domingo, 23 de maio de 2010

TRÊS POEMAS BRASILEIROS

Pneumotórax
 
Manuel Bandeira
 
 
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
 
Mandou chamar o médico:
 
- Diga trinta e três.
- Trinta e três...trinta e três...trinta e três...
- Respire.
 
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- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
 
 
Soneto de fidelidade
 
Vinícius de Moraes
 
 
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face de maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
 
 
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
 
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
 
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
 
 
 
 
Cogito
 
Torquato Neto
 
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que inicei
na medida do impossível
 
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
 
eu sou como eu sou
presente desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
 
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
 
 
 
 
 
 
 

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