quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

TANCREDO NEVES, CULTURA E A NOVA REPÚBLICA


Luis Turiba

 

Foi Tancredo Neves quem me apresentou a Jorge Luís Borges. Isso em fevereiro de 1986, Buenos Aires, última escala do giro internacional que o então presidente civil eleito (pelo Colégio Eleitoral) fez ao mundo civilizado para apresentar ao papa e a governantes aliados - Portugal, Itália, França, EUA, México e Argentina - o novo Brasil que nascia depois de 21 anos de ditadura militar. 

A ditadura foi derrubada com o povo nas ruas e o pelo voto indireto. A este movimento chamou-se Nova República e se concretizou com um viés cultural. A velha raposa mineira tinha um compromisso político com pensadores, acadêmicos e intelectuais que se engajaram na sua campanha contra o governista Paulo Maluf. O deputado José Aparecido seria seu Ministro da Cultura, uma nova pasta criada para os artistas no processo de redemocratização. 

No seu livro "Diário de Bordo", o embaixador Rubem Ricupero, que acompanhou Tancredo Neves na histórica viagem internacional , assim descreve o encontro do Bruxo com a Mago argentino: "Borges está quase completamente cego e é acompanhado por uma jovem secretária de nome asiático [...]. Com 84 anos, parece relativamente bem, come com certo apetite embora evite carne e alguns tipos de alimentos. Adota às vezes um tom cínico e provocativo. A jovem secretária é Maria Kodama, com quem se casaria anos depois."

Por sugestão de Tancredo, o então jovem repórter aqui foi recebido por Borges e Maria Kodoma no apartamento do sétimo andar de um prédio com escadas em forma de caracol num subúrbio de Buenos Aires. "Estamos dirigindo uma coleção com 100 escritores. São 100 volumes, cada um com um prólogo. Escolhemos aqueles de uma grata leitura. Tive que viver 85 para cumprir esse objetivo.(...)  Também vou publicar um livro chamado Atlas, com colagens, fotografias, recordações e textos curtos. É um Atlas com muitas partes do mundo: Irlanda, Inglaterra, Japão, Egito, Grécia, Califórnia. Muitos países e lugares."

Borges foi uma espécie de padrinho internacional de Tancredo, cuja base cultural esteve presente em toda a campanha. Um mês antes de sua eleição (15 de janeiro), ele fez o Comício da Juventude na praia de Boa Viagem, em Recife, para se despedir da campanha. Artistas, roqueiros, celebridades e desportistas compareceram. Mas por pouco a vaca não foi pro brejo. A empolgação (verão tropical, loucuras e rock and roll) era tanta, que algumas mulheres foram atacadas na praia e a polícia teve que intervir. Tancredo ficou zangadíssimo com aquilo, deu uma bronca no neto-secretário Aécio Neves e chegou a falar mal da juventude roqueira. Nova crise. Teve que voltar atrás, porque na época o Roberto Medina estava lançando com uma tremenda mídia o primeiro Rock In Rio. Deixaram o dito pelo não dito, pois as reais tensões e futuros acordos eram focados para o desmonte da máquina burocrática da ditadura.

Enquanto isso, o futuro presidente adoecia em silêncio. Notávamos quando ele fazia cara do muxoxo vez por outra. Ao escolher seus ministros, dispensou na moral o então senador sociólogo Fernando Henrique Cardoso e ainda lhe aconselhou: "Diga aos jornalistas que o convidei, mas que você não aceitou." Assim era Tancredo. Dona Antônia, sua secretaria, mandava mais que a maioria dos ministros. Mas ele  não teve tempo de praticar a democracia-cultural. A doença o derrubou e Sarney, que já havia escrito "Marimbondos de Fogo", assumiu. Mas a base de um futuro Ministério da Cultura, hoje tão disputado, estava montada.

Foi nesse clima que Zé Aparecido nomeou seus dois principais assessores no MinC: um negro e um índio. O advogado Carlos Moura avançou no espaço e criou a Fundação Palmares. O cacique-piloto Marcos Terena trouxe a cultura indígena para a pauta antropológica brasileira. Tancredo adorava ouvir Fafá de Belém cantar. Mas a história foi tomando seu próprio rumo: Sarney dispensou Francisco Dornelles e inventou o Plano Cruzado, Aparecido foi nomeado governador de Brasília. O MinC passou pelas mãos e pelas cabeças de gente como o economista Celso Furtado e o acadêmico Antônio Houaiss. Depois, Collor derrotou Lula. Mas aí, já é outra história.


Luis Turiba é jornalista e poeta. Cobriu toda a campanha de Tancredo Neves e fez a viagem internacional com o presidente eleito em 1985. Editou em Brasília a revista Bric-a-Brac. Atualmente, mora no Rio de Janeiro onde publicou em 2014 o livro de poesia 'QTAIS" pela editora 7Letras

 



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

UM CORREDOR CULTURAL PARA O RIO-450


Por Luis Turiba


O centro do Rio de Janeiro tem todos os ingredientes para se constituir num dos maiores Corredores de Convivências de Culturas do planeta. Pense na Times Square, em Nova Iorque; na Plaza Mayor, em Madri; ou no calçadão do Centre George Pompidou, em Paris. Imaginou: o centro cultural do Rio pode ser ainda maior. Basta querer, mexer, transformar, conectar os entes.

Da Praça Mauá ao aeroporto Santos Dummond existe um corredor onde funcionam centros culturais, museus, escolas, bibliotecas, polos gastronômicos, teatros, rádios, clubes, sindicatos, blocos carnavalescos e auditórios. A cultura pulsa, mas não se articula para tornar-se um tsunami de inquietações.

Consideremos a Avenida Rio Branco como eixo central, começando na Praça Mauá, onde estão o MAR, o quase pronto Museu do Futuro, a sede da histórica Rádio Nacional, o morro da Conceição e a Pedra do Sal; até a Cinelândia, onde o Theatro Municipal brilha. Nessa legendária praça, centro político de grandes acontecimentos, ainda convivem a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Arte, a ABL e o MAM, vizinho do Santos Dummond que liga o Rio a SP, Beagá e Brasília.Do lado direito da Avenida Rio Branco, está o Clube de Engenharia com seus 130 anos de história e o Sindicato dos Jornalistas; isso sem falar da vizinha e agitada Lapa, com dezenas de espaços musicais; e a nova Praça Tiradentes. Do outro lado da calçada, no corredor rumo à Praça XV, onde circulam diariamente quase dois milhões de cariocas (incluindo os que moram em Niterói); vamos encontrar magnificamente espalhados, quase formando um quadrado de vida própria, o CCBB, a Casa Brasil-França, o CCECT, a Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Caminhando ali por trás, vamos encontrar um dos maiores polos gastronômicos do Centro, com dezenas de restaurantes, bares e cafés entre a Candelária e a Praça XV. Nesse mesmo contexto está o histórico Passo Imperial  e ao seu lado a sede da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), localizada em um dos mais simbólicos palácios  que os colonizadores portugueses nos deixaram. A ALERJ está geograficamente no centro desse desarticulado Centro de Convivências e pode funcionar como um sol, iluminando e unindo essa galáxia de cultura, arte, conhecimento e lazer. Pela sua tradição e forca politica, pode muito bem plugar todos esses espacos para um Rio 450 Anos. E olha que não falamos da ABI, da OAB, dos espaços ligados ao SESC, SENAI, da Firjan. Vamos pensar nisso?

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MANOEL DE BARROS SE ETERNIZOU: AGORA É MUSGO

O POETA QUE VIROU MUSGO

Luis Turiba

 

Manoel de Barros agora é musgo. Ele sempre teve parentesco com garça. Como ele gostava de dizer: "palavras têm sedimentos, cópia de lodo, usos do povo, cheiros de infância, permanências por antros, ancestralidades, bostas de morcegos. Não vou encostar as palavras lesma, sapo, águas. Pois elas são meus espelhos."

Manoel pegou o trem do Pantanal rumo a eternidade. Águas agora são fêmeas de chão.

A entrevista que fizemos com ele para a Bric-a-Brac foi, talvez, meu mais importante trabalho jornalístico. Ele era um poema-silêncio. Quase um ano de convencimento. Depois, seis meses de troca de cartas. Visitamos o Poeta por três ou quatro vezes em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Ele nos apresentou – Resa, João Borges e eu – o famoso Caldo de Piranha com muito uísque dos bons. Muita conversa e Manoel adorava mentir. Contava que esteve, na sua juventude, com Noel Rosa na Lapa. Parecia coisa de filme de Wood Allen. Farrista, risonho, adorava uma piada.

Mas em público, virava lesma, caramujo, parede. A última vez que nos vimos foi no final do século passado, numa tarde em sua casa, onde levei o então ministro Gilberto Gil para conhece-lo. Dona Stela fez uns petiscos e conversaram muito. Documentei isso em vídeo:

"Oi Gil… quanto prazer tê-lo em casa. Mas estou recebendo aqui o poeta e não o ministro."

Esperto, foi Manoel de Barros quem tratou logo de quebrar o protocolo. Trouxe o ministro-cantor para o mundo das palavras. Gil, barroco-baiano, aceitou e tocou em frente.

"O prazer é todo meu, Manoel. Fazia tempo que buscava este encontro. Sua prosa poética me encanta, está na mesma margem da de Guimarães Rosa."

Manoel de Barros se orgulhou. Aos 88 anos, cabeleira branquinha como as garças do Pantanal, jeito de passarinho tímido, foi receber o ministro Gilberto Gil no portão de entrada da sua casa na pacata Rua Piratininga, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Estava acompanhado de Dona Stella, sua mulher, da filha e de amigos.

O ministro-poeta também esperava por este encontro há algum tempo. Tinha vontade de conhecer e papear com seu colega das águas pantaneiras. As duas tentativas anteriores haviam fracassado. Manoel não pode comparecer à Brasília para receber a Medalha da Ordem do Mérito Cultural de 2004, outorgada pelo presidente Lula e pelo ministro da Cultura. Nem tampouco a uma estada do ministro Gil à cidade de Corumbá. Andava dodói, mas já voltou à ativa.
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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O ELEITOR DESCONSTRUÍDO

Luis Turiba*

 

Desconstrução. Ninguém escapou dela. Nós, eleitores, também fomos totalmente desconstruídos pelo virulento tsunami eleitoral que o Brasil acaba de viver.

Mesmo reservando-se, todos fomos atingidos pelos seus ecos e efeitos dessa onda como pedestres distraídos em meio a um tiroteio de balas de prata perdidas . Não há ciência que explica tal dinâmica. A história ainda se redesenha aos nossos pés. As fendas são profundas, os abismos perigosos, os atalhos tenebrosos. Os brasileiros saíram quase nocauteados desse ringue.

Estamos aos cacos e tentamos agora juntá-los. Vitoriosos e derrotados, pois são cacos de certezas e incertezas; de sonhos e pesadelos; de confianças, promessas, medos, mágoas e ilusões. Cacos políticos e ideológicos; de marketing e malandragens; de dívidas e compromissos. E nem toda cola-tudo, cola tudo.

Sim, o PT venceu. Dilma foi reeleita, é a nossa legítima presidenta por mais quatro anos. E daí? Isso é o lado óbvio ululante da história. Aos vencedores, as batatas. Aos derrotados, o choro livre. A democracia escolheu o seu projeto para o país. Mas a ficha ainda caiu verdadeiramente.

São muitas as contas a fazer de todos os lados, há muitos feridos a recolher nos diversos campos de batalha. Afinal, participamos de  uma espécie de MMA eleitoral, onde bater do joelho pra cima, com rabo de arraia e dedo no olho, se tornou algo tão corriqueiro como não se beber um copo de água em São Paulo. Sem inocentes nem delicadezas, reinventamos a lei nazista na comunicação tropicalista: mentira + meia mentira + mentira em dobro = quase verdade falsa.

Foi uma eleição clip-pesada. Nem bem a corrida começou, caiu avião. Dentro dele um candidato da esperança nordestina. E até agora, ninguém explicou direito essa tragédia – mesmo sabendo que tragédias não se explicam. Das cinzas, surge uma candidatura santificada por novas ideias e cabeças. Havia algo de novo no ar, além do clássico FlaxFlu político que se repete há 20 anos. Marina se pintou, se enfeitou mas não colou. Foi desconstruída em pleno vôo com requintes de cinismo e sordidez.

Dizem que em política não há traição: há rearranjos. Desarranja daqui, rearranja dali, de novo na pauta do país o antigo e conhecido clássico Tucanos versus Petistas, os vermelhos contra os azuis. Palavras ganharam novos significados, espaços e múltiplos usos: aparelhamentos, pobres, ricos, social, corrupção, mudança, inflação, educação.

E todos nós caímos dentro do ringue cibernético da web. Afora os políticos, famílias se dividiram, casais se separaram, primos contra primos; tios versus cunhados; amizades se desfizeram. Até a nossa maior empresa, orgulho nacional, a Petrobras, passa por acusações gravíssimas. Nesse processo sedento de poder, todos nós xingamos e dançamos como cegos de ilusão no baile autofágico da desconstrução.

Somos 141 milhões de eleitores batendo títulos e miolos. Sete milhões não votaram, 30 milhões anularam o voto. Quem analisa isso? Ou 37 milhões não têm nenhuma importância? O país ficou geograficamente cortado. No Norte/Nordeste, os vermelhos. Do sudeste para baixo, os azuis. Como reconstruir nossa geografia tropical? Como remisturar as cores vivas?

Sábia e tranquila, a líder maior da Dilma estendeu a bandeira branca de Oxalá no meio do terreiro e pediu diálogo. Aécio Neves, com sua capa de 50 milhões de votos, também falou em recosturar a unidade nacional. Presidente eleita e líder da oposição, desanuviam os ânimos. Um nova e histórica peleja se descortina no horizonte. Reforma política e mudanças generalizadas. Amigo meu, Nico do Cavaco, fez um samba há anos atrás, para o Suvaco do Cristo, onde antevia: "Oh venham ver/ Oh venham ver Vera Cruz/ A luta dos peles vermelhas/ Contra os casacos azuis."

Agora é o momento de acender uma vela de sete dias ao eleitor desconstruído. O poeta Torquato Neto escreveu e Gilberto Gil cantou no tropicalismo, quando a ditadura prendia e torturava brasileiros, entre os quais a presidente Dilma Rousseff: "Eu brasileiro confesso/ minha culpa meu pecado/ meu sonho desesperado/ meu bem guardado segredo/ minha aflição." Ao contrário da canção, aqui não é o fim do mundo, mas estivemos bem próximo. Respirar fundo e se reconstruir - eis a missão.

 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O PULSAR DO PSIU POÉTICO

 Luis Turiba

 

Uma história que lembra um longo poema com seus variados sotaques. Um jogo desafiador de linguagens. Um caso a se estudar, se fazer contas e se contar contos, tantos foram os encontros concretos. Agora é o momento de se quebrar o silêncio e anunciar-se ao mundo das letras. Afinal, quantos "is" e quantos "us" cabem num Psiiiuuu que sibila poeticamente há quase 30 anos?

Exatamente em 1979, na cidade de Montes Claros, terra natal de Darcy Ribeiro e Cyro dos Anjos, localizada no norte de Minas, fronteira do cerrado com o sertão, a 455 quilômetros de Belo Horizonte; três jovens poetas - Aroldo Pereira, Mirna Mendes e Renilson Durães – criam o grupo cultural Transa Poética. Anos depois, inventaram um espaço para reunir Poetas Vivos.

"Psiu, a Poesia Chama". Foi o título que Aroldo Pereira criou enquanto participava de uma oficina coordenada por Ernesto Cardenal & Thiago de Mello, na UnB, em 1987, dentro FLAAC-Festival Latino Americano de Arte & Cultura. Nesse mesmo festival criei o verso "Ou a gente se Raoni/ Ou a gente se Sting".


De lá para cá, centenas de recitais e conferências; noites de autógrafos e espetáculos performáticos; músicas de todas os matizes.

O Psiu Poético acaba de viver a sua vigésima oitava edição. Daqui a dois anos, em 2016, o furdúncio de rimas, metáforas e estranhamentos completa 30 anos de pulsações. Um balzaquiano.

Apesar de local, é também nacional e transcendental. Não foram poucos os poetas aclamados que desfilaram em sua passarela. Mineiros como Adélia Prado e Adão Ventura; baianos como Waly Salomão e o tropicalista José Carlos Capinam. Veteranos como Thiago de Melo e Jorge Mautner; além Alice Ruiz, Nicolas Behr, Arnaldo Antunes.

O Psiu tem ritual. Ano pós ano, ocupa por 10 dias o centro cultural da cidade e lota todas as noites o auditório de 200 lugares com convidados, poetas, estudantes e professores da cidade. Já faz parte da tradição cultural mineira com patrocínio da Petrobras.

O evento transborda pela cidade. Ocupa praças, a rodoviária, escolas secundárias. Têm convênios com a Unimontes, que leva 200 alunos para seminários e trabalhos acadêmicos; Prefeitura Municipal, Secretaria Municipal de Esportes, Juventude, Lazer & Cultura.  A produção executiva é da Fulô. Um pulsante recital acontece no Mercado Municipal, onde poetas compartilham o espaço com aromas irresistíveis dos temperos mineiros.

Chega agora a adultez. Quer piscar seus faróis e anunciar-se nacionalmente como umas das grandes festas de poesia brasileira. Daí o TRIPSIU, a festa do trigésimo aniversário. Para tanto, firmar novos convênios e parcerias com outras faculdades e institutos de letras. Jogar o Psiu na rede via site multimídia. Transformar as acanhadas antologias em uma hiper-caixa Psiu. É o caso de se pensar em grande show com um artista nacional. Em rodas de conversas após as apresentações do Psiu deste 2014, essa pauta veio à tona. Poetas como Anand Rao, Jairo Fará, de São João del Rey; Ele Semog, do Rio; Walter Merije, além de mim, nós comprometeram a participar da empreitada. Mãos à obra! O Psiu de Montes Claros é um exemplo do bom momento da poesia brasileira que pulsa com integração e troca de experiências de linguagens. Salve o trintão!

 

 * Luis Turiba é poeta, autor de QTAIS, editora 7 Letras

 


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

TRÊS OU QUATRO HISTÓRIAS DE CHICO BUARQUE

 

Luis Turiba

"Ouça um bom conselho/ que lhe dou de graça/ inútil dormir/ que dor não passa"

 

Venho aqui como poeta falar de um outro poeta: somos todos Chico Buarque.

Consciente de que este é um conceito genérico, quase uma palavra de ordem, quem sabe título de poema, espero que algumas histórias que vou contar aqui possam iluminar ainda mais o artista Chico Buarque, na sua poética e musicalidade do dia a dia. Ele é um pouco de todos nós também.

Luz! Queremos luz. Nada mais justo. Tanto para o artista, que na essência de sua obra sempre optou pelo olhar e sentimento do outro e para o outro; como para nós, que nos orgulhamos de tê-lo como um atento e detalhista fotógrafo musical, e mais recentemente literário, de nós mesmo, que na barriga da miséria nascemos brasileiros.

E como é bom saber que todos somos um pouco Chico Buarque de Hollanda.

Digo isso salivando poesia pelos cantos da boca, agradecendo ao Instituto de Letras da Universidade de Brasília pela realização deste simpósio acadêmico sobre um compositor popular que transcendeu a todas as academias – musicais, literárias, políticas, futebolísticas. Em suma: 70 anos é pouco para uma obra tão transbordante.

Na roda viva que vivemos, todos aqui presentes e os que estão circundando e circulando por este campus universitário, território vivo e livre de Darcy Ribeiro, certamente já viveram, vivenciaram, presenciaram circunstâncias e episódios das personas e dos personagens de uma de suas 600 e tantas canções. Por isso, reafirmo: as histórias de Chico são nossas histórias.

Isso não é novo. Pego emprestado esse conceito de Tárik de Souza, um dos mais refinados críticos da MPB que a minha geração conheceu. Tárik usa um termo de Ezra Pound – "antena da raça" – para definir essa encarnação do coletivo na obra desse compositor popular. Abre aspas:

"Ninguém como ele na MPB contemporânea interpretou com tal sabedoria a fantasia "dos infelizes", "dos desvalidos", e cantou o que "anda nas cabeças, anda nas bocas".

A citação de Tárik está no artigo "O que não tem censura nem nunca terá" publicado originalmente no livro "O som nosso de cada dia" e depois republicado em um outro livro "Chico Buarque do Brasil", da Editora Garamond em parceria com a Biblioteca Nacional, organizado por Rinaldo de Fernandes para os festejos dos 60 anos do compositor. Um livro escrito há 10 anos que mantém sua atualidade. Nessa edição, inclusive, há um artigo do querido José Castello – O carrossel iluminado.

Por cantar o coletivo da nossa gente, Chico não é um compositor de certezas, embora tenha sido considerado uma unanimidade nacional no início da carreira, na primeira metade dos anos 60. Transformou-se alguns anos depois, com o avançar da sua obra rumo aos problemas sociais do país, no artista-inimigo número um da ditadura militar. Foi de todos, o mais censurado.

Nessa época, todos vimos a Banda passar pela Roda-Viva dos Desalentos. Fomos operários da construção dessa nação e quantos de nós morreram na contramão atrapalhando o tráfego: guris e pivetes, malandros e damas, rainhas e cafetões, traídos e traidores de amores e de todas as dores do mundo.

Correndo da cana-dura e das encruzilhadas da vida, seguimos na travessia do tempo, com ele sempre nos cantando e encantando. No masculino e no feminino. Quantos descuidos dessas moças para com esse anjo safado em tempos de delicadezas e barras pesadas. E elas não são poucas: Carolinas, Madalenas, Teresas, Ritas, Januárias, Cristinas, Bárbaras, Joanas, Anas, Luisas, Helenas, Lígias, Beatrizes. Iracemas, e até Silvias. Quem aqui nunca jogou bosta na Geni que atire o primeiro coquetel molotov feito por Nina numa noite de Moscou?

Sofremos na pele e na alma a censura e os horrores de uma ditadura que durou duas décadas e tivemos um retrato em branco e preto de um amor que volta sempre a enfeitiçar na desbotada parede de um lar de gente humilde no subúrbio da periferia.

Quanta sorte em tê-lo como fundo musical da nossa travessia. Chico contou nossas histórias como um bloco de vai passar num tempo-página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações. Com ele, o samba, nossa maior manifestação de identidade cultural, ganhou novos contornos. Foi um bloco de rua, ou de sujos como preferirem, tipo o Pacotão dos bons tempos, que revelou que "nossa pátria mãe tão distraída dormia sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações."

Enfim, Chico é um contador de histórias, não um historiador. Fazemos parte do seu mosaico de personas. Histórias onde o final não é feliz nem infeliz. Todas com suas insignificâncias, acontecências e incertezas. Histórias que rolam pelas tabelas e pelas cabeças. Mas Chico também tem as suas histórias.A primeira que quero contar aqui para vocês me foi segredada por seu parceiro e companheiro de geração Gilberto Gil, com quem tive a honra de trabalhar e conviver no Ministério da Cultura do primeiro governo Lula. O ex-ministro, por sinal, considera que Chico tem um papel "constituinte" da sua geração.

Gil e Chico se conheceram na época dos primeiros festivais da TV Record, nos idos de 65/66, num bar chamado Redondo, na Avenida Consolação, no centro de São Paulo, onde se encontravam artistas e intelectuais da época para criar e conspirar. Chico era estudante de Arquitetura da USP e Gil trainee da Gessy Lever na área de administração. Numa roda de violões, músicas e chopps, um mostrou ao outro canções inéditas que depois viriam a ser apresentadas nos festivais. Gil ficou impressionado com os sambas diferenciados daquele estudante e guardou boas impressões do moço de olhos cor de ardósia.

O tempo passou, Gil voltou para a Bahia para as festas de fim de ano com a família. Andando rumo ao elevador Lacerda, na cidade alta de Salvador, ele dá de cara de repente com um jovem cego, chapéu e óculos escuros, junto com duas outras moças, tocando violão e pedindo uma ajudinha. Aquele som e aquele jeito lhe soaram familiares e Gil parou para observar melhor a cena. Cismado, resolveu tirar a limpo a situação e chegou bem perto até conseguir identificar os olhos ardósia do cego de sotaque paulista. "Você aqui rapaz, dando uma de cego". Aí Chico gargalhou e respondeu: "Tô me virando pra conseguir algum para minhas férias."

Chico gosta de se misturar no povo. Embora tímido, adora andar pelas ruas das cidades. Quando está no Rio anda diariamente no Leblon, sempre com passadas largas, cabeça baixa, os pés "dez pras duas", sacudindo os braços.

A próxima história quem me contou foi a jornalista Regina Zappa que já escreveu pelo menos três livros sobre o nosso personagem. Essa história também está no livro já citado "Chico Buarque do Brasil", num artigo que Regina titulou como  "Vertigem".

"Já aconteceu de ele, divertidamente, encarnar suas próprias invenções, como no dia em que me deparei com um desleixado entregador de flores, diante da porta do prédio de uns amigos, onde eu ia para um almoço de aniversário. O motoqueiro de tênis, calça preta de moleton, camiseta escura e um capacete preto com um visor que escondia o rosto, esperava pacientemente que alguém abrisse a porta para entregar as flores. Perguntei se ele tinha tocado a campainha do terceiro andar e se já vinham abrir a porta. Fez que sim com a cabeça. Enquanto esperava, olhei a moto estacionada na calçada perto do portão, uma scooter de azul reluzente. Achei que aquilo não combinava muito com motoqueiro entregador de flores. Aí me deu um estalo. Era o Chico. Sabia que ele andava naquela época passeando incógnito pelas ruas do Rio, pilotando uma scooter azul e que ele tinha sido convidado para o almoço. Então aquele ali na minha frente com um vazo de orquídeas nas mãos, se passando por entregador de flores do aniversário, ao qual ele não compareceria, só podia ser o Chico.

"Chico é você?" A porta se abriu, ele entregou a flor, recebeu a gorjeta e saiu em direção a sua moto curvando-se de rir, deu um adeusinho e zarpou pela cidade, montado no anonimato, divertindo-se com a própria travessura".

Agora, a última história, que me é muito cara e me traz muitas saudades boas, pois envolve Dona Lourdes, uma mulher que não está mais entre nós, mas que viveu à frente de seu tempo. Dona Lourdes foi minha mãe e desde cedo me ensinou a amar a música, os Beatles e os Rolling Stones. Ela, alagoana, também transformou-se em personagem das histórias desse moço Chico.

Lourdes e Alderico Toribio, que fez parte da equipe do dicionarista Aurélio Buarque de Hollanda, foram morar no Recreio dos Bandeirantes, para além da Barra da Tijuca, bairro longínquo, muito mato e terreno baldio, na hoje superpopulosa Zona Oeste carioca.

 

Quando eles foram morar no Recreio, o bairro era realmente um desertão distante da Barra. Mamãe ficou logo amiga da vizinhança. Seu papo era irresistível. Naquele ambiente, se bem me lembro, moravam Fábio Júnior; o general-presidente (na época) João Figueiredo, que se recuperava da sua cirurgia cardíaca; e no quarteirão a frente estava o campo do Politheama, time do Chico Buarque.

Pois não é que Dona Lourdes se dava com todo mundo. Ela tinha gosto por fazer sucos, era sua paixão. Fazia suco de tudo. E quando o general Figueiredo passava em frente da sua casa fazendo caminhadas de recuperação cardíaca, ela lhe oferecia sucos de mangaba, de abacaxi com morango, de manga com gengibre, sabores exóticos da sua alquimia doméstica.

Com Chico fez amizade que durou anos. Ele lançava um LP e trazia pra ela autografado. Estão todos bem guardados. Também, a cada grande jogo que tinha no Politheama, ela levava sucos para todo mundo saborear no final. Consta a lenda que o Politheama jamais perdeu em casa. Mas mamãe não entendia nada de futebol. O que ela gostava mesmo era de fazer sucos para o Chico.

Um dia Chico lhe fez uma encomenda especial. "Vem um pessoal de fora jogar aqui. Posso lhe encomendar uns 10 sucos diferentes? Eles querem provar as frutas brasileiras. Tá aqui o dinheiro!"

Dona Lourdes, óbvio, não aceitou o dinheiro, mas no dia combinado levou num carrinho mais de 15 jarras de sucos diferentes e algumas misturas mágicas. Tinha até de jaca, jabuticaba, pitanga, amora, saputi. Terminado o jogo, os sucos de Dona Lourdes fizeram o maior sucesso com aqueles negros cabeludos.

À noite, por telefone, perguntei sobre o jogo. Inocentemente, ela me contou: "Filho, eram uns negros bonitos, com umas tranças cumpridas, que suaram muito com o calor do Rio. Adoraram os sucos, beberam tudo, não deixaram uma gota. Principalmente depois que fumavam uns cigarrinhos cheirosos e passavam de mão em mão".

Ou seja: Dona Lourdes, entre tantas coisas que realizou nesse mundão, saciou a larica de Bob Marley e sua banda The Wailers depois de uma pelada esfumaçada no campo do Politheama.  E por tabela, palavra tão utilizada no repertório buarqueano, acabou se transformando também numa personagem viva de uma das muitas histórias de Chico.

 

 


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

CHAMPANHE OU CACHAÇA?

Por André Gustavo Stumpf, Jornal de Brasília


Ninguém ainda decifrou o enigma chamado Marina Silva. Nascida em um seringal no Acre, Amazônia Ocidental, alfabetizada na adolescência, dona de uma carreira política interessante, duas vezes senadora da República, ministra importante no governo Lula, tem história e vivência na política. Não é noviça, embora seja jovem aos 56 anos. Sobreviveu às dificuldades naturais de quem nasce no lugar errado. O interior do Acre não é fácil para ninguém.

Ela ultrapassou com dificuldades o bombardeio cerrado promovido pelo Partido dos Trabalhadores para defender a candidata Dilma Rousseff. Jogaram tantas bombas na adversária que elas também explodiram junto aos petistas. Dilma subiu pouco nas pesquisas de opinião. Marina conservou-se no seu segundo lugar. Aécio somou mais alguns pontos na tabulação dos institutos de pesquisa de opinião.

Modelo - O governo Dilma já mostrou a que veio. Se o PT continuar no poder vai repetir os mesmos erros, porque a visão da presidente, sobretudo na área econômico-financeira, já está declarada. Ela enxerga o mundo por intermédio de lentes dos anos setenta do século passado. Foi o período da chamada substituição de importações – que teve por objetivo trazer mais empresas para o Brasil, defender as existentes por intermédio de proteção tarifária e esquecer de dar qualidade e bom preço ao consumidor brasileiro. O modelo se inspira também no tripé iniciada, muito lá atrás, por Getúlio Vargas, que contempla, um banco de fomento, no caso o BNDES, incentivo a empresas nacionais e controle político dos sindicatos. Quem criou essa fórmula foi, na verdade, Benito Mussolini, na Itália.

Não haverá novidades no eventual segundo governo Dilma. Ela vai conservar a maneira autocrática de governar. Parece personagem adequada para viver numa atmosfera soviética. Burocracia e poder juntos. Tudo muito lento, descolado da realidade e imposto ao povo pela publicidade oficial. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que se conservou íntegro e a salvo do aparelhamento ocorrido na Petrobras, mostrou que a desigualdade aumentou no país e o desemprego voltou a assombrar os trabalhadores. Especialistas dizem que a economia brasileira é como uma vaca a caminho do brejo. Vai chegar lá. Só depende da velocidade da vaca.

Deve ser por essa razão que a Bolsa de Valores brinca com os resultados das pesquisas de intenção de voto. Quando a candidata Dilma perde, as ações sobem de preço. Quando a petista melhora, as ações mergulham. Esse ente mítico chamado mercado, composto por investidores de todos os calibres, não confia na presidente da República. Empresários também não. O resultado é a falta de confiança no futuro, o sério problema da desindustrialização, custo Brasil em alta e, por último, inflação e desemprego. Nada disso aconteceu de uma semana para outra. Trata-se de um processo que ocorreu nos últimos dois ou três anos. Quem sustentou o contrário, perdeu. Até o otimista Guido Mantega, que tentou colorir o quadro cinza, perdeu o emprego. Foi demitido por antecipação.

Minas - Aécio Neves é o dono do projeto liberal do PSDB. Curioso é que o mineiro não conseguiu até agora falar diretamente para o eleitor. Ele foi tragado pelo denuncismo da campanha e se submeteu aos ditames do marketing eleitoral. Virou um candidato a procura do personagem. Os próprios mineiros não lhe estão concedendo vantagem esperada. Ele perde em Minas para Dilma Rousseff. Seu candidato, Pimenta da Veiga, está numa distância considerável do principal oponente, que é do PT. Aliás, em Minas é o único estado onde o Partido dos Trabalhadores pode ganhar a eleição para o governo. Perde em todo o país.

Marina continua a ser enigmática. Seu projeto de governo é um amontoado de propostas. Há para todos os gostos. Algumas pessoas à sua volta indicam tendências, mas ela não se mexeu até agora para indicar nenhum assessor ou conselheiro. É discretíssima e poucos a conhecem de perto. É reservada. Não permite brincadeiras, embora ao contrário da presidente Dilma, não seja grosseira. Trata-se de pessoa de bom trato. Tem sorte. Não tinha partido político. De repente, caiu em seu colo não apenas a legenda partidária, mas também uma candidatura pronta.

Restou o violento fogo de barragem promovido pelo marketing do Partido dos Trabalhadores. É bombardeio para destruir tudo que estiver vivo no território adversário. Além de manter o poder, os petistas que estão há doze anos no poder não querem retornar a vida de antes. Eles desfrutam das mordomias governamentais e dos bons empregos. Deixar de usufruir essa doce vida é difícil. Então vale tudo para se manter no poder e permanecer em posição de mando. O líder do MST já prometeu invasões todos os dias, todos os momentos, caso a presidente Dilma não seja reeleita.

O PT na oposição, depois de ter experimentado o gosto de exercer o poder, será ainda mais rancoroso. Vai ser uma oposição devastadora. Pior se a presidente for a Marina, que já foi do PT, integrou o ministério do ex-presidente Lula e não esconde suas desavenças pessoais com Dilma Rousseff. No fundo, é uma violenta briga das mulheres, cada uma com sua luta, sua vontade e sua fibra. Nenhuma das duas é ingênua. Até agora, no segundo turno Marina, leva. Mas nada indica que este é o cenário definitivo. O bombardeio não vai parar até que a última luz se apague no território inimigo seja destruído. É vida ou morte. Emprego ou desemprego. Champanhe ou cachaça.