. Aos derrotados, o choro livre. A democracia escolheu o seu projeto para o país. Mas a ficha ainda caiu verdadeiramente.

São muitas as contas a fazer de todos os lados, há muitos feridos a recolher nos diversos campos de batalha. Afinal, participamos de  uma espécie de MMA eleitoral, onde bater do joelho pra cima, com rabo de arraia e dedo no olho, se tornou algo tão corriqueiro como não se beber um copo de água em São Paulo. Sem inocentes nem delicadezas, reinventamos a lei nazista na comunicação tropicalista: mentira + meia mentira + mentira em dobro = quase verdade falsa.

Foi uma eleição clip-pesada. Nem bem a corrida começou, caiu avião. Dentro dele um candidato da esperança nordestina. E até agora, ninguém explicou direito essa tragédia – mesmo sabendo que tragédias não se explicam. Das cinzas, surge uma candidatura santificada por novas ideias e cabeças. Havia algo de novo no ar, além do clássico FlaxFlu político que se repete há 20 anos. Marina se pintou, se enfeitou mas não colou. Foi desconstruída em pleno vôo com requintes de cinismo e sordidez.

Dizem que em política não há traição: há rearranjos. Desarranja daqui, rearranja dali, de novo na pauta do país o antigo e conhecido clássico Tucanos versus Petistas, os vermelhos contra os azuis. Palavras ganharam novos significados, espaços e múltiplos usos: aparelhamentos, pobres, ricos, social, corrupção, mudança, inflação, educação.

E todos nós caímos dentro do ringue cibernético da web. Afora os políticos, famílias se dividiram, casais se separaram, primos contra primos; tios versus cunhados; amizades se desfizeram. Até a nossa maior empresa, orgulho nacional, a Petrobras, passa por acusações gravíssimas. Nesse processo sedento de poder, todos nós xingamos e dançamos como cegos de ilusão no baile autofágico da desconstrução.

Somos 141 milhões de eleitores batendo títulos e miolos. Sete milhões não votaram, 30 milhões anularam o voto. Quem analisa isso? Ou 37 milhões não têm nenhuma importância? O país ficou geograficamente cortado. No Norte/Nordeste, os vermelhos. Do sudeste para baixo, os azuis. Como reconstruir nossa geografia tropical? Como remisturar as cores vivas?

Sábia e tranquila, a líder maior da Dilma estendeu a bandeira branca de Oxalá no meio do terreiro e pediu diálogo. Aécio Neves, com sua capa de 50 milhões de votos, também falou em recosturar a unidade nacional. Presidente eleita e líder da oposição, desanuviam os ânimos. Um nova e histórica peleja se descortina no horizonte. Reforma política e mudanças generalizadas. Amigo meu, Nico do Cavaco, fez um samba há anos atrás, para o Suvaco do Cristo, onde antevia: "Oh venham ver/ Oh venham ver Vera Cruz/ A luta dos peles vermelhas/ Contra os casacos azuis."

Agora é o momento de acender uma vela de sete dias ao eleitor desconstruído. O poeta Torquato Neto escreveu e Gilberto Gil cantou no tropicalismo, quando a ditadura prendia e torturava brasileiros, entre os quais a presidente Dilma Rousseff: "Eu brasileiro confesso/ minha culpa meu pecado/ meu sonho desesperado/ meu bem guardado segredo/ minha aflição." Ao contrário da canção, aqui não é o fim do mundo, mas estivemos bem próximo. Respirar fundo e se reconstruir - eis a missão.