segunda-feira, 11 de março de 2013

O POEMA ANDARILHO E SEU CAJADO ALADO

O poeta andarilho e seu cajado alado

 

 Sigo

 

passo a vida por um rio

         assim como a Portela na avenida

 

lavo-a enxáguo-a chuleio-a

 

levo-me leve em vôos sem lei

         meu fio terra é madeira de fibra

 

sou andarilho

 

portanto

         com (par) trilho

 

meus pés zeram a mente

 

piso o passo dos que passam

pé pós pé pós pé pós pé

até não mais prosperar

 

sigo a sina dos sem-cisma

tendo ao lado meu cajado

alado e desconfiado

um fariseu distraído

afável & aviolado

 

companheiro

dos meus pés cansados

das letras vivas dos passos

das pernas tortas do corpo

das caminhadas infindas

do porte atlético e ereto

 

enquanto caminho

menos é mais

aperto chacoalho sucumbo

até só sobrar

o que não soçobrou

 

busco a essência dos sistemas

tiro as porqueiras das emboscadas

passo acima de zilhões de formigas

congestionamentos túneis avenidas

assembleias passeatas estádios

 

verdadeiro sistema viário

         todas ao trabalho

um formigário ativo

e formigável

 

pulo sem machucá-las

sigo

         crio novas pontes

e na terra à vista

abro picadas pelas pistas

dou linha à pipa

         dou de bico

 

caio nas armadilhas

sem ter medo dos perigos

dessas trilhas

 

sou também uma formiga

um bonde da existência

nos trilhos dos descaminhos

 

salto e sigo

descalço dos meus encalços

pisando com meu cajado

na estrada rumo a riba

as expressas, os estribos

pelas trilhas gramas terras

que beiram a BR-criptica

 

sonhos senhas

sedes credos

scripts santos ao sol

flores filtros

afloram o céu

 

cada passo um destino

cada ritmo uma rotina

caminhada é teimosia

mas sim, sigo rumo ao fim

 

mesmo pisando desvios

sinto o som da sinfonia

buzinas arranques freios

sanfonas em surdinas

motores desafinados

entre gritos e silêncios

 

 

Parceiro

 

o homem é o homem

seu cajado e seus sapatos

 

o homem não é só

seu par de tênis:

é anthenas de athenas apenas

 

faço alongamentos

estico pensamentos

espalho-os ao vento

refazendo musculaturas

como pipas de idéias

como rabiólas poéticas

 

sigo alquimista

construindo amálgamas

profecias e sátiras

sobre o absolutamente Nada

 

cada batida no chão

uma nova reflexão

 

todo rabisco é um risco

manipulo o meu cajado

e ele me faz seu escravo

somos bússolas

pra todos os lados

 

rodopio-o na mão e dou impulso

girando-o sobre meu próprio vulto

fazendo-o minha santa lança

na peleja contra o inimigo oculto

 

seguimos como um par

na rotina da nossa dança

 

         (pra que inimigos

          se ouço o canto das cigarras

          o perequear dos sapos

          o tiritilar dos periquitos

          o água-rola dos rios sorrindo?)

 

e sigo

a trilha dos que estão vivos

 

secretos signos terrestres

nos dormentes dos terrenos

 

quem não guerreia

não semeia a paz

 

Libertário

enquanto as pernas pensam
a cabeça voa 
os músculos se esticam

caminhar é pisar chão
sem pisá-lo de antemão

meu cajado calejado
por mãos tão delicadas
é tinta de apoio à frases
de faces descarimbadas

esticar as pernas
é acordar espermas
e isso me desespera

despertai libertinos
junto a mim moram os livros
vizinhos livres tão vivos

meu cajado é libertário
temos quase a mesma altura
caminhamos em paralelo
olhando o mundo às avessas

ele à frente, eu mais atrás
a gente quase não se encontra
seguimos a passos avulsos
plugados à lei do impulso
cobertor é muito curto

tento até levar um papo
nem te ligo é surdo é mudo
falo dos conflitos étnicos
xiiitas semitas e curdos
ele nem se desconjura

tento a alta das taxas de juros
o danado dá de lado

é zen é revigorado
não joga na bolsa, em nada
come arroz integral
e só toma decisões
pra pecados ou pra afins
após consultar o i ching

manipulo o meu cajado
como samurai a sua espada
rasgando o silêncio do vento
ou será o meu cajado
que distancia minha mente?


Naturezo

quanto mais leve o fardo
mais farta é a levitação

a cada passo
um descongelamento
de um futuro avivamento

o bom da morte
é a inacessível condição
de cerimônia de passagem
deixa tudo em suspensão
no mergulho fascinante
compromissos amores certezas
e as contas a pagar
tal qual porto
ou parto

o céu azulindo
faz sorrisos colorrindo

a terra molhada
cheira a vermelho
o cio da terra é centelha
alegra os formigueiros

o clima de deserto me seca
o grão da areia onde pesco

o canto encontra a cachoeira
onde me afresco

é seca
falta H2O sobra pó
ar puro de eucaliptos
aroma de ritmos


Zumbições


toda estrada tem murmúrios
sinfonias pneumáticas
rugidos rumores
freadas arrancadas
solos de motores
um coro de buzinadas

uma jamanta arisca
atropelou meu coração
foi uma amor contramão
amor à primeira pista

pista de pouso
pista de dança
pista de prova
pista do crime
pista do meio

são tantas pistas na estrada
que também perdi meu freio

é triste da gente ver
uma carreta enguiçada
na beira da rodovia
tal qual cobra matada
a pau a pedra a má sorte

a cabeça ali exposta 
vitória da dona morte

galhos secos cercam em volta
dão o tom do funeral


Parafrutos

ao caminhar
aumento minha coleção de parafusos
enferrujados expulsos dos caminhões
rolam sempre pra contra-mão

acho-os e cato-os
para voltar a enterrá-los
em covas de árvores profundas
são excelentes nutrientes

nada mais sem razão
que parafusos sem porcas
pra desparafusar as portas
desparafrizar as frases
desparafiar as voltas
desparafrutar os frutos

parafusos dão as costas
a toda rosca quié esnobe

olho o visual do pasto
pulsares de verdes me avivam os olhos
cabeleiras de mato alto
dançam verdiabruras ao vento

é a percussão da natureza
verde como o tempo



Péspedra

diabitos experimentais
empurram-me para fogueiras existenciais
pisco em brasas
queimo consciências
algo arde na farda
da minha carne anêmica

é a chegada?...
qual nada!!!

um mar de borboletas me nuveia
o chuá do rio tem o som de valsa
o grilo lá no mato faz sua ronda
uma buzina lambe meu celular
sonhos são ventos que não param

e se a nuvem secasse sem chover?
e se a luz me cegasse por você?
assim na manhã de um anoitecer
uma simples maçã a amadurecer

toda caminhada ensina
a ter a física disciplina
até que o sangue afine

procuro o ar
o ar não há
no estica e puxa
teso os músculos
o suor pinga
é longa a marcha
que leva à China

top não é stop
do topo do morro ao pé da serra
sigo passarinho entre os pingos da chuva

olho o mundo
com a sola dos meus pés de terra
e sangro: 
sou discípulo da pedra 


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