segunda-feira, 20 de abril de 2009

BRASÍLIA, A UTOPIA DOS 50 ANOS


Luis Turiba

Como diria o filósofo do botequim da minha quadra: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Assim sendo, há duas maneiras básicas de pensarmos a comemoração dos 50 anos de Brasília em 21 de abril de 2010, portanto daqui a um ano.

A primeira é fazer um festão maior que céu de Brasília, bem global, olímpica e holywoodiana, com Xuxa, Ivete Sangalo, Roberto Carlos, Zezé de Camargo e Luciano, U2, Rolling Stones e quem mais vier. Tudo, de preferência, comandado por um animador televisivo de grande apelo popular. Essa fórmula já existe, está sendo aplicada com sucesso há três anos e não falha: um milhão de pessoas na Esplanada, todos cantando, dançando, se divertindo e depois voltando para suas casas felizes e orgulhosas por terem assistidos a seus ídolos.

A outra maneira é transformarmos o primeiro meio século da mais moderna cidade brasileira, num reencontro histórico, definitivo e cultural de Brasília com o Brasil e os demais países e culturas do planeta. Afinal, a nova capital nasceu com o destino de ser grande, bem maior do que o céu que a envolve. Portanto, não vamos pedir um café pequeno.

Pensando bem, poderíamos até fazer uma coisa e outra. Não há prejuízo e pode haver um acoplamento de ações. O fundamental, porém, é que não podemos perder a oportunidade de iniciarmos – governos, universidades, instituições empresariais, sindicatos, classe artística, intelectuais da mídia e demais pensadores – um processo de reencontro de Brasília com a sua utopia, suas raízes brasileiramente ousadas, sua memória e sua história. Vamos tirar de uma vez por todas essa pecha de que Brasília é símbolo da corrupção e dos péssimos políticos que os Estados enviam para cá.

Nada disso! Brasília é fruto do empreendimento da vanguarda modernista brasileira. JK a concebeu (inconscientemente, é claro) ao criar, na década de 40, quando era prefeito de Belo Horizonte, o Conjunto da Pampulha como uma resposta de Minas Gerais à Semana de Arte Moderna de 22, realizada em São Paulo. Antes de ser um Presidente Bossa Nova, JK foi um modernista mineiro. É deste ninho que vem Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Israel Pinheiro. Pode ser que eu esteja escrevendo bobagens, mas nesse caso, o Cel. Afonso Heliodoro tem todo o direito de me corrigir.

O Brasil contemporâneo nasceu com Brasília. A nova capital era a meta síntese de um governo nacionalista que se proponha a realizar 50 anos em cinco. Uma cidade moderna construída em 1000 dias. Cidade irmã da Bossa Nova, da Poesia Concreta, do Cinema Novo, da indústria automobilística, de Marta Rocha e da Seleção Brasileira campeã do mundo na Suécia com Didi, Pelé e o mágico Garrincha.

Ou seja: Brasília tem pedrigree. Com a sua construção, nós, brasileiros, perdemos o complexo de vira-lata. Sua memória, portanto, precisa ser celebrada – e não tão somente festejada com a massa cantando “Ilá Ilá Iê... Ô Ô Ô!” em frente ao Congresso Nacional. Seu cinqüentenário é uma excelente oportunidade de recuperarmos, através de projetos culturais comprometidos e de vanguarda, a memória viva dos anos 60 e 70.

Brasília 50 anos, já! Essa celebração deve começar imediatamente após a festa dos 49 anos. Se possível, dia 22 de Abril, data também simbólica, quando comemoramos a descoberta do Brasil.
Não há como fugir desse processo cultural. A cidade está cheia de projetos vitoriosos que darão sustentação a essas comemorações e reflexões por um ano inteiro. Rodando a roleta aleatoriamente, podemos sortear cinco ou seis desses projetos que servem de exemplo. Vamos lá: Festival de Cinema, Clube do Choro, Cena Contemporânea, Porão do Rock, Bienal da Poesia. Pronto, citei apenas os que vieram à cabeça.


Por último: Brasília precisa ser exportada, vendida lá fora. É necessário montarmos projetos que exponham as curvas e as paralelas da nossa cidade no eixo Rio-São Paulo, em Paris, em Nova Iorque, Madri e Tóquio.

Enfim, as idéias são muitas e o tempo é curto. Mãos à obra, pois quem sabe faz a hora. Brasília merece muito mais que uma multidão dançando axé na Esplanada dos Ministérios.

6 comentários:

Juvenal disse...

Turiba
A imagem mais marcante de Brasília que tenho é a foto do Fontenelle com duas linhas feitas por tratores cortando o cerrado. O X da questão que foi o início da Capital da Esperança. Me proponho a desenvolver um projeto para as comemorações dos 50 anos de Brasília que traduza a importancia da fotografia neste meio século.
Juvenal Pereira

nicolasblog disse...

DISCURSO DE ARTISTA É ARTE. DEIXEMOS O BLÁ-BLÁ-BLÁ PARA OS POLITICOS. PROPONHO QUE DURANTE A COMEMORAÇÃO DOS 50 ANOS DE BRASILIA SE FAÇA UMA "VIRADA CULTURAL" COM 50 ( CINQUENTA! ) HORAS DE APRESENTAÇÕES MUSICAIS, POETICAS, AUDIO-VISUAIS, EXPERIMENTAIS E TAIS. SÃO DOIS DIAS E MAIS 2 HORAS SEM SAIR DE CIMA. DO PALCO. O PALCO É A CIDADE TODA.
NICOLAS BEHR, POETA

cristina disse...

no ano passado, nós (eu, nilceia e eládio) fizemos um projeto para o ccbb (claro que não foi aprovado pois acharam o custo muito alto...)"50 anos da musica de brasília¨" a ideia é fazer vários shows multimídia, com entrevistas, fotos, videos, depoimentos etc.
isso pode e deverá ser documentado atraves de um livro, gravação de cd, filme...
acho que nós temos obrigação de fazer este registro.
cristina roberto

ALEXANDRE MARINO disse...

Turiba, a utopia é a meta, mas o projeto tem que ser real. Acho uma estupidez essa festa para um milhão de pessoas. Não vejo sentido nisso. O governo deveria se preocupar em transformar Brasília numa potência cultural, mas não entende o que é isso. Estimular e investir na arte, na criação artística, em gerar interesse pelas artes e consequentemente criar um caldo que faça nascer novos artistas, em todas as áreas. Criem galerias de artes, espaços para apresentações musicais, oficinas de literatura. Mas sem essa mentalidade faraônica que deu origem a uma biblioteca sem livros, um prédio inadequado que afasta as pessoas. A administração cultural em Brasília é de uma mediocridade cavalar. Xuxa, breganejos, tudo isso é anti-cultura. É lixo. Não é assim que se cria uma identidade para uma metrópole. Estou de saco cheio de tudo isso. Está certo que os artistas devem fazer sua parte e estão fazendo. Mas esses políticos me dão náuseas. Abraço, Alexandre Marino (www.alexandremarino.com)

Paulo Timm disse...

Aí Turiba! Manda o pau! A comunidade artística não pode ficar calada diante de tanta mediocridade em curso na cidade e que promete fazer dos 50 anos apenas uma Festa. Onde está a memória da cidade? No Arquivo Público? Ora...Ora...Onde há uma Biblioteca sobre temas de Brasília? A cidade foi capital do rock. Onde está o registro desse feito? Você tem pique pra fazer um Manifesto dando conta dessas e outras coisas e montando um Movimento - nada de reuniões, tudo virtual - congregando iniciativas e idéias. Que tal um BLOG só para discutir o tema? Conte comigo. Paulo Timm - www.alexania.tv

Val Freitas disse...

carioca, jornalista, poeta, empreendedora, amo Brasília. minha relação com esta cidade já está próxima dos vinte, uma relação jovem e cheia de sedução. só fala mal de Brasíllia quem não compreende nem nunca arriscou lançar o olhar para este céu... os óculos escuros são puro charme de quem vive de andar aqui. enfim, amei descobrir estas falas do Turiba. até porque estou com a cabeça cheia de mil ideias e quero muito participar com algun(s) projetos que venho escrevendo desde então. os 50 Anos de Brasília precisam ser celebrados, sim. vamos restauras memórias e finalmente, beijar a dama. contem comigo também.