quarta-feira, 28 de outubro de 2009

CECÍLIA MEIRELES PINTOU O “BATUQUE, O SAMBA E A MACUMBA”




Por Luis Turiba

Diga aí, amigo e amiga leitora deste mal traçado blog, com toda sinceridade do seu intelecto: você sabia que Cecília Meireles foi uma magnífica pintora aquarelista? Pois se não tinha conhecimento, então pode acreditar que realmente foi.
A autora do clássico e histórico poema “Romanceiro da Inconfidência”, considera uma das mais importantes poetas da língua portuguesa, se dedicava além das palavras e da música, também às pesquisas antropológicas e folclóricas e consequentemente às pinturas de personagens do mundo afro-brasileiro da primeira metade do século passado.
Descobri isso absolutamente num lance de dados; ou seja: por mero acaso. Garimpando raridades na Feira de Antiguidades do MASP, num frio e lindo domingo, em plena na Avenida Paulista, lá pelo mês de setembro, me deparei com o livro “Batuque, Samba, and Macumba, drawings of Gestures and Rhytham 1926 – 1934”, ou em português: “Batuque, Samba e Macumba, estudos de gestos, de ritmo e da indumentária do samba.” Paixão à primeira vista. Meu astral estava muito bem acompanhado.
Depois de uma longa negociação com o livreiro, consegui o livro. Ao chegar em Brasília, fui logo mostrar a preciosidade ao mano-designer Resa, que também se apaixonou pela obra e terminou por ganhá-la de presente em seu último aniversário.
Com 105 páginas, grandão, todo em couchê, escrito em inglês, o livro foi editado pela Funarte no governo do general Figueiredo, em 1983. Era secretário da Cultura, Marcos Vilaça, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) e ex-ministro do TCU. Patrocinado pelo ex-Banco Crefisul, para presentear os intelectuais portugueses durante uma visita do nosso presidente-general àquele país.
Os desenhos são do outro mundo de tão fantasticamente reais. Há um estudo crítico de Lélia Gontijo Soares, então diretora do Instituto Nacional de Folclore e um estupendo glossário de termos, referências, datas, etc.
Aliás, o livro foi publicado para comemorar os 50 Anos da exposição que Cecília Meireles fez de seus desenhos sobre samba, batuque e macumba no Rio de Janeiro.
Sobre essa exposição de 1933, há um recorte de jornal da época com a notícia. É uma “Nota de Arte” que diz: “Como já é do conhecimento público, Pró-Arte realiza no sábado de Aleluia uma “Noite de Samba” com o concurso da Escola Portella. Ao mesmo tempo, realizar-se-á a abertura de uma interessantíssima exposição de Cecília Meirelles, fixando os rytmos do samba atravez de uma grande collecção de desenhos, aquarellas e estudos, bem como figuras typicas da bahiana e do bamba. Certamente será interessante a comparação entre a concepção artística da original pintora e os modelos vivos do samba, cantado e dançado pelos membros daquella escola.” Não há datas nem o nome do jornal onde foi publico tal notícia, mas a nota saiu com uma foto-boneco de Cecília e fala de “aspectos interessantíssimos do nosso “folk lóre”, surprehendendo com agilidade, cores e movimentos.” Há lindas fotos da poeta na exposição de 1933.
Em outra página do livro, uma nova notícia, desta vez no jornal “A Noite”, de 1951, comentando a instalação do I Congresso Brasileiro de Folclore, no Palácio do Itamaraty. Nesta notícia, uma entrevista com Cecília onde ela defende as artes populares contra a industrialização.
“A proteção à arte popular é assunto dos mais úteis e urgentes. Na verdade, também dos mais difíceis, pois , no estado em que as coisas se encontram, a tendência é convertê-la em indústria – exatamente o oposto do que se deve aconselhar”, diz a poeta em uma das respostas.
Os negros e as negras de Cecília são exuberantes, esguios, lábios carnudos e vermelhos, rebolam, dançam e cantam. Batucam e tocam violão. São reis e rainhas vindos da África, dos quilombos, das guerras pelo interior do Brasil. No carnaval, nos terreiros, na quebradas, eles reinventam a vida, o reinado, a alegria de fazer do Brasil um país negromestiço. Num dos desenhos mais geniais, onde a poeta retrata com fidelidade um bloco puxado pelo cordão, lesse no seu estandarte: “Broco Frô du Má, Saúda i Pedi pazajin”. Quer poesia melhor do que essa: a contribuição milionário de todos os erros pregada pelos modernistas.

5 comentários:

Juvenal disse...

Turiba, du caralho.
Vou enviar pro Jotabe
Só fiquei triste porque vc esteve aqui e nem me ligou.
abs
Juvenal

Almira disse...

Salve Turiba!
vida longa para suas escavações.

Anônimo disse...

Turiiba que lindeza tua descoberta nos "bouquinistes" do Masp! e nos colocar em contato com esta genialidade da Cecilia Meireles, pura paixão toda tua, compartilho alegremente!

Amneres disse...

Querido Turiba,

Realmente, uma descoberta surpreendente essa dos preciosos estudos e desenhos de nossa africanidade, vista pelos olhos da genial e sensibilíssima Cecília. Fiquei gratamente surpresa. Belas escavações, parabéns.
Beijo,
Amneres

Anônimo disse...

Turiba, acho que voce é mesmo um Sherlock... NINGUEM sabia que a a Cecilia Meirelles era tambem desenhista. Por falar em Meirelles... quem foi que assistiu a Primeira Missa do Brasil pitando um cachimbinho de bambu ?... está muito escondinho no fundo escuro da mata no canto esquerdo do quadro. Abrzz Zuca