quinta-feira, 16 de abril de 2009

Três poemas para Kido Guerra

A morte é realmente uma senhora ingrata. Chega de solapa com sua foice afiada e nos deixa com aquela cara de “e agora José?”

Desta vez, a senhora sinistra levou um guerreiro elegante. Morreu quarta-feira (15.04) o jornalista, escritor, músico e pensador Kido Guerra, 49 anos, jornalista, escritor, músico, teatrólogo, pensador e ex-editor do Correio Braziliense morreu quarta-feira (15.04).
O enterro foi nesta quinta-feira, 16 de abril, no cemitério Boa Esperança, na presença de amigos e companheiros das redações de Brasília.

À memória do Kido, dedico esses três poemas cardiográficos que falam das artimanhas deste involuntário do peito.


Tempestade cardíaca

deixei meu coração à beira da tua cama
fui ali cantar com as cigarras do outro lado da lua

chorei tanto
que estrelas caíram do meu peito nublado
salpicando os caminhos
de raios-relâmpagos & verdades recordações


MorrerViver

quando morri, nasci
da bolha d`água onde vivia
berrei o sopro de um fim
com a terrível luz do dia

um dia fui feto e morri
bebi líquido ameniótico
fui anjo da própria mãe
acalmando-a das neuroses

mundo rodando e eu ali
borbulho de um rei vítreo
quente o feto faz do giro
seu último e futuro filho

quem nasce é porque morre
do aquático mundo velho
a dor é gélida na passagem
água é morna o ar é melhor

tempo feito sem memória
o afeto é mais que células
das sensações nasce a mãe
o feto apenas morre delas



Involuntarioso

coração, órgão bomba
bicho-doido solto sombra
involuntário da pátria
que horas são coração?
coração mais sem graça

faz veneno sangue bom
vai bombando toda ação
nem avisa as ameaças
vem coração, sem trapaça
vem dar tua artéria à tapa

Um comentário:

paulo disse...

Turiba querido, como são bons seus poemas, como é triste a memória do guerreiro elegante que sempre foi o Kido. Sinto falta de abraços. Paulinho