terça-feira, 28 de abril de 2009

Flamengo sempre hei de ser

Luis Turiba

Não tem aquelas coisas que a gente tem de fazer antes de morrer pra justificar o karma da existência? Então: o mercado editorial está cheio de livros sobre isso: os cem melhores lugares pra você conhecer; os 10 pratos a saborear; as 50 inesquecíveis músicas; e por aí o papo segue noite a dentro.

Dia desses, proseando fiado com o professor e senador Cristovam Buarque sobre o tema, falamos de alguns episódios extraordinários das nossas vidas que, sem dúvida, colocaríamos em primeiro lugar num currículo pessoal, mas que do ponto de vista profissional não tem o menor valor para a atividade que desenvolvemos.
Alguns desses fatos, aliás, se você colocar no currículo, pode sujar, diminuir ou eliminar de vez suas chances de alcançar seu objetivo, quer seja uma vaga em alguma empresa ou um cargo público executivo ou legislativo.

O professor citou como exemplo de fato magnífico, sua participação em uma Maratona de Nova Iorque. Realmente um acontecimento esportivo e cultural que merece lugar de destaque em qualquer currículo. Atravessar as pontes de Manhatan e olhar lá de baixo seus arranhas-céu, ao mesmo tempo que você testa o pique físico ouvindo jazz, blues e canções de Cole Porter, é sem dúvida um charme curricular transcendental. Quem já fez, sabe. Quem não fez, que faça.

Se não cortei “New York New York” suando bicas, ao menos já atravessei várias vezes a Marquês de Sapucaí cantando, dançando e o que é melhor; tocando. Tocar em baterias de escolas de samba do Rio, num domingo ou numa segunda de carnaval, é fato que deixar qualquer ritmista garboso. Aliás, desfilar no sambódromo deveria ser experiência obrigatória para qualquer ser humano, ao menos uma vez na vida.

O que dizer, então, de tocar cuíca na bateria da Estação Primeira de Mangueira, hein?! A bateria nota 10, a que marca com um surdo só, dando a impressão que o samba está sempre em ascensão. Avançar, parar, recuar. Ver a escola passar no ritmo que você faz por uma hora e meia; o pessoal da Velha Guarda, os requebros da rainha, o rodopio do mestre-sala e porta-bandeira. Nossa!, melhor do que isso só montar por 30 segundos um touro bandido no rodeio de Barretos ou chegar no topo do Himalaia vestindo a camisa da Seleção Brasileira. Ufá!

Bem, mas pra que serve tudo isso num currículo profissional? Sabe-se lá? Podemos até falar em currículo espiritual, sentimental, astral. O certo é que prossigo colecionando ações extra-curriculares que aparentemente não vão me dar um cargo no céu, digo, senado.

Domingo último, por exemplo, fui ao Maracá torcer pelo Mengão no primeiro jogo da final do campeonato carioca contra o Botafogo. E aí, de repente, me vejo envolto num espetáculo de fibra, raça, amor e paixão que é a torcida do Flamengo. Aquela massa de gente forma a maior e mais plástica de todas as torcidas do mundo, batendo até os “locos” do Corinthias, com o Fenômeno é tudo.

“Cadê você, cadê você” é o nome hit pra empurrar o time pra cima do adversário. E todo mundo canta, grita, pula. Tudo em vermelho e preto resplandecendo em bandeiras e cartazes.

Ah, lembro-me dos idos históricos anos 80 quando o time tinha Rondinele, Júnior, Adílio, Zico, Bebeto, jogava por música e foi campeão mundial em Tóquio. Coitado do adversário que fazia um gol no Flamengo. A torcida reagia imediatamente, fazia em uníssono aquela tenebrosa vaia silenciosa, aquele mugido que invadia a espinha do time adversário, e a bola ia rolando, rolando, rolando até chegar à rede contrária. Gooooool!!!!

Sim, naquele tempo tínhamos um time invencível, parecia o Santos do tempo de Pelé. O Flamengo de hoje não é ainda do que poderíamos chamar de timaço. Mas a torcida, essa sim, é incrível. Apesar do time está capenga em campo, perdendo de 2 a 1, empurramos os jogadores para a área do Botafogo aos gritos de “vamos virar, Mengão; vamos virar”. Se não virou, empatou aos 40 do segundo tempo.
Os golzinhos contra do zagueiro do Botafogo têm a minha, a sua, a participação de milhões de torcedores. Fomos nós, abraços e emocionados, que explodimos o Maracanã com o hino do Lamartine Babo: “eu teria um desgosto profundo, se faltasse o Flamengo no mundo.”

É gente, ser torcedor do Flamengo talvez venha a ser o ponto mais alto do meu currículo vivencial. Não me dá emprego, nem mordomias, nem aposentadoria. Mas viver sem torcer por ele não sei não. Lamartine Babo tinha razão: “uma vez Flamengo, sempre Flamengo. Flamengo sempre hei de ser.” E assim seremos.



4 comentários:

luis turiba disse...

Artur Pedro, arquiteto, escreveu:
"Que bonito Turiba, muito legal mesmo!!

Minha mãe falou que voce foi no jogo. Nossa, imagino como foi, deve ter sido fantástico.

Realmente torcer pro Flamengo no Maraca não tem coisa igual. Até arrepio só de pensar.

Grande Abraço

Compras online disse...

Uma vez flamengo...sempre flamengo!!!!

Fernanda disse...

Legal seu blog! Parabénsssss! E Bico da Torre ainda é a maior. Beijo

Fernanda Lambach

vania disse...

Um dia, crio coragem, e entro com você no maracanã pra viver tal emoçao!